segunda-feira, 2 de julho de 2018

2017 – A Forma da Água (Guilermo Del Toro, EUA) ****1/2 (4.5)


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Desde seus letreiros, anunciando o início, até aqueles que anunciam o fim, A Forma da Água é uma fantasia que se impregnou na memória de Del Toro, uma fantasia sobre o Eros. Mais precisamente na mistura incômoda entre o mistério e o amor. Esse conto de fadas moderno narra a história de Eliza, uma faxineira muda que trabalha num laboratório do governo americano, durante a Guerra Fria. Neste local polido encontra uma criatura aprisionada, por quem ela se apaixona.
            
Eliza, interpretada com leveza por Sally Hawkins, vive numa rotina engessada, tendo alguns escapes no romantismo dos musicais americanos, ou ainda na exploração de sua sexualidade. Seus companheiros são o seu vizinho, Giles, interpretado por Richard Jenkins, um já idoso pintor que tenta fazer propagandas, mas seu estilo parece antiquado, e Zelda, interpretada por Octavia Spencer, sua colega de trabalho, que vive reclamando do marido. Todos parecem viver nesse mesmo frescor romântico, até mesmo nostálgico, é só ouvir as músicas ou os musicais que aparecem de relance no longa. Não é à toa que Giles muda de canal do noticiário para um belo musical. Todos eles parecem estar vivendo num ambiente fechado, olhando pela janela o mundo encantador do qual não podem alcançar.
            
Comandando as investigações e experimentos no laboratório americano temos Strickland, interpretado por Michael Shannon, um caricato vilão que está sempre em busca de uma pretensa virilidade, expondo seu porrete como objeto de poder. Além do cientista Robert, interpretado por Michael Stuhlbarg, que parece ter estreitas relações com os inimigos soviéticos. Strickland revela ser a figura ideal do american way of life, com uma família nuclear e emprego de ponta, completamente preconceituoso, levando o antropocentrismo ao extremo, ao tornar não só o ser humano como modelo de tudo, mas o homem branco (para não acrescentar aqui outras variáveis). Aliás, sua relação com Eliza se torna doentia a partir do momento em que ele descobre que a mudez a tornaria mais fácil de ser controlada, numa espécie de fetiche sexual.
            
Mas Eliza não está interessada nele e sim no monstro, que reciprocamente se impressiona com ela. Os dois não se comunicam como os outros, eles constroem um laço muito forte, o do Eros. Que difere do fetichismo do estrangeiro, do qual Strickland torna Eliza seu objeto. O Homem Anfíbio era considerado um deus nas águas amazônicas, possuindo habilidades sem iguais, seu amor por Eliza parece ser incondicional, um amor que está liberto completamente de qualquer pressuposto do modelo antropocêntrico pautado pela figura vilanesca do filme.

É nessa disposição dos personagens que é importante ressaltar o uso das cores em todo o design de produção. O laboratório e até mesmo o pequeno apartamento de Eliza contêm a cor verde, como musgo, em todo o ambiente. Giles é obrigado a refazer uma obra sua por ter a cor vermelha, onde deveria haver a cor verde, pois está é a cor do futuro. É como se essas duas cores de fato lutassem no longa, o vermelho romântico e o verde como o futuro insonso. Até mesmo o carro novo de Strickland, é chamado de “teal”, uma espécie de verde-azulado, o carro do futuro para o homem do futuro. Todo os cenários, toda maquiagem utilizada, não só na criatura, mas também para recompor o estilo da época é cheio de relevo, e produzem essa batalha incessante.

A inspiração na época torna o musical uma espécie de refúgio ideal para o amor erótico que conduz o sujeito para o mundo, se entregando ao desconhecido. Assim, têm-se músicas da época, até mesmo Carmen Miranda, têm-se o cinema clássico em sua grandiloquência, com a suas cadeiras vermelhas expulsando o verde, a trilha sonora como um todo ressoa como uma espécie de contos de fadas, algo como A Bela e a Fera ou A Pequena Sereia. É nessa fusão que obra de Del Toro pulsa, entre os contos de fadas e os musicais, sempre o amor erótico.

A montagem do longa ajuda a criar uma sensação de fluidez muito poderosa, usando de algumas belíssimas fusões de cenas, sempre utilizando da água para criar essas transições. Fechando-se, assim como começou, criando uma espécie de coesão narrativa própria da fábula. O saudosismo de Del Toro parece estranho se pensar que na época dos musicais o mundo era bem menos tolerante em relação à diferença, porém o que ele parece buscar no meio desse universo é exatamente o romantismo que movimenta multidões.

A Forma da Água encanta por ser romântico sim, mesmo que nostálgico, talvez trazendo à tona que o amor ainda em tempos de ódio deve prevalecer, independente do modelo imposto à sociedade.

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