sábado, 9 de junho de 2018

1972 – Roma de Fellini (Federico Fellini, Itália) ****1/2 (4.5)


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Já foi falado acerca da incursão felliniana na memória, o seu estilo como uma apresentação em alvéolos. Tudo está aqui, Roma é uma filme-hino, uma ficção que desliza pelo molho de tomate do macarrão tão comum. É a realidade da coexistência entre os tempos, se Roma se apresenta no ano de 1972, não só é moderna, como clássica e futurista. O mesmo método utilizado em Os Palhaços serve aqui de porta de entrada para explorar a capital italiana e suas peculiaridades e, principalmente, seu mundano. 
            
Existe uma loucura própria de uma geração inspirada pelo movimento hippie dos anos 70 europeu, que entra em mescla com o cenário helênico, com o peso histórico da cidade de Roma. Mas, para chegar nesse movimento, nessa expressão contemporânea da cidade, Fellini passeia antes por sua memória, ou melhor, deixa de forma quase nítida – afinal, um mágico não pode revelar por completo seu truque – como sua direção do presente perfaz os mecanismos mnemônicos. Descobrimos pouco a pouco como esse homem do interior da Itália, da pequenina Rimini, descobriu o que era Roma. Sua infância é expressa por pequenos sketches que contrapõem o didatismo das aulas e das representações clássicas, com a imensa tela do cinema que distorce a imagem. Fellini nos coloca tão próximo à tela, com os seus rostos imensos, ao mesmo tempo que nos aproxima dos rostos dos espectadores, rostos também imensos.
            
Tentando demonstrar certa entrada para a capital da Itália, mesmo não sendo esta a única entrada, logo nos vemos imersos nos costumes da cidade, nas caricaturas, no estilo dos romanos, do macarrão à bolonhesa, no rancor da mulher italiana, o intenso senso materno, tudo isso é de certa simbologia romana, cultural, talvez até mesmo uma visão folclórica da cidade. Logo, a contrapõe com essa, então, cultura hippie, essa contracultura, com os engarrafamentos intensos, as chuvas, os rostos estranhos e distantes dentro dos carros. Quase um cenário pós-apocalíptico.
            
Estes são os mesmos recursos de Os Palhaços, em que mescla o documentário com a ficção onde se tornam indiscerníveis. O próprio diretor surge dizendo a versão de Roma que gostaria de mostrar, aquela que não foge de sua natureza, com certeza uma natureza pagã. Existe uma sequência que expõe com extrema força essa apropriação de Fellini.  Os trabalhadores estão construindo um metrô no subsolo da cidade, onde encontram estátuas e outros símbolos tão presentes no imaginário. É um processo que parece apagar a história, quanto mais modificam e acoplam a tecnologia à cidade, mais destroem sua história, ousando apagar os símbolos daquele Império. É nesse momento que o vento soa forte, vagueando por entre as inúmeras bifurcações da toca em que os trabalhadores são obrigados a fazer o que fazem.
            
Existem ainda outras entradas. O que chamo aqui de entradas não são exatamente temas, não são distintos temas que são apresentados, afinal, existe apenas um ponto em fluxo que é Roma. As entradas são os caminhos escolhidos que não configuram numa adição temática, mas sempre numa experiência nova ao lado, que não se sobrepõem, ao passo que não desenvolvem as outras, cria apenas um mapa afetivo. Quando acompanha, por exemplo as prostitutas, construímos uma experiência distinta de outrora, mas não deixamos de nos afetar pelo principal: a cidade. Por isso mesmo o diretor não apresenta necessariamente nova intrigas ao enredo, mas sim, passeios, se são intrigas elas são sempre sem sentido e sem solução. Outras situações são apresentadas, como o grande desfile religioso, ousando demonstrar a pomposidade inerente à religião católica, tão próximo à frivolidade da mais nova moda.
            
Fellini escolheu adentrar em Roma por sua lembrança, o que o levou para diversos lugares. Me recordo de uma frase de Deleuze, falando mais especificamente da literatura, em seu livro Crítica e Clínica, “Não se escreve com as próprias lembranças, a menos que delas se faça a origem ou a destinação coletiva de um povo por vir ainda enterrado em suas traições e renegações”. Eis precisamente o que o diretor italiano parece conduzir, essa Roma de Fellini é sempre uma Roma por vir, não porque é utópica e sempre estará alhures, mas sim, por conta de uma intensidade em sua direção que parece produzir um passeio ao futuro, tendo sempre como base tudo o que a cidade já foi, o que sua presença fez, sua afecção no mundo.
            
Encerrar com um pequeno diálogo com Anna Magnani parece ter sido crucial para esse ponto. Ela é o rosto da cidade, diz Fellini por detrás da câmera, mas ela fecha a porta na cara do diretor, pois não confia nele o suficiente para saber o que ele pretende perguntá-la. Roma não dará resposta alguma a ele, por isso ele inventa Roma, mas não de forma metafórica, ou num plano distinto, utópico, e sim, uma cidade de afecção que parte dele e se torna enunciação coletiva, numa espécie de afeto de memória, de reconhecimento atento.
            
Roma é mais um movimento de Fellini pela via do digital, do cinema jornalístico, das reportagens, da TV. Tudo isso parecem influenciar o diretor no seu período de 70, assim como a fragmentação cada vez mais onírica. Parece uma perfeita organização do estilo proposto em Os Palhaços.

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