quarta-feira, 31 de maio de 2017

2008 – Noite e Dia (Hong Sang-Soo, Coreia do Sul) ****1/2 (4.5)

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Em seu mais longo filme, Hong Sang-Soo constrói uma narrativa fragmentada cheia de mentiras e atos cômicos. Com diversas elipses orientadas pelo diário do protagonista, o pintor e professor Sung-Nam que fugiu de Seoul (para Paris) por ter fumado maconha com um grupo de estrangeiros. Dessa forma, somos apresentados a um personagem que está fora de sua zona de conforto e que se expressa sempre com relutância em suas ações, mostrando-se por um lado guiado por valores transcendentes e por outro alguém que quer construir mudanças reais.
            
Sung-Nam já é introduzido à França com um recado “tenha cuidado”, por isso mesmo (e por não saber a língua) vai morar numa casa com diversos coreanos, assim todas os seus encontros são com outros coreanos. Ao invés de trazer uma narrativa que se desdobra de forma dupla, como já fez diversas vezes, a fragmentação constrói diversas variações de intensidade do personagem. A princípio, encontra-se com uma coreana, ao qual já havia namorado há mais de dez anos atrás, criando uma relação em que pode se prender ainda mais a uma zona de conforto. Usando desse encontro para falar dos seus valores, ao citar a bíblia para compor sua moral, ou seus quadros serem sobre o céu e as nuvens, mostrando que sua análise sobre o real recaí a um para além dos seres humanos. Ele também sempre fala ao telefone com sua esposa, por quem aparenta ter um grande apreço.

Mas essa é uma narrativa de Hong Sang-Soo e o desejo à infidelidade sempre paira sobre seus personagens, conhecendo duas mulheres estudantes de arte, Sung-In e Yoo-Jung. Com a primeira tem um belo momento do filme em que observam a pintura de Courbet (Pintor muito influenciado por Vermeer), a imagem de uma vagina intitulada A Origem do Mundo. Ele a corrige sobre o título da obra e logo depois diz que o que importa é a pintura e não seu título, soando como uma fala que se contradiz, Sung-Nam mostra-se, a princípio se importando com a forma que a coisa é nomeada e por fim se afirmando um defensor da coisa. Ou seja, o que realmente importa para ele? Seria a coisa ou o que é dito dela? De certa forma, para ele são os dois, ele quer ser um homem com valores transcendentes, ao passo que não foge da imanência das coisas em si. Com Yoo-Jung, o encontro que o ocorre é de se apaixonar por ela, promovendo uma brincadeira visual, em que ao sonhar que está beijando os seus pés, rapidamente nos remetemos à cena do quadro, mas que no fim não ocorre, seus valores morais o impedem de concretizar o ato.
            
Dessa forma, Hong Sang-Soo promove uma riqueza na construção do personagem, pois como bem se sabe, os seres humanos estão em constante mudança, ou seriam suas imagens? Quem é esse Sung-Nam na França, quais suas diferenças para aquele que vivia na Coreia do Sul? Com base em suas ações que vão se contradizendo, percebemos essa diferença explícita. Usando de certo momentos poéticos, como o passarinho que cai de seu ninho nos ombros de Sung-Nam, se tornando o ponto de virada em sua narrativa. Com isso, temos a imagem que ele tem de si mesmo, e quem ele é de fato, quando se apaixona por Yoo-Jung, se apaixona pela imagem que ele constrói dela e não por ela, no decorrer do longa percebe-se claramente esse ponto. Com efeito, constrói-se de forma poderosa e por conta da montagem fragmentada a vida de um homem que pretende ser alguém que se importa com as pessoas pelo que elas são, mas no fundo só se move pela sua idealização.

            
Portanto, Noite e Dia é uma das melhores obras do diretor coreano, apesar de ter 140 minutos, o seu tempo fragmentado e suas espaçadas elipses criam uma narrativa divertida e ainda assim fluída. Diga-se de passagem, seu personagem principal parece o menos odiável de sua filmografia até então, mas é claro, isso ocorre apenas pelo fato de não estar em seu ambiente usual. Assim, entramos no jogo de morais e desejos de seus personagens conflituosos, como se fosse a primeira vez. 

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