
Jeff Nichols é um diretor
americano que gosta de passear pelos interiores do país, sempre com muito
ecletismo, seja com a ficção cientifica ou drama. Em Loving consegue construir
um filme sobre um drama racial nos 60, quando um casal, formado por um homem
branco e uma mulher negra, decidem se casar. Com silêncios e um bom uso da
repetição de certas imagens o filme se torna um verdadeiro grito sobre como
mudanças são sempre necessárias, hoje mais que nunca.
Usando de uma fotografia com cores vividas já se constrói
facilmente a ambientação dos anos 60, junto com o blues rock que toca o tempo todo
durante o filme. Percebe-se, de início, como o Richard está deslocado no meio
de todos os personagens negros, sua situação financeira se assemelha em muito à
deles, porém ainda não faz parte real do grupo social. Trabalhando como
pedreiro como muitos deles, existe uma repetição intensa de planos em que ele
constrói casas. Criando um impacto de um EUA em construção, ora, em
determinados locais o casamento entre negros e brancos era proibido e eles
lutam ao máximo para conseguirem que tal casamento seja aceito pelas leis. Ou
seja, a construção está presente o tempo todo no filme, cada passo e esforço
que os personagens de Mildred e Richard fazem para conseguir viver como
qualquer outro casal é um momento de construção ética do país como um todo. As
atuações dos dois personagens principais são muito seguras, Joel Edgerton como
um homem da práxis que se irrita com todo horror que eles estão vivendo, mas
demonstra no próprio olhar, no abaixar da cabeça o medo de que tudo possa
piorar, Ruth Negga como a mulher, em parte a que mais sofre do casal, já que é
ela que sofre o racismo, ela que é posta na prisão, ela que está grávida, e com
seu olhar singelo, forte e por vezes vazio, consegue trazer toda a variação de
emoções por qual sua personagem passa, uma mulher forte o suficiente para
aguentar o peso das leis e permanecer de cabeça em pé na luta.
O diretor foi muito inteligente em mostrar como os
advogados usaram o caso dos dois apenas como uma escada para se tornarem mais
famosos, ou seja, mostrando o real motivo para que brancos lutassem por esse
casal. Não era por reconhecerem ali um amor verdadeiro e sim pela possibilidade
de ascensão de um caso polêmico. Outro personagem interessantíssimo foi o
fotografo da Life Magazine, interpretado por Michael Shanon, que aparece como
uma faísca, um dos poucos que realmente aprecia e reconhece o romance dos dois.
Visita sua casa, convive com eles, com a simplicidade do casal, conseguindo
enxergar com sua câmera potente a real imagem que todos não conseguiam ver,
pois estavam imersos em signos sociais completamente infundados. Diga-se de
passagem, a grande façanha do filme foi simplesmente conseguir criar dois
personagens com muito conteúdo e como suas relações evoluem durante a
narrativa. Richard com a sua relação com os seus amigos negros que o reconhecem
como “negro”, por sofrer na pele a impossibilidade e a segregação. Claro, que
ainda existe certo tom absurdo no comentário feito, mas percebe-se que todos começam
a os enxergar como um verdadeiro casal, que é o que, de fato, são.
Loving é uma história de amor, acima de tudo, daquele
amor clássico que perdura e ainda assim, um amor real. Importante e
extremamente cauteloso ao tratar do tema, reconhece a potência das mudanças
para o melhor convívio social. Sempre em movimento, sempre em construção.
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