sábado, 24 de junho de 2017

2016 – Loving (Jeff Nichols, EUA) **** (4.0)


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Jeff Nichols é um diretor americano que gosta de passear pelos interiores do país, sempre com muito ecletismo, seja com a ficção cientifica ou drama. Em Loving consegue construir um filme sobre um drama racial nos 60, quando um casal, formado por um homem branco e uma mulher negra, decidem se casar. Com silêncios e um bom uso da repetição de certas imagens o filme se torna um verdadeiro grito sobre como mudanças são sempre necessárias, hoje mais que nunca.
            
Usando de uma fotografia com cores vividas já se constrói facilmente a ambientação dos anos 60, junto com o blues rock que toca o tempo todo durante o filme. Percebe-se, de início, como o Richard está deslocado no meio de todos os personagens negros, sua situação financeira se assemelha em muito à deles, porém ainda não faz parte real do grupo social. Trabalhando como pedreiro como muitos deles, existe uma repetição intensa de planos em que ele constrói casas. Criando um impacto de um EUA em construção, ora, em determinados locais o casamento entre negros e brancos era proibido e eles lutam ao máximo para conseguirem que tal casamento seja aceito pelas leis. Ou seja, a construção está presente o tempo todo no filme, cada passo e esforço que os personagens de Mildred e Richard fazem para conseguir viver como qualquer outro casal é um momento de construção ética do país como um todo. As atuações dos dois personagens principais são muito seguras, Joel Edgerton como um homem da práxis que se irrita com todo horror que eles estão vivendo, mas demonstra no próprio olhar, no abaixar da cabeça o medo de que tudo possa piorar, Ruth Negga como a mulher, em parte a que mais sofre do casal, já que é ela que sofre o racismo, ela que é posta na prisão, ela que está grávida, e com seu olhar singelo, forte e por vezes vazio, consegue trazer toda a variação de emoções por qual sua personagem passa, uma mulher forte o suficiente para aguentar o peso das leis e permanecer de cabeça em pé na luta.
            
O diretor foi muito inteligente em mostrar como os advogados usaram o caso dos dois apenas como uma escada para se tornarem mais famosos, ou seja, mostrando o real motivo para que brancos lutassem por esse casal. Não era por reconhecerem ali um amor verdadeiro e sim pela possibilidade de ascensão de um caso polêmico. Outro personagem interessantíssimo foi o fotografo da Life Magazine, interpretado por Michael Shanon, que aparece como uma faísca, um dos poucos que realmente aprecia e reconhece o romance dos dois. Visita sua casa, convive com eles, com a simplicidade do casal, conseguindo enxergar com sua câmera potente a real imagem que todos não conseguiam ver, pois estavam imersos em signos sociais completamente infundados. Diga-se de passagem, a grande façanha do filme foi simplesmente conseguir criar dois personagens com muito conteúdo e como suas relações evoluem durante a narrativa. Richard com a sua relação com os seus amigos negros que o reconhecem como “negro”, por sofrer na pele a impossibilidade e a segregação. Claro, que ainda existe certo tom absurdo no comentário feito, mas percebe-se que todos começam a os enxergar como um verdadeiro casal, que é o que, de fato, são.
            
Loving é uma história de amor, acima de tudo, daquele amor clássico que perdura e ainda assim, um amor real. Importante e extremamente cauteloso ao tratar do tema, reconhece a potência das mudanças para o melhor convívio social. Sempre em movimento, sempre em construção. 

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