quarta-feira, 7 de junho de 2017

1975 – Calafrios (David Cronenberg, Canadá) ***1/2 (3.5)

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Calafrios pode ser considerado o primeiro Cronenberg de fato já que todas as suas potencialidades, até então, virtuais se atualizaram nesse filme e se tornaram grotescas, da melhor maneira possível. Narrando o terror de uma população de um condomínio fechado, em uma pequena ilha próximo ao Canadá, quando um ser rastejante começar a invadir seus corpos e transforma-los em pessoas sedentas por sexo. Difícil ser mais Cronenberg que isso.
            
Apesar de seu início confuso que, aos poucos, ganha sentido. Trazendo vários personagens para fazer a narrativa fluir, seja o médico (possível protagonista) que investiga a terrível morte de dois condôminos, um deles também médico e o casal que se tornam os primeiros infectados. O nojo pela criatura fálica que adentra sobre os corpos é gigante, conseguindo construir uma terrível dor no espectador, como se ele próprio estivesse sendo invadido. Grande parte do horror do filme é construído não pela tensão ou pelo susto, mas sim pela forma que essa criatura rasteja e consegue adentrar todos orifícios humanos, ela é incontrolável, mas no fim é extremamente humana. Sua ideia representativa é a do instinto sexual humano reprimido. Ela se espalhou por um lugar fechado, em que todos mantêm suas imagens ridículas para sobreviverem à sociabilidade próxima e inócua. A criatura é a essência libidinosa do ser humano, por mais horrível que seja. Os personagens não se importam mais se são pais, filhos, nada, todos desejam apenas, sem restrições, o sexo.
            
Alguns momentos criados pelo diretor são de pura ironia, remetendo-se até mesmo a certo humor negro. Uma cena na banheira em especifico remete à Hora do Pesadelo, algo que só iria acontecer quase dez anos depois, assim usando de signos muito próprios do terror. O banheiro é um lugar em que os humanos costumam se tornar mais relaxados de seus modos reprimidos, tiram a roupa sem a vergonha, e por vezes usufruem dessa possibilidade de liberdade sexual para se liberar ainda mais, algo muito recorrente que se repete aqui em uma cena memorável, não só tornando o acontecimento um clichê do gênero, como também brincando com ele. Os seus momentos finais também são de pura potência do cinema do horror, o medo da multidão descontrolada sedenta por sexo, as invasões nas paredes, a destruição das paredes do que separam as estruturas da privacidade social.   Uma pena os personagens serem tão pouco explorados, servindo-se apenas como meio para a criatura. Todos eles, sem exceção, são meros peões para a construção do terror.

Dessa forma, o filme de Cronenberg inicia sua proposta do Body Horror, em que conecta a mente e o corpo de forma completa. Apesar de trazer uma história muito simples e com poucas inovações para o gênero do terror, até mesmo em sua intensidade, consegue construir uma poderosa mensagem sobre os instintos sexuais humanos e obviamente mostrar toda a potência dos efeitos práticos, hoje, esquecidos ou mal utilizados. 

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