
Vi pela segunda vez o filme,
agora, vencedor do Oscar de Melhor Animação de seu ano. A história é sobre nós,
mas como numa fábula são usados animais que falam para expressar aquilo que nos
deveria ser óbvio. Dessa forma, a narrativa do filme é conduzida por Judy, uma
coelha com o desejo de ser policial, e assim parte para a cidade dos sonhos,
onde todos podem ser o que querem, Utopia, ou melhor Zootopia.
A Disney está realmente se tornando ótima em produzir
animações em 3D, construindo a própria comédia por meio do visual dos
personagens e detalhes minuciosos, organizando essa nova safra de animações que
não são musicais e acabam por ser muito bem narradas, nos lembrando da Pixar
(hoje, também fazendo parte da Disney), mas ainda sem atingir o mesmo nível de
complexidade e drama. Em Zootopia, é construída uma fábula sobre as relações
das diferentes espécies de animais existentes, separados por Predadores e
Presas. Logo de início, é explicado por meio de um teatro como os animais
deixaram de ser selvagens, e a explicação é simples, quando eles começaram a
dialogar e se entender. É uma resposta tão singela para as problemáticas da
nossa realidade, mas quando paramos para pensar em todo preconceito e ódio que
ronda nosso mundo, percebe-se que nos falta o diálogo e muitas vezes quando ele
existe é recheado de falácias guiadas por um afeto completamente irracional.
Assim, quando Judy conhece Nick, a raposa, os dois
demonstram preconceito. Seja por ser conhecido como malandro, e outro por uma
presa. Como um policial seria uma presa? Até mesmo animais que são herbívoros
(e usuais presas) são concedentes com o preconceito dos pequenos herbívoros
como coelhos, ovelhas e outros. Dessa forma, o filme não só escancara toda
discriminação, mas mostra o sofrimento de alguém que quer ser mais do que dizem
que ela deve ser. Judy não é aceita por ninguém como policial, tendo que lutar
por seu espaço, indo tão fundo nas complexidades da sociedade, já que o caso de
um desaparecimento de uma lontra acaba por revelar a regressão de alguns
animais ao seu estado selvagem. Então, no fim, chega à conclusão que não
deixamos de ser selvagens, ainda somos irracionais. Claro, que chegamos a um
ponto em que racionalidade nos guia por tudo, mas para ser completamente
racional é preciso se analisar todos os seus afetos e os humanos precisam de
anos e mais anos de uma educação de si para conseguir tal habilidade de maneira
mais concisa e global. O que não quer dizer o contrário, que devemos ser
irracionais, a verdade é que devemos olhar para o ser humano e reconhecer suas
dificuldades, e lutar sem se destruir para supera-las. Por isso, ver Nick e
Judy começarem a se dar bem e se entenderem de forma leve e crível é crucial
para o desenvolvimento do filme.
Zootopia nos apresenta questões tão essenciais humanas,
mas não deixa de impor sua comédia, recheadas de referências como O Poderoso
Chefão e o seriado Breaking Bad, além de uma grande brincadeira com os dvds
piratas da Disney. As peculiaridades do mundo animal são extremamente cômicas,
como a cidade em que Judy vive ter um número de habitantes que não para de
crescer, a cada segundo, já que os coelhos são conhecidos por reproduzirem
rápidos demais. Ou até mesmo a necessidade dos lobos de uivarem, quando se
escuta qualquer outro uivo. Pequenos detalhes cômicos que só reforçam a ideia
de que nossa genética tem uma história, ainda existe algo de selvagem
em nós. Alguns pontos poderiam ser mais
explorados como por exemplo, do que de fato se alimentam os animais carnívoros?
Seriam de humanos ou dos bovinos que não apareceram no filme? Acredito que
revelar tal fato seria de extrema complexidade para o enredo e com certeza
atrapalharia seu desenvolvimento.
Portanto, Zootopia é uma ótima animação da Disney, que
serve tanto para agradar um público mais infantil, ou para agradar um público
mais adulto, e todos que estão entre eles. Afinal, trabalha uma temática tão
importante e necessária como as relações sociais em formato de fábula, com sua
estética humano-animal, nos tocando de uma maneira muito singela.
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