quinta-feira, 22 de junho de 2017

2016 – A Longa Jornada de Billy Lynn (Ang Lee, EUA e Taiwan) *** (3)

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Antes de existir uma experimentação tecnológica sobre o uso de quadros por segundos em um filme deve existir um conteúdo para tal. Existe algo de importante no conteúdo do filme, em sua tentativa de expressar um discurso sobre os afetos de um grupo de soldados, ao mesmo tempo parece querer discutir outros assuntos como sensacionalismo, mídia e o próprio ridículo do patriotismo. Porém, o roteiro é simples demais e não consegue construir uma relação sobre todas as temáticas apresentadas, acaba por se tornar vago e pouco justifica em si o experimento.
            
Conseguindo facilmente nos ambientar no início dos anos 2000, numa sociedade americana recentemente pós 11/09, ficamos imersos na realidade dos soldados americanos que vão receber uma homenagem durante o fim de um jogo de futebol americano e logo depois irão voltar para a Guerra no Iraque. Enquanto somos imersos na experiência, somos interrompidos incessantemente por falshbacks do protagonista da história, Billy Lynn, o que vai construindo seu personagem. Alguém que aparentemente entrou no exército sem muito rumo, porém durante a guerra se tornou um herói aos olhos de todos. Fazendo um uso interessante de cores, em que em certos momentos o preto e branco se instala, como se houvesse uma passagem da memória e da atualidade. Ang Lee sempre conduz sua narrativa com muita sensibilidade, e o grupo de atores foi muito bem escolhido para compor alguns dos personagens, em especial Vin Deisel como um dos soldados mortos na Guerra, em um papel extremamente inusitado e outra ótima atuação de Kristen Stewart, fazendo a irmã de Billy, sendo aquela que se importa, de fato, com o terror psicológico que é estar na guerra. Entretanto, Steve Martin e Chris Tucker só expressam grandes estereótipos, sem conseguir criar com trejeitos ou expressões seus personagens, eles parecem presos na caixinha de homens de negócios, um como o ocupado e agitado, o outro como um chefe e sábio.
            
E se não bastasse tais personagens difíceis de digerir, Faison, a líder de torcida que se apaixona puramente pela imagem do Billy Lynn e ele por ela de forma tão simples, rápida e pouco interessante para o enredo. Parece ter sido incluído apenas para existir uma história de amor, como se Billy só voltaria para casa se for por uma possível namorada, nunca pela sua família, nunca pela sua própria vida. Ainda assim, Lee trouxe verdadeiros momentos dos absurdos do patriotismo ridículo e comercial da guerra, os surtos dos soldados com comentários homofóbicos, a própria visão deturpada e singular que as pessoas têm sobre os atos deles e por fim, a própria grandiosidade do espetáculo criado, que os fazem se sentir na própria guerra. A maneira em que o grupo de soldados começa a se ajudar como uma equipe em ambiente inimigo, se defendendo e sempre em alerta, dessa forma, construindo um cenário aparentemente amistoso, mas que surge como o retorno à guerra com os soldados. Este com certeza é um dos pontos altos do filme, que varia rapidamente em seus temas e poucas vezes conseguindo realmente efetuar algo que se torne de grande afeto. Esse é o segundo trabalho do Ang Lee sem a participação do James Schamus no roteiro (que recentemente dirigiu seu primeiro filme Indignação), desde então, percebe-se um verdadeiro esforço do diretor taiwanês em produzir seus filmes com tecnologia de ponta, deve-se perguntar se é necessária tal tecnologia ser usada para a narrativa que vai ser contada e não o inverso. Não que tenha ficado ruim, porém, se tornou irritante e sem sentido.
            
Portanto, pode-se dizer que Ang Lee perdeu a mão nesse filme, conseguiu até trazer um discurso muito atual para os Estados Unidos em momentos de conservadorismo e patriotismo. A parte disso, não falta a sensibilidade do diretor asiático,  perdendo a força por conta de alguns personagens mal resolvidos e insistindo em sobrepor o uso da nova tecnologia de quadros por segundos à sua utilidade na narrativa. 

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