sexta-feira, 5 de maio de 2017

2016 – Uma Noiva para Rip Van Winkle (Shunji Iwai, Japão) **** (4)

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Uma Noiva Para Rip Van Winkle é um filme sobre solitários e, principalmente, pessoas que não sabem bem o que fazer da própria vida. Narrando, em uma paleta que mistura um branco vívido com um lilás opaco, a vida de Nanami, uma jovem professora que por aplicativo de celular conhece um homem que viria a se tornar seu marido de forma rápida e até apática, o que aos poucos começa a mudar o curso se sua vida, de maneira completamente inesperada.

O início demora para se construir, parecendo ser um filme muito usual e comum, quando Nanami é demitida por não saber lidar com pessoas, ou a única aluna que realmente gosta dela ser uma garotinha que ela dá aulas pela internet. Existe uma grande referência à como ela lida com as relações sociais na vida real e na internet, já que no mundo virtual assume o nome de Campanella, podendo ser mais livre lá que no mundo atual. O filme começa a se desenvolver quando Nanami e seu marido estão para se casar e ele acha estranho ela ter apenas dois convidados. Com efeito, nossa protagonista encontra uma agência de atores para serem falsos convidados, fingindo serem parentes e amigos que Nanami não tem. A cena do casamento em especial nos faz perceber também certa pressão social pela realização daquele rito, toda aquela elaboração, trazendo momentos dos personagens até ali, como se fosse uma linha de chegada. Entretanto, a partir desse momento, Nanami se envolve de uma forma muito forte com essa agência, muito por conta das peripécias do seu aparente organizador Amuro, um jovem que só de início é um personagem que parece apenas querer dinheiro, mas não é de fato desenvolvido, inicia-se como ambíguo e se torna incongruente.
            
A protagonista chega a trabalhar para a agência em alguns casamentos, fazendo uma amizade forte com Mashiro, as duas se tornam amigas inseparáveis, e é interessante ver ela como uma faísca fulgida que anima todos os espaços que entra. Ela que realmente ajuda a Nanami a deixar de ser Campanella e se tornar Nanami, até pelo fato de ela já ter sido outra na internet, ela era Rip Van Winkle. Nome ao qual é de uma lenda saxã sobre um homem que ficou paralisado no tempo que só sabia se repetir. Consequentemente começando a entender a proposta do roteiro e sua geniosa construção, unindo duas personagens solitárias que estão lutando por suas identidades. E com um belo desenvolvimento e final ainda mais forte, o filme conta uma história triste com diversos momentos de felicidade.
            
Falando da estética, Iwai impõe um ritmo ao filme muito agradável, que com suas três horas flui muito bem (existem duas versões, a do cinema que tem duas horas e a do diretor ao qual estou comentando), enquadrando os personagens com muita beleza, como se realmente estivesse apaixonado por eles. Trazendo também uma disparidade forte entre as ruas de Tokyo com as casas tão vazias de seus personagens, chega a ser assustador aquela multidão. Particularmente gosto da maneira que movimenta a câmera pela cena, sem muitas restrições, a câmera dificilmente fica estática, nos aproximando e nos afastando das ações com o quadro, criando até mais afeto em alguns momentos apenas com o movimento e o reenquadramento. É interessante também como constrói símbolos poderosos quando relaciona seus personagens à animais marinhos, um detalhe minucioso que traz tamanho significado a cada cena e a todo enredo. Infelizmente, a trilha sonora é muito genérica, soando como uma música qualquer para as cenas, que começam a se tornar plásticas demais por conta também do seu usual tom ascético.

            
Rip Van Winkle encontra uma esposa, talvez tudo que precisasse. Em uma narrativa singela cheia de peculiaridade, o filme se torna uma bela experiência.

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