sexta-feira, 1 de setembro de 2017

2015 – As Mil e Uma Noites 2, O Desolado (Miguel Gomes, Portugal) ****1/2(4.5)

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O segundo volume de contos sobre a crise portuguesa em 2014 traz menos fluidez às narrativas, porém promove ainda mais experimentos. Os subtítulos de cada parte foram cuidadosamente escolhidos, enquanto no primeiro volume o conjunto de contos parecia se mexer de forma inquieta, aqui o sentimento de solidão ronda cada canto em tela. Trazendo mais uma vez três contos, porém, dessa vez, sem introdução alguma, apenas com um pequeno recado em tela falando a premissa do projeto.
            
A primeira história é uma longa imersão na fuga de um assassino. “Crônica de Fuga de Simão Sem Tripas”, neste segmento percebe-se o total desolamento que a segunda parte parece propor. Um homem indigesto que é perseguido por um “Drone”, no meio de um deserto salgado, como se um velho oeste se misturasse de forma anacrônica com os tempos de hoje. Esta primeira história se segura tão somente pela mera sensação de solidão, ao passo que se torna de fato poderosa com o seu desfecho. Quando o ódio da população contra seu governo torna um assassino em um herói. Como um conto ou fábula, a história ganha uma lição política, Gomes demonstra como em tempos de crise política, ideológica e de existência, as coisas podem se misturar, o que é o bom e o que é ruim são escolhidos ao bel prazer de afetos irrepreensíveis, paixões que empurram os corpos, um ódio que transforma um assassino no herói de todo um povo.
            
O segundo segmento é que mostra toda potência teatral e surreal que a proposta narrativa de Gomes implica. “As Lágrimas da Juíza” que procura culpados em seu tribunal, porém um crime leva aos outros, chegando ao ponto do absurdo, onde um gênio da lâmpada, que se veste com qualquer roupa barata, surge, onde uma vaca fala, onde qualquer adereço torna o seu personagem outro. Fugindo um pouco do realismo do cinema, inerente ao cinema como afirmava Bazin, mas atingindo a potência do falso, a potência de enxergar que apesar de toda fantasia que ronda a história, todos são humanos, todos e nenhum são culpados. A maneira com qual o diretor conduz a narrativa imensamente ordenada pelos diálogos, que são excepcionais, e retorna com a veia cômica da primeira parte, porém, não menos insólita que os segmentos desta parte. A fotografia que deixa uma sensação de roxo, assim como de tristeza, que aliada às roupas falsas de seus personagens e da eloquência dos diálogos se tornam uma potente recuperação do teatro em prol do cinematográfico. Apesar de seu ritmo mias dinâmico e envolvente, consegue ser tão triste e solitário quanto qualquer outro dos segmentos.
            A terceira e última parte talvez seja uma das mais complexas histórias de toda a trilogia, chamada de “Os Donos de Dixie”, segue uma narrativa mais lenta, intercalada por alguns subcapítulos. Contando a história de uma pequena cachorrinha, Dixie, e sua experiência vivendo em um prédio de um subúrbio português. É de muita potência dar voz a um pequeno animal, hoje em dia tão comum em prédios. Ela que, de família em família, de pessoa em pessoa, é repassada como um objeto, porém, não um objeto qualquer, como uma herança importante, algo que você deve se desfazer em momentos difíceis, pois pode ser sua única salvação. Construindo uma contradição de dar voz ao animal ao mesmo tempo em que os personagens em sua volta o tratam como objeto. Não só o cachorrinho ganha ênfase neste prédio, assim como as poucas plantas em seus vasos pequenos, tentando construir um mapa da fauna e flora deste microcosmo. A história passeia pelos condôminos, jovens depressivos, sem esperança de melhoras financeiras, imigrantes brasileiros e tantos outros. A última cena da história é mais poderosa desta segunda parte, a pequenina Dixie se depara com seu reflexo, como se sua existência pairasse no prédio por mais que não estivesse mais ali, substituível como o trabalhador para um empresário qualquer. Como também parece remeter a uma ideia de um fantasma, de outra Dixie, pois todos sabem que ela é apenas uma ideia, com qual cada morador procura enxugar suas tristezas. Remetendo-se imensamente ao cinema de Apichatpong Weerasethakul, não só pela natureza simples e material dos efeitos especiais, mas também pela incursão de duplicação fantasmagórica, pois este último utiliza de maneira poderosa mitos tailandeses às narrativas extremamente pessoais para contar suas histórias a um povo imerso em superstição e ainda vivendo atualmente em uma ditadura política. A compulsão à repetição parece ser uma metáfora vista tanto aqui por Dixie que se esquece de todos os problemas que teve com seus donos, se jogando de cabeça no futuro e no filme Cemitério do Esplendor, do diretor tailandês, que os tratores destroem o passado em busca de um novo que parece uma cova. Repetir os mesmos erros, diversos países vivem os mesmos dilemas.
            
À sua própria maneira, Miguel constrói uma das obras mais importantes destes últimos tempos. Desafiadora, intrigante, triste, inteligente, antiquada, moderna, anacrônica, faltam adjetivos para descrever as viagens e potências estéticas desta segunda parte, que por mais lenta que seja, é tão intensa e eloquente quanta a primeira.   

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