quinta-feira, 8 de junho de 2017

2016 – Neruda (Pablo Larraín, Chile) ****1/2 (4.5)

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Existe um motivo que talvez explique o porquê de Pablo Larraín ter lançado dois filmes esse ano, além, provavelmente de certa agilidade. Os seus dois filmes tratam de figuras históricas, a primeira dama dos Estados Unidos, Jackie (filme produzido nos EUA) e o poeta Pablo Neruda. Duas figuras que as pessoas pouco de fato conhecem, se conhece suas imagens políticas e poéticas, mas quem são eles? O diretor não pretende responder, muito menos reconstituir de forma realista a história, mas o que pretende é uma realização poética que misture suas imagens à próprias imagens do filme, sua vontade é a de explorar esse imaginário sobre seus personagens históricos ao máximo. Em Neruda, (Já fiz crítica de Jackie), explora o momento em que o poeta e senador chileno teve que se exilar para não ser preso pela polícia, uma verdadeira caça aos comunistas do país. Enquanto fica isolado de sua terra que o inspira tanto, é perseguido por Oscar, um detetive que narra o filme em busca de glória ao capturar o homem mais procurado do Chile.
            
É preciso falar acima de tudo dos seus dois protagonistas. Pablo Neruda mostra-se como um artista, daqueles que consegue tocar a todos, é como se emitisse uma áurea quase divina, por mais que aja normalmente e até de forma irritante quando está em momentos mais íntimos, como com sua esposa. Apesar de sua lírica ser a da simplicidade e melancolia que conseguia trazer afeto, principalmente aos operários chilenos, ele era encantado pelo romance policial, muito dito como comercial. O policial, Oscar, que havia se autodenominado Oscar Peluchonneau, assim como o fundador da polícia chilena, alguém que odiava todo os comunistas, odiava as figuras dos intelectuais e artistas que achavam ser mais que outros, ele odiava completamente o Neruda. Com as atuações espetaculares de Luis Gnecco, com sua figura muito próxima a do poeta, com suas peculiaridades e trejeitos, conseguindo demonstrar certa arrogância e um olhar cuidadoso ao mesmo tempo e Gael Bernal, com um olhar de um sonhador que se confunde com a do louco. Larraín ainda opta por uma fotografia que lhe é muito própria, com o trabalho de Sergio Armstrong, em que as luzes causam um efeito alaranjado na imagem, apesar de tudo perecer meio turvo e roxo.
           
A fotografia e direção nos momentos em que Oscar está em tela se tornam próprias do cinema Noir, sua narração e ódio contra o mal da sociedade, a decadência dos intelectuais arrogantes é extremamente conectada ao gênero. Assim construindo um filme de suspense ao mesmo tempo que constrói uma biografia e transita entre vários gêneros. Essa precisão ainda se encontra na montagem que faz com que cenas de diálogos ininterruptos continuem, mas em ambientes diferentes, com posicionamentos diferentes. Um corte abrupto fragmenta o diálogo pelos diferentes espaços, criando sensações diferentes para cada momento da conversa. Como na própria poesia, cada palavra pode mudar, em súbito, o tom, a montagem da poesia escrita é de uma variação grande, um choque de palavras. Aqui Larraín tenta recria-la com os próprios planos, que se chocam para dar mais sentido ao diálogo, cenas dentro e fora de casas enquanto o mesmo dialogo acontece, é como se não houvesse variação alguma de momento. Dessa forma, é possível compreender a relação de Neruda com a poesia pelas escolhas estéticas do diretor, está em sua própria vida, até mesmo o lado Noir, pois a perseguição policial criava uma ânsia excitatória no poeta, assim como também tornava Oscar uma mera sombra de Neruda, o seu inverso, aquilo que ele ama, mas o odeia.
            
Portanto, Neruda não é uma biografia, assim como Jackie. É uma exploração cinematográfica que busca fazer uma montagem da imagem dessas figuras. Ele não procura, por opção, encontrar o real Pablo Neruda, pois esse não lhe interessa, o que lhe interessa foi o que ele produziu. Por isso, o filme é sobre a estética de Pablo Neruda, a poesia de um homem atravessada nas imagens.

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