
Duas Inglesas e o Amor surge
como uma sequência espiritual de Jules e Jim, porém, se desenvolve de forma
muito diferente. Retratando um triangulo amoroso entre o jovem francês Claude e
duas irmãs inglesas, Ann e sua irmã caçula Muriel. Carregando em sua estética
um preciosismo impressionista que lembra o Renoir (tanto o pai quanto o filho)
em conjunto com as artimanhas visuais do Truffaut, mais contidas desta vez, já
que sua proposta é uma trama que se passa no início do Século XX.
O tema do amor é retratado de maneira muito perspicaz, a
maneira diferente que ele pode agir sobre os corpos, sua mudança repentina de
objeto, suas falsas impressões. Quando Claude conheceu Ann, logo se mostrou
apaixonado por ela, enquanto Muriel não saia do quarto por conta de um problema
nos olhos, causado pelo excesso de leitura com má iluminação. Quando conheceu
Muriel, se apaixonou outra vez. Tentava tratar as duas como irmãs, enquanto
elas tentavam fazer o mesmo com ele. É de tamanha leveza suas brincadeiras no
campo, suas conversas pueris, mostrando o quão jovens são. Existe algo que se
perdeu na tradução do título, já que no original seria Duas Inglesas e o
Continente, mostrando que o Claude tinha todas as características de um jovem
francês, como se ele fosse o suficiente para representar todos os homens
franceses. Já Ann e Muriel são duas inglesas e são completamente diferente, já
trazendo a ideia de que cada uma tem sua peculiaridade, e é verdade, enquanto
Ann é mais silenciosa, é também muito mais autônoma de sua própria vida, por
vezes parecendo egoísta, Muriel é eloquente, se mostra extremamente
inteligente, mas sua doença à enfraquece e ela começa a parecer frágil e
submissa aos seus próprios amores.
Truffaut ainda torna crucial as longas elipses temporais,
mostrando o quanto experiência de nossa juventude influenciam em quem nos
tornaremos no futuro. Percebe-se exatamente como a experiência de estar
apaixonado nesse triangulo e as consequências disso numa época em que os
valores morais eram muito pesados, se hoje falamos de poliamor com deveras
relutância, imagine no início do século XX. Momento em que o amor só poderia
gerar o casamento e a mulher nunca poderia ser livre. Por esses fatos
históricos que seus personagens se tornam ainda maiores e claro, as atuações
são cruciais para isso, Jean-Pierre Leáud dessa vez mais contido, com poucos
trejeitos, mas um belo olhar apaixonado como Claude, Kika Markham como Ann, com
expressões faciais mais duras, porém também mais determinadas e Stracey
Tendeter como Muriel, com seus olhares sonhadores e suas expressões fluídas.
A beleza da narrativa é nos fazer sentir como os
personagens, não optando necessariamente por uma abordagem completamente
subjetiva, mas com momentos de pura subjetividade. Temos um dos momentos em que
os três estão jogando um jogo sob o pôr do Sol, usando de zoom e uma montagem
rápida, sentimos a dor nos olhos de Muriel ao olhar diretamente ao Sol, e com
sutileza vemos a silhueta de Ann também. Como se as duas coisas estivessem a
fazendo mal. As cenas espelhadas, também, em que Claude caminha, a primeiro
momento, ao lado Ann e no segundo momento ao lado de Muriel, momentos estes que
fizeram surgir um ímpeto de um beijo.
Portanto, Duas Inglesas e o Amor é uma obra sútil de
Truffaut, sem a sua comédia usual, mas com toda sua habilidade visual. Nos
mostrando diversas visões do amor que aparentemente são atemporais.
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