
O
segundo volume de contos sobre a crise portuguesa em 2014 traz menos fluidez às
narrativas, porém promove ainda mais experimentos. Os subtítulos de cada parte
foram cuidadosamente escolhidos, enquanto no primeiro volume o conjunto de
contos parecia se mexer de forma inquieta, aqui o sentimento de solidão ronda
cada canto em tela. Trazendo mais uma vez três contos, porém, dessa vez, sem
introdução alguma, apenas com um pequeno recado em tela falando a premissa do
projeto.
A primeira história é uma longa imersão
na fuga de um assassino. “Crônica de Fuga de Simão Sem Tripas”, neste segmento
percebe-se o total desolamento que a segunda parte parece propor. Um homem
indigesto que é perseguido por um “Drone”, no meio de um deserto salgado, como
se um velho oeste se misturasse de forma anacrônica com os tempos de hoje. Esta
primeira história se segura tão somente pela mera sensação de solidão, ao passo
que se torna de fato poderosa com o seu desfecho. Quando o ódio da população
contra seu governo torna um assassino em um herói. Como um conto ou fábula, a
história ganha uma lição política, Gomes demonstra como em tempos de crise
política, ideológica e de existência, as coisas podem se misturar, o que é o
bom e o que é ruim são escolhidos ao bel prazer de afetos irrepreensíveis, paixões
que empurram os corpos, um ódio que transforma um assassino no herói de todo um
povo.
O segundo segmento é que mostra toda
potência teatral e surreal que a proposta narrativa de Gomes implica. “As
Lágrimas da Juíza” que procura culpados em seu tribunal, porém um crime leva aos
outros, chegando ao ponto do absurdo, onde um gênio da lâmpada, que se veste
com qualquer roupa barata, surge, onde uma vaca fala, onde qualquer adereço
torna o seu personagem outro. Fugindo um pouco do realismo do cinema, inerente
ao cinema como afirmava Bazin, mas atingindo a potência do falso, a potência de
enxergar que apesar de toda fantasia que ronda a história, todos são humanos,
todos e nenhum são culpados. A maneira com qual o diretor conduz a narrativa
imensamente ordenada pelos diálogos, que são excepcionais, e retorna com a veia
cômica da primeira parte, porém, não menos insólita que os segmentos desta
parte. A fotografia que deixa uma sensação de roxo, assim como de tristeza, que
aliada às roupas falsas de seus personagens e da eloquência dos diálogos se
tornam uma potente recuperação do teatro em prol do cinematográfico. Apesar de
seu ritmo mias dinâmico e envolvente, consegue ser tão triste e solitário
quanto qualquer outro dos segmentos.
A terceira e última parte talvez
seja uma das mais complexas histórias de toda a trilogia, chamada de “Os Donos
de Dixie”, segue uma narrativa mais lenta, intercalada por alguns subcapítulos.
Contando a história de uma pequena cachorrinha, Dixie, e sua experiência
vivendo em um prédio de um subúrbio português. É de muita potência dar voz a um
pequeno animal, hoje em dia tão comum em prédios. Ela que, de família em
família, de pessoa em pessoa, é repassada como um objeto, porém, não um objeto
qualquer, como uma herança importante, algo que você deve se desfazer em
momentos difíceis, pois pode ser sua única salvação. Construindo uma
contradição de dar voz ao animal ao mesmo tempo em que os personagens em sua
volta o tratam como objeto. Não só o cachorrinho ganha ênfase neste prédio,
assim como as poucas plantas em seus vasos pequenos, tentando construir um mapa
da fauna e flora deste microcosmo. A história passeia pelos condôminos, jovens
depressivos, sem esperança de melhoras financeiras, imigrantes brasileiros e
tantos outros. A última cena da história é mais poderosa desta segunda parte, a
pequenina Dixie se depara com seu reflexo, como se sua existência pairasse no
prédio por mais que não estivesse mais ali, substituível como o trabalhador
para um empresário qualquer. Como também parece remeter a uma ideia de um
fantasma, de outra Dixie, pois todos sabem que ela é apenas uma ideia, com qual
cada morador procura enxugar suas tristezas. Remetendo-se imensamente ao cinema
de Apichatpong Weerasethakul, não só pela natureza simples e material dos
efeitos especiais, mas também pela incursão de duplicação fantasmagórica, pois
este último utiliza de maneira poderosa mitos tailandeses às narrativas
extremamente pessoais para contar suas histórias a um povo imerso em
superstição e ainda vivendo atualmente em uma ditadura política. A compulsão à
repetição parece ser uma metáfora vista tanto aqui por Dixie que se esquece de
todos os problemas que teve com seus donos, se jogando de cabeça no futuro e no
filme Cemitério do Esplendor, do diretor tailandês, que os tratores destroem o
passado em busca de um novo que parece uma cova. Repetir os mesmos erros, diversos
países vivem os mesmos dilemas.
À sua própria maneira, Miguel
constrói uma das obras mais importantes destes últimos tempos. Desafiadora,
intrigante, triste, inteligente, antiquada, moderna, anacrônica, faltam
adjetivos para descrever as viagens e potências estéticas desta segunda parte,
que por mais lenta que seja, é tão intensa e eloquente quanta a primeira.
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