
É
impressionante como Renoir consegue trazer com potência máxima e com
simplicidade suas narrativas, extraindo o melhor de seus atores e utilizando de
muitos recursos puramente cinematográficos. Dessa vez, aliando-se ao texto de
Gorki “O Submundo”, trazendo um pouco de uma das suas temáticas favoritas,
sobre a decadência burguesa e a singularidade de alguns excluídos sociais.
Logo de início, somos apresentados a
dois dos mais importantes personagens da narrativa, primeiro com o barão, sendo
encarado pela própria câmera. Um homem despeja elogios para um barão
(interpretado magistralmente por Louis Jouvet) e a câmera se movimenta para a
esquerda, os olhos do barão acompanham o movimento, pois é a câmera subjetiva
de quem fala. Logo depois, ele despeja severidades, sobre a irresponsabilidade
com qual o barão gasta seu dinheiro, dessa forma, a câmera se movimenta para a
direita, sendo possível ver a figura do homem que fala num espelho ao fundo. Só
nessa cena inicial, Renoir já expõe de forma poética os recursos que mais usa e
os mistura, a profundidade de campo que nos faz assistir a mais de uma ação por
vez e o movimento de câmera que diz tanto que intensifica os diálogos. O
diretor francês transforma um diálogo qualquer em um objeto cinematográfico,
ultrapassando a teatralidade que existe quando dois atores estão encaixados em
cena como modelos fotográficos. Então, depois apresenta a Pepel, interpretado
por Jean Gabin, sempre marcante, um ladrão que vive num cortiço rodeado de
outros maltrapilhos. Ele, em especial, tem um relacionamento com a mulher do
dono da morada.
Os dois personagens se encontram na
casa do Barão, após retornar de mais uma péssima noite de jogatinas e aposta,
no qual voltou com ainda mais dívidas. Pepel estava para roubar sua casa, porém
sabendo que está já estava para ser destituída de sua posse, resolveu apenas se
divertir com o ladrão. Criando assim uma bela amizade. Se tornando um excluído,
ele vai embora para morar no cortiço também. É aí que o diretor explora seus
excluídos (essa temática surgiu mais fortemente em Boudu), existem atores,
bêbados, filósofos, loucos e mentirosos, todos perdidos no mesmo caminho.
Muitos dos diálogos ocorrem dentro do ambiente, com personagens caminhando para
lá e para cá, sempre compondo a cena com vida, nos caminhos errantes de seus
personagens, ainda existe a eloquência da profundidade de campo em diálogos
entre Pepel e sua amante, que aos poucos revela seu real desejo.
Existe alguns momentos em específico
que fazem surgir diversos questionamentos sobre os personagens. O ator que
aparenta ser louco assemelha-se bastante com o Antonin Artaud, que no ano
seguinte ao lançamento deste filme foi dado como louco e encarcerado em um
manicômio, talvez algo não muito relevante, porém, de certo, curioso. Este
personagem que muitos dizem fazer, como todos os outros, apenas mentir, parece
realmente estar proferindo apenas sua realidade. Outro momento, talvez o mais memorável de
todo o filme, é o que o Barão conversa com Pepel deitado na grama sobre como
foram parar ali, o percurso de suas vidas, é um diálogo simples, mas que
carrega o peso de que seus personagens são reais, são vívidos, parece que
brilham. Quando no fim da cena, se deitam novamente na grama como se fosse a melhor,
ou talvez, a única coisa que eles poderiam fazer ainda. Renoir é um dos
diretores mais humanistas de todos, carrega consigo toda a herança do movimento
do realismo poético francês, algo como um toque de cinema clássico e uma
eloquência da linguagem própria do cinema moderno.
No fim, este pode ser considerado
mais um filme de Renoir, o que já diz muito. Pois é um diretor que em toda obra
deixa sua marca, suas intensidades, toda sua visão de mundo, sua percepção de
arte. Por mais que não se veja um rio como muitas vezes aparecem em seus filmes
para trazer o movimento e intensidade da vida, aqui ele apenas utiliza do
movimento de câmera e da franqueza daqueles que foram excluídos socialmente.
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