
Existe uma complexidade na
estrutura narrativa de Hong Sang-Soo que torna seus filmes muito únicos. Suas
histórias soam repetitivas, sempre sobre as mesmas pessoas (artistas
frustrados), com os mesmos problemas (relações extraconjugais) e que sempre
ficam bêbados (sendo esse um ponto de reviravolta no enredo). Provavelmente,
sendo a prova mais definida do que Renoir uma vez disse, “um diretor só faz um
filme em sua vida toda, então o quebra em pedações e o faz novamente”. A mulher
é o futuro do homem é um filme vai para frente, para trás e às vezes parece ir
para dentro, narrando a história de dois amigos de faculdade e o seus
relacionamentos com uma mulher.
Hyeon-gon volta à Coréia, após anos estudando e
produzindo filmes nos Estados Unidos, logo se encontra com seu melhor amigo
Mun-ho, um professor de artes plásticas. Os dois dialogam sobre várias coisas,
mostrando uma velha competitividade masculina por trás das brincadeiras,
ocorrendo até mesmo algumas discussões sobre ciúmes. Até que chegam a discussão
sobre Seon-hwa, mulher que havia sido namorada de Hyoen-gon até ele viajar para
estudos e que teve um caso com Mun-ho nesse período (claro, Hyoen-gon não fazia
a mínima ideia disso). Os dois gostariam de revê-la depois de todos os anos.
Essa cena em que os dois conversam num restaurante é
intercalada por cenas do passado que mostram o abuso masculino em suas relações
sociais e sexuais com as mulheres, difícil saber qual personagem é mais misógino
entre os dois, eles não expõem seu ódio contra as mulheres, mas a enxergam como
presas diversas vezes. Não é à toa que os dois abordam a garçom para participar
de seus projetos artísticos, cenas separadas pelos flashbacks, assim como
observam uma mulher do lado de fora esperando um táxi, no conjunto ao fundo,
passeando pela cena, a profundidade de campo atenciosa do diretor servindo para
a composição natural dos personagens. É também interessante se pensar de como o
domínio do personagem em cena, a modifica, já que a primeiro momento Mun-ho sai
da mesa, e no segundo é Hyeon-gon que sai; e nesses momentos sozinhos, na mesa,
que abordam a garçom. Dessa forma, fica a dúvida será que as duas cenas
aconteceram? Ou seria estruturas iguais para os dois personagens. Repetição é a
máxima do diretor em seus filmes. E por mais que sempre capture seus
personagens sem efeitos visuais ou práticos, parece impor uma mistura entre o
real e o imaginários dos personagens muito poderoso.
Ao finalmente se encontrarem com ela, Seon-hwa é como
outra mulher, sem inseguranças, forte e sabendo muito bem o que quer, uma
mulher moderna, muito menos animalesca que os homens, e não é por causa disso
que ela rejeita o sexo, mas o usa ao seu bel prazer. Dessa forma, o filme
mostra dois homens perdidos em suas ideias pseudo-freudianas, enquanto as
mulheres vão além, podem até parecer dominadas em certos momentos, mas são
sempre elas que estão no controle.
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