terça-feira, 27 de junho de 2017

2013 – Coerência (James Ward Byrkit, EUA) ****1/2 (4.5)

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Inusitada surpresa, um filme americano independente que não é tão complexo quanto parece e ainda assim traz temas extremamente pertinentes e filosóficos, com uma estética simples e muito tensa. Pode ser que para alguns lembre demais a estética de Shane Carruth, com suas narrativas sobre enrolados paradoxos e com baixo orçamento, mas pode-se dizer que o filme de estreia do diretor James Byrkit conseguiu ser muito bem conduzido ao ponto de ter um potencial digno de uma individualidade.
            
A escolha por uma fotografia utilizando apenas da luz do ambiente constrói toda a estética intimista e sombria do filme, em que um grupo de amigos resolve se reunir para um jantar, durante a passagem de um comete sobre a Terra. Se torna notório que são amigos de longa data, quatro casais, Em e Kevin, este último, por sua vez, já se relacionou com Laurie, que hoje namora com Amir. Beth e suas estranhas incursões sobre a transcendência e certas ervas, seu marido Hugh, com certeza o mais suspeito personagem e por fim os anfitriões Mike e a sonolenta Lee. Com esse emaranhado, iniciam-se diálogos por vezes improvisados e pela banalidade dos surgimentos deles, se tornam orgânicos à narrativa. Mas o que de fato há de errado numa história como essa? Bem, o cometa começa a produzir efeitos estranhos, de início apenas racha alguns celulares, até que falta energia e todo o curso do jantar se multiplica em possibilidades absurdas.
            
Existe uma construção emergente dos personagens, com um bom subtexto, que fazem a cooperação sempre parecer suspeita e como quase nunca existem planos de fora da casa, até mesmo de fora da sala de jantar, não se sabe exatamente o que acontece ao redor. A grande genialidade do diretor foi impor aos personagens um senso de descoberta, de ação e reação ao que está acontecendo, eles se desesperam, mas tentam produzir em cima disso, agindo envoltos na escuridão. Dessa forma, o enredo começa a tratar de um experimento muito interessante, “O Gato de Schroedinger”, pois bem, esse experimento é uma análise teórica baseada na física quântica e serviu para o entendimento dos métodos, como também da capacidade ou da potência de afirmação dos seres humanos sobre a natureza, ou ainda sobre o que eles não podem controlar. Ao botar um gato numa caixa vedada, que possui um veneno letal, podendo ser acionado apenas por dentro, não se pode afirmar nada, apenas que o gato está vivo e morto ao mesmo tempo. Complexo? Com certeza, mas no que concerne ao comportamento das partículas subatômicas, elas produzem realidades que coexistem. Para exemplificar, outro experimento, o “Experimento das Duas Fendas”, em que os eléctron conseguem se expressar como partículas e também como ondas. Porém, os cientistas perceberam que dependendo da interferência humana no experimento o eléctron se expressava de uma maneira ou de outra. Ou seja, as coisas existem em si, são imanentes, se expressam em multiplicidade, porém os seres humanos apreendem apenas uma de cada vez, ou apenas de algumas poucas formas. Entrando em questões mais filosóficas pode-se pensar em quantas vidas vive-se sem saber, por mais que não seja a escolhida ou a quem compõe sua própria realidade. As partículas subatômicas do corpo poderiam ter uma noção dessa outra vida que coexiste, se movimentariam de maneira diferente e se expressariam de maneiras diferentes, como diria Nietzsche “eu sou vários”, pois ele viveu muitas vidas, sabendo que seu corpo(ou melhor, suas partículas) se movimentava em diferentes direções.  Então, o filme não aprofunda nas complexidades cientificas do experimento Schroedinger, mas em suas implicações existenciais. Quem você gostaria de ter sido, o que você ainda pode ser? Qual sua Potência? Ela apreende tudo que você viveu e deixou de viver?
            
Portanto, o ressentimento de todos os erros na vida, as possibilidades perdidas ou adquiridas, os agenciamentos inusitados que ocorrem quando alguém tosse e o ambiente se silencia, podendo impedir um relacionamento, ou ainda, quando um simples celular permanece intacto em um momento de destruição iminente. Tudo isso é organizado de uma maneira no filme para que o espectador não se perca, sendo um pouco expositivo, mas sempre imagético. Seja com a iluminação e a montagem rápida que guiam o olhar, ou das ações dos personagens, que revelam e também tornam obscuro. Coerência é um filme que a partir de temas complexos consegue ilustrar de forma muito ágil, tensa e simples a agonia que é escolher, em consequência de existir.

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