domingo, 21 de maio de 2017

1971 – Duas Inglesas e o Amor (François Truffaut, França) ****1/2 (4.5)

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Duas Inglesas e o Amor surge como uma sequência espiritual de Jules e Jim, porém, se desenvolve de forma muito diferente. Retratando um triangulo amoroso entre o jovem francês Claude e duas irmãs inglesas, Ann e sua irmã caçula Muriel. Carregando em sua estética um preciosismo impressionista que lembra o Renoir (tanto o pai quanto o filho) em conjunto com as artimanhas visuais do Truffaut, mais contidas desta vez, já que sua proposta é uma trama que se passa no início do Século XX.
            
O tema do amor é retratado de maneira muito perspicaz, a maneira diferente que ele pode agir sobre os corpos, sua mudança repentina de objeto, suas falsas impressões. Quando Claude conheceu Ann, logo se mostrou apaixonado por ela, enquanto Muriel não saia do quarto por conta de um problema nos olhos, causado pelo excesso de leitura com má iluminação. Quando conheceu Muriel, se apaixonou outra vez. Tentava tratar as duas como irmãs, enquanto elas tentavam fazer o mesmo com ele. É de tamanha leveza suas brincadeiras no campo, suas conversas pueris, mostrando o quão jovens são. Existe algo que se perdeu na tradução do título, já que no original seria Duas Inglesas e o Continente, mostrando que o Claude tinha todas as características de um jovem francês, como se ele fosse o suficiente para representar todos os homens franceses. Já Ann e Muriel são duas inglesas e são completamente diferente, já trazendo a ideia de que cada uma tem sua peculiaridade, e é verdade, enquanto Ann é mais silenciosa, é também muito mais autônoma de sua própria vida, por vezes parecendo egoísta, Muriel é eloquente, se mostra extremamente inteligente, mas sua doença à enfraquece e ela começa a parecer frágil e submissa aos seus próprios amores.
            
Truffaut ainda torna crucial as longas elipses temporais, mostrando o quanto experiência de nossa juventude influenciam em quem nos tornaremos no futuro. Percebe-se exatamente como a experiência de estar apaixonado nesse triangulo e as consequências disso numa época em que os valores morais eram muito pesados, se hoje falamos de poliamor com deveras relutância, imagine no início do século XX. Momento em que o amor só poderia gerar o casamento e a mulher nunca poderia ser livre. Por esses fatos históricos que seus personagens se tornam ainda maiores e claro, as atuações são cruciais para isso, Jean-Pierre Leáud dessa vez mais contido, com poucos trejeitos, mas um belo olhar apaixonado como Claude, Kika Markham como Ann, com expressões faciais mais duras, porém também mais determinadas e Stracey Tendeter como Muriel, com seus olhares sonhadores e suas expressões fluídas.
            
A beleza da narrativa é nos fazer sentir como os personagens, não optando necessariamente por uma abordagem completamente subjetiva, mas com momentos de pura subjetividade. Temos um dos momentos em que os três estão jogando um jogo sob o pôr do Sol, usando de zoom e uma montagem rápida, sentimos a dor nos olhos de Muriel ao olhar diretamente ao Sol, e com sutileza vemos a silhueta de Ann também. Como se as duas coisas estivessem a fazendo mal. As cenas espelhadas, também, em que Claude caminha, a primeiro momento, ao lado Ann e no segundo momento ao lado de Muriel, momentos estes que fizeram surgir um ímpeto de um beijo.

            
Portanto, Duas Inglesas e o Amor é uma obra sútil de Truffaut, sem a sua comédia usual, mas com toda sua habilidade visual. Nos mostrando diversas visões do amor que aparentemente são atemporais. 

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