quinta-feira, 6 de setembro de 2018

2017 – The Post (Steven Spielberg, EUA) **** (4.0)


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The Post é o elegante filme de Spielberg que segue na mesma esteira de Ponte dos Espiões, como os longas dramáticos do diretor. Sempre variando entre a fantasia/aventura com os trabalhos que tem como principal fundamento o drama. Assim, narra a história real do movimento que o The Washington Post fez para revelar os papéis do Pentágono e desafiar o governo americano.
            
O conteúdo do longa soa forte, afinal, na era da Fake News parece que o trabalho do jornalista vem sendo cada vez mais visto com mal olhos. Aliás, em tempos de total batalha entre jornal e presidência, é só ver os discursos de Donald Trump que, a todo momento, coloca os jornais como seus inimigos número um. Assim, é digno de nota a disparidade dos tempos e o efeito que possivelmente o filme pode causar nos espectadores contemporâneos. Existem outras duas coisas que parecem ser extremamente interessantes de se dizer sobre o conteúdo, primeiro, que o longa funciona como um prequel de Todos os Homens do Presidente, filme dos anos 70; segundo, pela semelhança de estrutura com Spotlight, recente vencedor do Oscar, no qual a equipe do Boston Globe investigava um tema ainda mais controverso, os casos de pedofilia da Igreja.
            
Spielberg conduz o longa com certa elegância, com seus planos-sequências que produzem um dinamismo à encenação. Muito por conta do ótimo design de produção que consegue reconstituir a época, além é claro de sua fotografia, que carrega um brilho dos anos 60. A primeira sequência como um todo, na qual a informação de que o EUA estava falhando durante a guerra do Vietnã surge e faz seu caminho até chegar próximo dos jornalistas é fantástica. Com pequenos movimentos de câmera que acompanham maletas e pastas, ou ainda enquadramentos que de certo erotizam esses objetos que carregam informação. Mesmo que não seja um filme de espionagem essa primeira sequência transforma o filme de jornalismo americano praticamente num suspense.
            
Kay Graham, interpretada por Meryl Streep, e seu parceiro Ben Bredlee, interpretado por Tom Hanks, têm em mãos a possibilidade de revelar um grande segredo e que potencialmente desafiaria a honestidade do governo americano da época. A experiência destes dois atores faz com que seus personagens se engrandeçam em cena, quando estão juntos Spielberg não precisa fazer muito, mantendo muitas vezes a câmera enquadrando os dois, deixando a gestualidade surgir. Meryl Streep, em especial, consegue dar muita emoção à sua personagem, principalmente por ser uma mulher num ambiente extremamente masculino, contudo sendo a única com todas as forças para usar desta informação como algo importante para população.
            
O elenco ainda conta com Bob Odenkirk, Sarah Paulson, Michael Stulhbarg, Bruce Greenwood e tantos outros, que apesar de serem competentes, surgem um tanto quanto frios. O que torna a equipe como um todo do jornal pouco interessante, por mais que Ben e Kay sejam icônicos. Para dar essa intensidade maior à equipe e ao cenário jornalístico, Spielberg utiliza da câmera de mão, o que cria uma zona de velocidade de decisão e de tensão para cada um dos atos dos personagens. Mas talvez o mais belo recurso de Spielberg é a forma com que busca encerrar o caso da publicação desta informação, mostrando o processo de produção do jornal, capturando os mínimos planos-detalhes de cada engrenagem, do risco de cada palavra, é uma ode àqueles jornalistas que lutaram pela exposição, não da verdade, mas de fatos para que a população refletisse sobre o que ocorria em seu país. Afinal, em tempos de Guerra Fria e tamanha bipolaridade do pensamento, dos afetos e dos corpos, o que mais existe são aqueles que esbravejam em seus extremismos e conquistam olhos que buscam dignidade, sempre associado à glória.
           
Cabe, por fim, apenas comentar em como John Williams continua a criar um sabor aos filmes do Spielberg, que sempre o tornam espécies de clássicos. Além daquele aspecto grandiloquente emocionalmente, um típico som que se é possível de lembrar ao ver algo de heroico ou aventuresco sendo feito. Talvez por o cinema de Spielberg, mesmo os filmes mais sérios (como ele mesmo distingue), contém uma experiência próximo ao da criança que busca inspiração para sua imaginação. Seja na fantasia ou mesmo na realidade.

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