
Makoto Shinkai já estava
cotado para ser o futuro da animação japonesa, ao lado de Mamoru Hosoda, mas
após a realização de seu mais recente filme tornou-se uma certeza. Seu Nome não
é só uma boa animação, mas ela também consegue dialogar com todos os tipos de
públicos, claro, com ênfase em jovens, mas, ainda assim, seus temas, sua
atenção com a própria complexidade da narrativa tornam o filme uma obra para
todos. Até aqueles fãs ferrenhos do mundo dos animes, ou aquele que assiste
algumas poucas animações quando vão ao cinema. Narrando a história de dois
jovens, uma garota de uma pequena cidade, cheia de tradições e um garoto que
vive na correria de Tokyo, que se conectam por começarem a dividir o próprio
corpo.
Primeiramente, deve-se atentar ao apreço estético que o
diretor propõe, recriando recursos de uma câmera real, como diferentes usos da
profundidade de campo e usando de uma iluminação que tentam criar um relevo
maior à animação. Ao mesmo tempo que seus personagens têm características
visuais muito próximas a dos animes para a televisão japonesa, com uma singela
diferença, mais trejeitos, uma maior vivacidade. Esse encontro se dá por uma
animação que habita o real, ao mesmo tempo que se encontra no imaginário da
animação televisiva. Com essa simplicidade ele conseguiu esteticamente tornar o
filme mais universal e deve-se enfatizar que não é algo que foi feito apenas
para isso, Shinkai, já vem explorando essa sensibilidade fotográfica que nos
conecta à realidade, até mesmo por reconstruir (de forma ainda diferente) a
nossa percepção, nem que seja da memória, da consciência. Conseguindo, ainda
assim, inserir personagens animados de forma orgânica. O uso de luz também é
fantástico, sempre trazendo à tona reações dos personagens, mas principalmente
causando impactos visuais por sua intensidade e cores.
A trama se desenvolve trabalhando diversos temas, seja o
embate que os jovens vivem de um Japão Místico ao Japão Moderno, assim como o
próprio processo de duração de cada corpo, ou seja, de forma mais simplificada,
o ritmo que cada corpo se modifica para conhecer o outro. Quando Mitsuha, jovem garota que segue de
forma quase obrigatória uma tradição de produção de fios e até mesmo de rituais
com tais fios, encontra-se no corpo de Taki, um jovem garoto que vive uma vida veloz
em Tokyo, ela precisa se adaptar à duração que existe naquele corpo para
entende-lo, da mesma forma, ele quando se encontra no corpo dela. Os dois devem
respeitar suas durações de forma ética, algo que começa a ser um processo
grandioso e com certeza cômico. Mas por que usar uma terminologia relacionado
ao tempo e principalmente à Bergson? Pelo simples fato de que o filme tem a ver
com as relações do passado sempre permanecem, como se ligadas com uma linha, um
fio, uma corda. Sendo uma das grandes contribuições filosófica de Bergson a de
dizer que o passado nunca foi, sempre é. Ele está aqui de alguma forma ainda.
Dessa forma, o filme compreende que o processo de identificação de um corpo com
o outro se dá através de um entendimento de um ritmo, construído a partir de
memória e movimento.
A grande potência dessa história está em não se prender
apenas à troca de corpos, se encontra em explorar os desdobramentos disso na
duração dos indivíduos, no afeto causado pela passagem de tempo, na maneira que
o passado, presente e futuro se encontram conectados e entrelaçados de maneira
poética e por vezes complexa. Portanto, o filme de Shinkai é como uma bela
história sobre a conexão (muito mais que troca) de corpos. Vale negar todas as
comparações feitas à Miyazaki, pois são processos de animações e o uso de
misticismo também muito diferentes. Shinkai se sobressai, hoje, como um grande
cineasta não porque toca em temas próximos ao do grande produtor da Ghibli e
sim pois se afirma de forma singular com seu próprio estilo.
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