terça-feira, 12 de setembro de 2017

1936 – O Crime do Sr. Lange (Jean Renoir, França) ****1/2 (4.5)

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Este filme do Renoir contém momentos muito próximos dos noir americanos e do expressionismo de Fritz Lang, é um drama com um toque de suspense. Sua história é narrada por uma forasteira num bar, todos ao redor estão querendo entregar seu marido à polícia, já que foi acusado de assassinato. Como A Cadela, o filme contém uma introdução que diz bastante sobre a história que está para ser contada, Lange era o funcionário de uma editora de histórias em quadrinho que assassina seu patrão.
            
Cada vez mais estabelecido com a potência do realismo cinematográfico, ao mesmo tempo que ainda explorando a captação de movimento do cinema como forma de experimentação. Todo o início do filme é narrado para demonstrar como Batala, o dono da editora, era um vigarista e um opressor de seus empregados, assim como recortava toda a veia artística de Lange e não só isso, também assediava todas as mulheres que estavam ao seu redor, por mais que ele tivesse uma esposa. Renoir não só constrói com acontecimentos a figura deste personagem vilanesco, mas também com a maneira que posiciona seu ator no enquadramento, sempre parece grande, imerso em um sobretudo misterioso. Nestes primeiros momentos, também, é possível denotar a habilidade que o diretor tem de narrar uma história com uma grande quantidade de informação em tela, com as janelas ao fundo sempre contado outras histórias, sempre ensaiando para a grande realização de A Regra do Jogo. O filme se torna singular de fato quando Batala é dado como morto em um acidente num trem. Surgindo mais uma vez esse signo que parece amedrontar o diretor e também o deixar maravilhado, o trem que aparece em Uma Vida Sem Alegria e depois de forma ainda mais poderosa em A Besta Humana. Nesse filme, apesar de uma aparição mais simples, sem a eloquência da montagem e da captação de movimento dos outros, serve como ponto de virada na narrativa já que Batala supostamente morre num acidente com o trem.
            
Os empregados perdidos criam algo como uma comunidade criativa que continua a perdurar a revista. É um dos momentos mais belos do filme, já que o diretor explora o movimento de câmera e a profundidade de campo, conseguindo enquadrar diversas ações ao mesmo tempo, diferentes opiniões e desejos, porém mesmo assim formando uma composição de um grupo. Quando festejam o sucesso da revista, que sem um dono, consegue redistribuir o dinheiro e as potencialidades para todos de maneira justa, eis que surge Batala, como voltando dos mortos, usando de uma roupa de padre. Ele volta para assombrar a vida de seus empregados. Sendo possível fazer todo tipo de alusão simbólica, do embate entre o comunismo e o capitalismo, até mesmo, a própria união da Igreja à propriedade privada. É aqui onde o filme cresce ainda mais, chegando ao seu ápice, o desespero de Lange de perder o que conseguiu, todo o poder que adquiriu, todo o amor que almejou e até mesmo toda a felicidade que perpetuou. Renoir filma Lange, em dois pequenos planos-sequências, ao tomar sua decisão de assassinar o seu antigo patrão, o seguindo de fora do recinto, observando-o por janelas, até descer as escadas e então volta à tela, atirando no Batala. Uma cena que lhe deixa sem fôlego, lembrando muito com a cena inicial de A Marca da Maldade, que apesar de ser mais longa, traz a mesma intensidade e velocidade.  Não é um plano-sequência perfeito, pois existe um corte bem visível, que promove uma aproximação da câmera do rosto do protagonista, para depois, novamente, com o movimento, continuar a cena. Uma cisão entre a decisão e a realização do ato, talvez com isso tenha proposto uma hesitação em matar o homem, por isso o corte. Renoir, nos anos 30, já sabia toda a potencialidade que um plano-sequência poderia ter, algo que começou a ser mais explorado na modernidade do cinema, planos longos em movimento.
            
Na história que conta pode não ser um dos Renoir mais surpreendentes, mas em seus recursos cinematográficos não deixa de ser impactante. Fechando sua narrativa de modo forte e usando o movimento de câmera sua principal arma, o diretor francês constrói sua estética nesta convergência de movimento de câmera e o movimento do enredo. 

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