
Em seu mais longo filme, Hong
Sang-Soo constrói uma narrativa fragmentada cheia de mentiras e atos cômicos.
Com diversas elipses orientadas pelo diário do protagonista, o pintor e
professor Sung-Nam que fugiu de Seoul (para Paris) por ter fumado maconha com
um grupo de estrangeiros. Dessa forma, somos apresentados a um personagem que
está fora de sua zona de conforto e que se expressa sempre com relutância em
suas ações, mostrando-se por um lado guiado por valores transcendentes e por
outro alguém que quer construir mudanças reais.
Sung-Nam já é introduzido à França com um recado “tenha
cuidado”, por isso mesmo (e por não saber a língua) vai morar numa casa com
diversos coreanos, assim todas os seus encontros são com outros coreanos. Ao
invés de trazer uma narrativa que se desdobra de forma dupla, como já fez
diversas vezes, a fragmentação constrói diversas variações de intensidade do
personagem. A princípio, encontra-se com uma coreana, ao qual já havia namorado
há mais de dez anos atrás, criando uma relação em que pode se prender ainda
mais a uma zona de conforto. Usando desse encontro para falar dos seus valores,
ao citar a bíblia para compor sua moral, ou seus quadros serem sobre o céu e as
nuvens, mostrando que sua análise sobre o real recaí a um para além dos seres
humanos. Ele também sempre fala ao telefone com sua esposa, por quem aparenta
ter um grande apreço.
Mas
essa é uma narrativa de Hong Sang-Soo e o desejo à infidelidade sempre paira
sobre seus personagens, conhecendo duas mulheres estudantes de arte, Sung-In e
Yoo-Jung. Com a primeira tem um belo momento do filme em que observam a pintura
de Courbet (Pintor muito influenciado por Vermeer), a imagem de uma vagina intitulada
A Origem do Mundo. Ele a corrige sobre o título da obra e logo depois diz que o
que importa é a pintura e não seu título, soando como uma fala que se contradiz,
Sung-Nam mostra-se, a princípio se importando com a forma que a coisa é nomeada
e por fim se afirmando um defensor da coisa. Ou seja, o que realmente importa
para ele? Seria a coisa ou o que é dito dela? De certa forma, para ele são os
dois, ele quer ser um homem com valores transcendentes, ao passo que não foge
da imanência das coisas em si. Com Yoo-Jung, o encontro que o ocorre é de se
apaixonar por ela, promovendo uma brincadeira visual, em que ao sonhar que está
beijando os seus pés, rapidamente nos remetemos à cena do quadro, mas que no
fim não ocorre, seus valores morais o impedem de concretizar o ato.
Dessa forma, Hong Sang-Soo promove uma riqueza na
construção do personagem, pois como bem se sabe, os seres humanos estão em
constante mudança, ou seriam suas imagens? Quem é esse Sung-Nam na França,
quais suas diferenças para aquele que vivia na Coreia do Sul? Com base em suas
ações que vão se contradizendo, percebemos essa diferença explícita. Usando de
certo momentos poéticos, como o passarinho que cai de seu ninho nos ombros de
Sung-Nam, se tornando o ponto de virada em sua narrativa. Com isso, temos a
imagem que ele tem de si mesmo, e quem ele é de fato, quando se apaixona por Yoo-Jung,
se apaixona pela imagem que ele constrói dela e não por ela, no decorrer do
longa percebe-se claramente esse ponto. Com efeito, constrói-se de forma
poderosa e por conta da montagem fragmentada a vida de um homem que pretende
ser alguém que se importa com as pessoas pelo que elas são, mas no fundo só se
move pela sua idealização.
Portanto, Noite e Dia é uma das melhores obras do diretor
coreano, apesar de ter 140 minutos, o seu tempo fragmentado e suas espaçadas
elipses criam uma narrativa divertida e ainda assim fluída. Diga-se de
passagem, seu personagem principal parece o menos odiável de sua filmografia
até então, mas é claro, isso ocorre apenas pelo fato de não estar em seu ambiente
usual. Assim, entramos no jogo de morais e desejos de seus personagens
conflituosos, como se fosse a primeira vez.
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