
The Post é o elegante filme de
Spielberg que segue na mesma esteira de Ponte dos Espiões, como os longas
dramáticos do diretor. Sempre variando entre a fantasia/aventura com os
trabalhos que tem como principal fundamento o drama. Assim, narra a história
real do movimento que o The Washington Post fez para revelar os papéis do
Pentágono e desafiar o governo americano.
O
conteúdo do longa soa forte, afinal, na era da Fake News parece que o trabalho
do jornalista vem sendo cada vez mais visto com mal olhos. Aliás, em tempos de
total batalha entre jornal e presidência, é só ver os discursos de Donald Trump
que, a todo momento, coloca os jornais como seus inimigos número um. Assim, é
digno de nota a disparidade dos tempos e o efeito que possivelmente o filme pode
causar nos espectadores contemporâneos. Existem outras duas coisas que parecem
ser extremamente interessantes de se dizer sobre o conteúdo, primeiro, que o
longa funciona como um prequel de Todos os Homens do Presidente, filme dos anos
70; segundo, pela semelhança de estrutura com Spotlight, recente vencedor do
Oscar, no qual a equipe do Boston Globe investigava um tema ainda mais
controverso, os casos de pedofilia da Igreja.
Spielberg
conduz o longa com certa elegância, com seus planos-sequências que produzem um
dinamismo à encenação. Muito por conta do ótimo design de produção que consegue
reconstituir a época, além é claro de sua fotografia, que carrega um brilho dos
anos 60. A primeira sequência como um todo, na qual a informação de que o EUA
estava falhando durante a guerra do Vietnã surge e faz seu caminho até chegar
próximo dos jornalistas é fantástica. Com pequenos movimentos de câmera que
acompanham maletas e pastas, ou ainda enquadramentos que de certo erotizam
esses objetos que carregam informação. Mesmo que não seja um filme de
espionagem essa primeira sequência transforma o filme de jornalismo americano
praticamente num suspense.
Kay
Graham, interpretada por Meryl Streep, e seu parceiro Ben Bredlee, interpretado
por Tom Hanks, têm em mãos a possibilidade de revelar um grande segredo e que
potencialmente desafiaria a honestidade do governo americano da época. A
experiência destes dois atores faz com que seus personagens se engrandeçam em
cena, quando estão juntos Spielberg não precisa fazer muito, mantendo muitas
vezes a câmera enquadrando os dois, deixando a gestualidade surgir. Meryl
Streep, em especial, consegue dar muita emoção à sua personagem, principalmente
por ser uma mulher num ambiente extremamente masculino, contudo sendo a única
com todas as forças para usar desta informação como algo importante para
população.
O
elenco ainda conta com Bob Odenkirk, Sarah Paulson, Michael Stulhbarg, Bruce
Greenwood e tantos outros, que apesar de serem competentes, surgem um tanto
quanto frios. O que torna a equipe como um todo do jornal pouco interessante,
por mais que Ben e Kay sejam icônicos. Para dar essa intensidade maior à equipe
e ao cenário jornalístico, Spielberg utiliza da câmera de mão, o que cria uma
zona de velocidade de decisão e de tensão para cada um dos atos dos
personagens. Mas talvez o mais belo recurso de Spielberg é a forma com que
busca encerrar o caso da publicação desta informação, mostrando o processo de
produção do jornal, capturando os mínimos planos-detalhes de cada engrenagem,
do risco de cada palavra, é uma ode àqueles jornalistas que lutaram pela
exposição, não da verdade, mas de fatos para que a população refletisse sobre o
que ocorria em seu país. Afinal, em tempos de Guerra Fria e tamanha
bipolaridade do pensamento, dos afetos e dos corpos, o que mais existe são
aqueles que esbravejam em seus extremismos e conquistam olhos que buscam
dignidade, sempre associado à glória.
Cabe,
por fim, apenas comentar em como John Williams continua a criar um sabor aos
filmes do Spielberg, que sempre o tornam espécies de clássicos. Além daquele
aspecto grandiloquente emocionalmente, um típico som que se é possível de
lembrar ao ver algo de heroico ou aventuresco sendo feito. Talvez por o cinema
de Spielberg, mesmo os filmes mais sérios (como ele mesmo distingue), contém
uma experiência próximo ao da criança que busca inspiração para sua imaginação.
Seja na fantasia ou mesmo na realidade.
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