
Daniel Blake é um personagem
que remete ao universo de Kafka. Imersos em uma burocracia confusa que não
procura enxergar os sujeitos. Loach constrói uma narrativa sobre um homem que
está impossibilitado de trabalhar, sob aviso médico, mas também impossibilitado
de receber uma licença saúde do governo. Assim, forçando, ao já idoso, Daniel
a ir à luta pelos seus direitos.
Ken Loach já é muito conhecido por sua abordagem próxima
do neorrealismo italiano, com tramas emotivas e intrinsecamente relacionadas
aos momentos políticos de sua época. Usando da cidade de Newcastle para
contextualizar a trama, consegue-se mostra uma potência do sotaque britânico em
seus personagens, nos parecendo uma língua completamente diferente do inglês
americano, até mesmo do tradicional e rebuscado inglês londrino. Assim, somos apresentados ao cotidiano de Daniel Blake e suas
intermináveis ligações aos centros médicos do governo, que usam de pessoas
terceirizadas para fazerem julgamentos sobre fichas médicas. Ele não pode
trabalhar por conta de seu coração, é uma questão de vida ou morte, mas para a
avaliação do governo isso não parece certo, exigindo-o que trabalhe, como seu
único trabalho na vida foi o de um carpinteiro, ele não pode fazer outra coisa
ao não ser trabalho manual. O que impressiona é a inacessibilidade do serviço,
Daniel não sabe usar um computador e agora os serviços se iniciam com uma ficha
feita pela internet e ainda expressam uma falta de diálogo e de uma
intransigência sobre horários, papéis, ordem.
Daniel não é o único personagem da história, Katy e seus
dois filhos, obrigados a se mudar de Londres para Newcastle. Relocados para
longe da grande capital. Ela carrega o sonho de voltar a estudar para poder
conseguir um emprego melhor, mas a situação vai se tornando cada mais difícil
para. Essa família e Daniel formam uma conexão das mais bela, se ajudando com o
que podem, por uma simples diferença com a monstruosa burocracia, eles enxergam
as pessoas, os sujeitos que habitam aqueles nomes e números presos à folhas de papel.
Eles não são os únicos que se ajudam, Loach parece querer mostrar que a hiper
conexão do mundo não ocorre só pela internet, mas sim no nosso próprio bairro,
um ajudando ao outro, seja ensinando a fazer algo novo, ou ajudando com as
comidas. Construindo a narrativa entre belos momentos de empatia humana e a
tristeza de estar na margem da sociedade (aqui, vos deixo claro que é uma
sociedade do interior da Inglaterra, o que é desesperador lá nem se compara
com o Brasil), quais empregos Katy deve conseguir? O que Daniel deve fazer?
Utilizando de uma estética em que os diálogos vão nos
movendo, porém sem nunca esquecer dos seus recursos cinematográficos. Como por
exemplo as elipses de tempo, no momento que o próprio Daniel está numa Lan
House tentando realizar a inscrição, usadas para indicar a
sucessão de tempo de forma intensa e cansativa, pois são acompanhadas de um Fade, ou
seja a tela se escurece e só depois surge a outra imagem. Construindo uma
sensação de demora ainda mais angustiantes.
Portanto, Loach construiu um belo filme que sabe
exatamente sobre o que se trata. Nos conduz de maneira por vezes tristes e por
vezes alegres, mas sempre muito próxima aos personagens. Para no fim, querermos
lutarmos ao lado de Daniel Blake.
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