
Um dos filmes mais apaixonados
pelo cinema já feitos, não só por trazer para a trama a própria gravação de um
filme e seus diversos acontecimentos de bastidores, mas também pela maneira que
Truffaut conduz de forma caótica, cômica e com total afeto o cinema. A Noite
Americana é sobre as relações de uma equipe de cinema na produção de um filme
chamado Paloma, em que o próprio Truffaut faz o papel do diretor Ferrand.
Seria um absurdo não salientar a importância do todo que
o diretor constrói, as rápidas comunicações nos sets, as repetições de cenas,
os tropeços, os erros, os acertos, as invenções, tudo isso vai construindo um
todo. Mas não é um todo uniforme, é claro. Enquanto se tem uma atriz que bebe
todos os dias e não consegue reproduzir as falas, ou até mesmo a repetição da
cena os forcem constantemente a cortar cigarros, para aumentar sua quantidade.
Belo é ver a relação do diretor com seus atores, que se relacionam com os
assistentes de produção, com o fotografo, com o maquiador, um corpo que se move
por meio da comunicação. Não é à toa que escutamos a frase “Eu trocaria um
homem por um filme, mas nunca um filme por um homem”, é como se todos
estivessem comprometidos com sua realização, com um único objetivo. Não tem
como negar que existem desejos difusos do objetivo original, como o ator
Aphonse que parece não saber o bem o quer fazer, complicando até mesmo a
produção do filme com suas peripécias. É exatamente dessa coletividade
difusa, quase democrática, que o filme se constrói. O diretor por vezes tem a
palavra final, por vezes o produtor, mas eles nunca poderão controlar as
habilidades de cada um, o modo de produção de cada. Truffaut para demonstrar essa
harmonia confusa, o total processo grupal, usa de uma montagem rápida, pulando
de momento em momento, de personagem em personagem, de peculiaridade por
peculiaridade para assim conseguir construir a sequência do coletivismo do
cinema.
E claro, como não podia faltar nos filmes do diretor, ele
traz questões pessoais com o cinema de maneira poética, como em todas as noites
sonha (em preto e branco) com uma criança que rouba pôsteres de cinema, e
constrói fusões sobre o afeto que essa arte causa. Truffaut interpreta ele
mesmo, um homem apaixonado, e que busca diversas vezes a improvisação, não só
porque já está acostumado com os problemas da falta de recurso, mas também pois
sabe que arte não se faz de maneira burocrática. De maneira que a regra tem
mais que peso que o próprio sentimento, sendo sempre um subversor desse viés do
cinema. O filme comprova como o cinema tem a potência criativa em sua alma,
como é uma arte tão importante como todas outras, seja pelo afeto para com a
vida real dos atores e ainda, o mais belo, a neve. O cinema cria a neve onde
não existe, e com espuma de sabão. Que ao esfregar o chão do falso cenário se
torna uma expressão do real. Veja só, basta ser branco e parecer fofo que já
remonta à neve, pode-se nunca ter visto neve pessoalmente, mas seus atributos o
denunciam em tela, ou o confundem. O que importa é poder da criação que o
cinema traz consigo, de sua criação de choques de personalidades, muitas vezes
guerras de egos, outras vezes apenas uma disputa amigável de modos subjetivos
diferentes.
Portanto, Truffaut construiu aqui uma de suas obras
primas, um belo filme, com seu toque de comédia usual, muitas vezes
completamente improvisado. Uma carta de amor à produção cinematográfica,
imersos nos signos de diretor sonhador. “ Espero que você goste de assistir ao
filme o tanto quanto gostamos de fazê-lo”.
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