
Existe um motivo que talvez
explique o porquê de Pablo Larraín ter lançado dois filmes esse ano, além,
provavelmente de certa agilidade. Os seus dois filmes tratam de figuras
históricas, a primeira dama dos Estados Unidos, Jackie (filme produzido nos
EUA) e o poeta Pablo Neruda. Duas figuras que as pessoas pouco de fato
conhecem, se conhece suas imagens políticas e poéticas, mas quem são eles? O
diretor não pretende responder, muito menos reconstituir de forma realista a
história, mas o que pretende é uma realização poética que misture suas imagens
à próprias imagens do filme, sua vontade é a de explorar esse imaginário sobre
seus personagens históricos ao máximo. Em Neruda, (Já fiz crítica de Jackie),
explora o momento em que o poeta e senador chileno teve que se exilar para não
ser preso pela polícia, uma verdadeira caça aos comunistas do país. Enquanto
fica isolado de sua terra que o inspira tanto, é perseguido por Oscar, um
detetive que narra o filme em busca de glória ao capturar o homem mais
procurado do Chile.
É preciso falar acima de tudo dos seus dois
protagonistas. Pablo Neruda mostra-se como um artista, daqueles que consegue
tocar a todos, é como se emitisse uma áurea quase divina, por mais que aja normalmente
e até de forma irritante quando está em momentos mais íntimos, como com sua
esposa. Apesar de sua lírica ser a da simplicidade e melancolia que conseguia
trazer afeto, principalmente aos operários chilenos, ele era encantado pelo
romance policial, muito dito como comercial. O policial, Oscar, que havia se
autodenominado Oscar Peluchonneau, assim como o fundador da polícia chilena, alguém que odiava
todo os comunistas, odiava as figuras dos intelectuais e artistas que achavam
ser mais que outros, ele odiava completamente o Neruda. Com as atuações
espetaculares de Luis Gnecco, com sua figura muito próxima a do poeta, com suas
peculiaridades e trejeitos, conseguindo demonstrar certa arrogância e um olhar
cuidadoso ao mesmo tempo e Gael Bernal, com um olhar de um sonhador que se
confunde com a do louco. Larraín ainda opta por uma fotografia que lhe é muito
própria, com o trabalho de Sergio Armstrong, em que as luzes causam um efeito
alaranjado na imagem, apesar de tudo perecer meio turvo e roxo.
A fotografia e direção
nos momentos em que Oscar está em tela se tornam próprias do cinema Noir, sua
narração e ódio contra o mal da sociedade, a decadência dos intelectuais
arrogantes é extremamente conectada ao gênero. Assim construindo um filme de
suspense ao mesmo tempo que constrói uma biografia e transita entre vários
gêneros. Essa precisão ainda se encontra na montagem que faz com que cenas de diálogos
ininterruptos continuem, mas em ambientes diferentes, com posicionamentos
diferentes. Um corte abrupto fragmenta o diálogo pelos diferentes espaços,
criando sensações diferentes para cada momento da conversa. Como na própria poesia,
cada palavra pode mudar, em súbito, o tom, a montagem da poesia escrita é de
uma variação grande, um choque de palavras. Aqui Larraín tenta recria-la com os
próprios planos, que se chocam para dar mais sentido ao diálogo, cenas dentro e
fora de casas enquanto o mesmo dialogo acontece, é como se não houvesse variação
alguma de momento. Dessa forma, é possível compreender a relação de Neruda com
a poesia pelas escolhas estéticas do diretor, está em sua própria vida, até
mesmo o lado Noir, pois a perseguição policial criava uma ânsia excitatória no
poeta, assim como também tornava Oscar uma mera sombra de Neruda, o seu
inverso, aquilo que ele ama, mas o odeia.
Portanto, Neruda não é uma
biografia, assim como Jackie. É uma exploração cinematográfica que busca fazer
uma montagem da imagem dessas figuras. Ele não procura, por opção, encontrar o
real Pablo Neruda, pois esse não lhe interessa, o que lhe interessa foi o que
ele produziu. Por isso, o filme é sobre a estética de Pablo Neruda, a poesia de
um homem atravessada nas imagens.
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