sexta-feira, 29 de setembro de 2017

1936 – O Submundo (Jean Renoir, França) ****1/2 (4.5)

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É impressionante como Renoir consegue trazer com potência máxima e com simplicidade suas narrativas, extraindo o melhor de seus atores e utilizando de muitos recursos puramente cinematográficos. Dessa vez, aliando-se ao texto de Gorki “O Submundo”, trazendo um pouco de uma das suas temáticas favoritas, sobre a decadência burguesa e a singularidade de alguns excluídos sociais.
            
Logo de início, somos apresentados a dois dos mais importantes personagens da narrativa, primeiro com o barão, sendo encarado pela própria câmera. Um homem despeja elogios para um barão (interpretado magistralmente por Louis Jouvet) e a câmera se movimenta para a esquerda, os olhos do barão acompanham o movimento, pois é a câmera subjetiva de quem fala. Logo depois, ele despeja severidades, sobre a irresponsabilidade com qual o barão gasta seu dinheiro, dessa forma, a câmera se movimenta para a direita, sendo possível ver a figura do homem que fala num espelho ao fundo. Só nessa cena inicial, Renoir já expõe de forma poética os recursos que mais usa e os mistura, a profundidade de campo que nos faz assistir a mais de uma ação por vez e o movimento de câmera que diz tanto que intensifica os diálogos. O diretor francês transforma um diálogo qualquer em um objeto cinematográfico, ultrapassando a teatralidade que existe quando dois atores estão encaixados em cena como modelos fotográficos. Então, depois apresenta a Pepel, interpretado por Jean Gabin, sempre marcante, um ladrão que vive num cortiço rodeado de outros maltrapilhos. Ele, em especial, tem um relacionamento com a mulher do dono da morada.
            
Os dois personagens se encontram na casa do Barão, após retornar de mais uma péssima noite de jogatinas e aposta, no qual voltou com ainda mais dívidas. Pepel estava para roubar sua casa, porém sabendo que está já estava para ser destituída de sua posse, resolveu apenas se divertir com o ladrão. Criando assim uma bela amizade. Se tornando um excluído, ele vai embora para morar no cortiço também. É aí que o diretor explora seus excluídos (essa temática surgiu mais fortemente em Boudu), existem atores, bêbados, filósofos, loucos e mentirosos, todos perdidos no mesmo caminho. Muitos dos diálogos ocorrem dentro do ambiente, com personagens caminhando para lá e para cá, sempre compondo a cena com vida, nos caminhos errantes de seus personagens, ainda existe a eloquência da profundidade de campo em diálogos entre Pepel e sua amante, que aos poucos revela seu real desejo.
            
Existe alguns momentos em específico que fazem surgir diversos questionamentos sobre os personagens. O ator que aparenta ser louco assemelha-se bastante com o Antonin Artaud, que no ano seguinte ao lançamento deste filme foi dado como louco e encarcerado em um manicômio, talvez algo não muito relevante, porém, de certo, curioso. Este personagem que muitos dizem fazer, como todos os outros, apenas mentir, parece realmente estar proferindo apenas sua realidade.  Outro momento, talvez o mais memorável de todo o filme, é o que o Barão conversa com Pepel deitado na grama sobre como foram parar ali, o percurso de suas vidas, é um diálogo simples, mas que carrega o peso de que seus personagens são reais, são vívidos, parece que brilham. Quando no fim da cena, se deitam novamente na grama como se fosse a melhor, ou talvez, a única coisa que eles poderiam fazer ainda. Renoir é um dos diretores mais humanistas de todos, carrega consigo toda a herança do movimento do realismo poético francês, algo como um toque de cinema clássico e uma eloquência da linguagem própria do cinema moderno.
            
No fim, este pode ser considerado mais um filme de Renoir, o que já diz muito. Pois é um diretor que em toda obra deixa sua marca, suas intensidades, toda sua visão de mundo, sua percepção de arte. Por mais que não se veja um rio como muitas vezes aparecem em seus filmes para trazer o movimento e intensidade da vida, aqui ele apenas utiliza do movimento de câmera e da franqueza daqueles que foram excluídos socialmente. 

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