quinta-feira, 29 de junho de 2017

2016 – Silêncio (Martin Scorsese, EUA e Japão) ****1/2 (4.5)

 photo silence-movie-images-pics-stills-adam-driver-andrew-garfield-6-1024x424_zps1q5gilxp.png

O novo filme de Scorsese é surpreendente, para muitos é um diretor pisando em novos terrenos, mas aqueles que conhecem o trabalho dele, que tem mais de 25 filmes (praticamente 50 anos de cinema ele já tem), sabe muito bem que não é um novo terreno. Pode até se dizer que se desenvolve como o fim de uma trilogia iniciada com A Última Tentação de Cristo, seguida por Kundun e agora Silêncio, no qual Scorsese se debruça sobre a espiritualidade. Até mesmo em um de seus primeiros filmes como Caminhos Perigosos, percebe-se sua relação conturbada com a religião e a espiritualidade, não é à toa que a luz vermelha, extremamente recorrente em seus filmes, tem um significado singular, o de culpa católica. Dito isto, a história de Silêncio é a de dois padres portugueses que viajam ao Japão, durante o século XVI, em busca do Padre Ferreira, que pelos escritos renegou seu posto.
            
No primeiro momento, deve surgir como um incômodo os padres portugueses falarem em inglês e muitos dos personagens japoneses conseguirem falar um inglês razoável. Mas acredito que tenha sido uma escolha puramente funcional, imperialismos à parte. Esteticamente Scorsese oferece bastante, utilizando lentes que por vezes dilatam a imagem de uma forma interessante, como na cena em que os padres descem escadas, porém o centro da tela parece mais alto que resto, criando um efeito sobre o caminhar dos homens de Deus, que ao invés descerem as escadas, parecem estar subindo-as. Ou seja, percebe-se que Scorsese está propondo um olhar muito simbólico sobre essa busca dos padres. Seja pelo campo e contra-campo dos padres em relação à Jesus, que consegue ser aterrorizador, ou pela simplicidade que mistura o que foi dito com o que foi mostrado anteriormente, assim criando um universo de significados que se conectam. Como por exemplo, a cena em que um personagem explana veementemente que o único deus que os japoneses conseguem conceber é um deus que nasce todos os dias, existe um corte para o Sol – que pela simetria remete à bandeira daquele país – e então somos facilmente conectados ao momento, único momento, em que os dois padres protagonistas, Sebastião (Andrew Garfield) e Francisco (Adam Driver) estão em paz nas terras nipônicas, um momento que se banham da luz do Sol. Como se o filme se ressignificasse com as imagens e acontecimentos de maneira simples e orgânica. Não só pela montagem ou fotografia que a potência do filme se expressa, mas também pelo uso sonoro, pouco ou nenhuma trilha sonora, o silêncio se intensifica cada vez que nos deparamos com os momentos de maior desespero, dando um tom de agonia ao filme.
            
O roteiro traz inúmeros encontros dos personagens, para entendermos o que está sendo expresso pelo filme. Existirem japoneses que clamam pelo Deus católicos não chega a impressionar, conhecendo a tentativa de proliferar aos quatro cantos do mundo a palavra de Jesus (ou melhor, de dominar e aculturar outros povos). O que impressiona é a revolta dos Daimiôs (algo como um senhor feudal) que agem com torturas dignas da Inquisição para que os japoneses reneguem a Deus. Mas qual seria a vontade de Scorsese em mostrar apenas pessoas presas em crenças, que deixam suas vidas por conta de um lugar no pós vida? O que de fato se expressa nesse embate entre o Japão, o pântano rizomatico e imoral, e a Igreja, a árvore que se enrijece e que produz sombras, é o embate da transcendência e imanência. Percebe-se nos japoneses que se apaixonam pelo Deus católico uma ausência de noção transcendente, ou seja, eles não conseguem conceber um Deus para fora da experiência da própria natureza, um exemplo notório no filme é quando um casal pede aos padres que batizem seu filho recém-nascido, ao receberem tal benção perguntam “Então, padre, estamos no paraíso? ”. Algo que surge para os padres como uma ofensa, o ascetismo de Deus nãos se encontra com a imanência do que é em si, do que tende a ser material e se sujar. Essas desavenças ocorrem o filme o todo e talvez sejam as bases para entender como as duas ideologias são incongruentes.
            
Os personagens são muito bem interpretados e encarnam com muita sabedoria suas ideologias. Adam Driver aparece pouco, mas sempre com um semblante ríspido, ao passo que quando exigido, sua expressão corporal e até mesmo sua fisionomia, que se tornou esquelética para o filme, são impressionantes. Assim como Liam Neeson, que expressa um olhar triste e pouco aparece no filme. Os personagens japoneses também têm suas participações pequenas, e sempre muito importantes, Asano, como intérprete dos padres, cheio de comentários ácidos, o Ogata, ostentando uma figura que aparenta frágil, mas é assustadora como o inquisidor Inoue. Por fim, Yosuke, que faz o guia dos padres, um japonês que se diz cristão, mas sempre que forçado a renegar Deus, o faz e ainda pede para fazer confissão, o homem que ama mais a sua vida que à religião e por isso surge como o Judas do Padre Sebastião, interpretado de forma magistral por Andrew Garfield, em sua semelhança as imagens ocidentalizadas e embraquecidas de Jesus, enxergando o próprio salvador em seu rosto no reflexo de um rio. O personagem é aprofundado ao extremo como alguém que ama o que acredita, porém não percebe que está perdendo um bem precioso, a vida, e principalmente, a vida de outros, pois a sua figura é a do salvador das terras japonesas. Scorsese estende o enrede por muito tempo ao fim, narrando os últimos momentos do filme de maneira um pouco automática, tentando atingir um ápice que já havia acontecido. A última cena em si, parece fazer um pronunciamento que já estava obvio por todo sofrimento e violência expressa durante o filme, surgindo apenas como forma de pontuar, dar fim a algo que persiste.
            
Dessa forma, Silêncio surge como um dos melhores filmes do já grandioso Scorsese, passou despercebido pelo grande público que gostaria de um novo Lobo de Wall Street, ganharam algo até melhor, mas talvez menos contagiante. O filme, que se entrelaça em todos os seus recursos, constrói uma batalha intensa entre ideologias e modos de existir muito distintos, batalhas históricas, essenciais do ser humano. O que fazemos pela vida? O que fazemos por um o possível pós vida? O que é certo, o que é errado, o que compõe com um, o que decompõe com outro? A ética dos sujeitos diferentes, que só encontram o caminho comum quando perdidos. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário