sexta-feira, 9 de junho de 2017

1973 – A Noite Americana (François Truffaut, França) ***** (5)

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Um dos filmes mais apaixonados pelo cinema já feitos, não só por trazer para a trama a própria gravação de um filme e seus diversos acontecimentos de bastidores, mas também pela maneira que Truffaut conduz de forma caótica, cômica e com total afeto o cinema. A Noite Americana é sobre as relações de uma equipe de cinema na produção de um filme chamado Paloma, em que o próprio Truffaut faz o papel do diretor Ferrand.
            
Seria um absurdo não salientar a importância do todo que o diretor constrói, as rápidas comunicações nos sets, as repetições de cenas, os tropeços, os erros, os acertos, as invenções, tudo isso vai construindo um todo. Mas não é um todo uniforme, é claro. Enquanto se tem uma atriz que bebe todos os dias e não consegue reproduzir as falas, ou até mesmo a repetição da cena os forcem constantemente a cortar cigarros, para aumentar sua quantidade. Belo é ver a relação do diretor com seus atores, que se relacionam com os assistentes de produção, com o fotografo, com o maquiador, um corpo que se move por meio da comunicação. Não é à toa que escutamos a frase “Eu trocaria um homem por um filme, mas nunca um filme por um homem”, é como se todos estivessem comprometidos com sua realização, com um único objetivo. Não tem como negar que existem desejos difusos do objetivo original, como o ator Aphonse que parece não saber o bem o quer fazer, complicando até mesmo a produção do filme com suas peripécias. É exatamente dessa coletividade difusa, quase democrática, que o filme se constrói. O diretor por vezes tem a palavra final, por vezes o produtor, mas eles nunca poderão controlar as habilidades de cada um, o modo de produção de cada. Truffaut para demonstrar essa harmonia confusa, o total processo grupal, usa de uma montagem rápida, pulando de momento em momento, de personagem em personagem, de peculiaridade por peculiaridade para assim conseguir construir a sequência do coletivismo do cinema.
            
E claro, como não podia faltar nos filmes do diretor, ele traz questões pessoais com o cinema de maneira poética, como em todas as noites sonha (em preto e branco) com uma criança que rouba pôsteres de cinema, e constrói fusões sobre o afeto que essa arte causa. Truffaut interpreta ele mesmo, um homem apaixonado, e que busca diversas vezes a improvisação, não só porque já está acostumado com os problemas da falta de recurso, mas também pois sabe que arte não se faz de maneira burocrática. De maneira que a regra tem mais que peso que o próprio sentimento, sendo sempre um subversor desse viés do cinema. O filme comprova como o cinema tem a potência criativa em sua alma, como é uma arte tão importante como todas outras, seja pelo afeto para com a vida real dos atores e ainda, o mais belo, a neve. O cinema cria a neve onde não existe, e com espuma de sabão. Que ao esfregar o chão do falso cenário se torna uma expressão do real. Veja só, basta ser branco e parecer fofo que já remonta à neve, pode-se nunca ter visto neve pessoalmente, mas seus atributos o denunciam em tela, ou o confundem. O que importa é poder da criação que o cinema traz consigo, de sua criação de choques de personalidades, muitas vezes guerras de egos, outras vezes apenas uma disputa amigável de modos subjetivos diferentes.

            
Portanto, Truffaut construiu aqui uma de suas obras primas, um belo filme, com seu toque de comédia usual, muitas vezes completamente improvisado. Uma carta de amor à produção cinematográfica, imersos nos signos de diretor sonhador. “ Espero que você goste de assistir ao filme o tanto quanto gostamos de fazê-lo”. 

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