sexta-feira, 2 de junho de 2017

2016 – Eu, Daniel Blake (Ken Loach, Inglaterra) ****1/2 (4.5)


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Daniel Blake é um personagem que remete ao universo de Kafka. Imersos em uma burocracia confusa que não procura enxergar os sujeitos. Loach constrói uma narrativa sobre um homem que está impossibilitado de trabalhar, sob aviso médico, mas também impossibilitado de receber uma licença saúde do governo. Assim, forçando, ao já idoso, Daniel a ir à luta pelos seus direitos.
            
Ken Loach já é muito conhecido por sua abordagem próxima do neorrealismo italiano, com tramas emotivas e intrinsecamente relacionadas aos momentos políticos de sua época. Usando da cidade de Newcastle para contextualizar a trama, consegue-se mostra uma potência do sotaque britânico em seus personagens, nos parecendo uma língua completamente diferente do inglês americano, até mesmo do tradicional e rebuscado inglês londrino. Assim, somos apresentados ao cotidiano de Daniel Blake e suas intermináveis ligações aos centros médicos do governo, que usam de pessoas terceirizadas para fazerem julgamentos sobre fichas médicas. Ele não pode trabalhar por conta de seu coração, é uma questão de vida ou morte, mas para a avaliação do governo isso não parece certo, exigindo-o que trabalhe, como seu único trabalho na vida foi o de um carpinteiro, ele não pode fazer outra coisa ao não ser trabalho manual. O que impressiona é a inacessibilidade do serviço, Daniel não sabe usar um computador e agora os serviços se iniciam com uma ficha feita pela internet e ainda expressam uma falta de diálogo e de uma intransigência sobre horários, papéis, ordem.
            
Daniel não é o único personagem da história, Katy e seus dois filhos, obrigados a se mudar de Londres para Newcastle. Relocados para longe da grande capital. Ela carrega o sonho de voltar a estudar para poder conseguir um emprego melhor, mas a situação vai se tornando cada mais difícil para. Essa família e Daniel formam uma conexão das mais bela, se ajudando com o que podem, por uma simples diferença com a monstruosa burocracia, eles enxergam as pessoas, os sujeitos que habitam aqueles nomes e números presos à folhas de papel. Eles não são os únicos que se ajudam, Loach parece querer mostrar que a hiper conexão do mundo não ocorre só pela internet, mas sim no nosso próprio bairro, um ajudando ao outro, seja ensinando a fazer algo novo, ou ajudando com as comidas. Construindo a narrativa entre belos momentos de empatia humana e a tristeza de estar na margem da sociedade (aqui, vos deixo claro que é uma sociedade do interior da Inglaterra, o que é desesperador lá nem se compara com o Brasil), quais empregos Katy deve conseguir? O que Daniel deve fazer?
            
Utilizando de uma estética em que os diálogos vão nos movendo, porém sem nunca esquecer dos seus recursos cinematográficos. Como por exemplo as elipses de tempo, no momento que o próprio Daniel está numa Lan House tentando realizar a inscrição, usadas para indicar a sucessão de tempo de forma intensa e cansativa, pois são acompanhadas de um Fade, ou seja a tela se escurece e só depois surge a outra imagem. Construindo uma sensação de demora ainda mais angustiantes.
            
Portanto, Loach construiu um belo filme que sabe exatamente sobre o que se trata. Nos conduz de maneira por vezes tristes e por vezes alegres, mas sempre muito próxima aos personagens. Para no fim, querermos lutarmos ao lado de Daniel Blake.

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