quarta-feira, 14 de junho de 2017

2016 – Certas Mulheres (Kelly Reichardt, EUA) **** (4.0)

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Reichardt, já conhecida por suas narrativas minimalistas, se afirma cada vez mais com sua veia independente e silenciosa sobre histórias singelas e tristes nos interiores dos EUA. Contando a história de algumas mulheres que não se conhecem, mas vivem na mesma cidade e sofrem pouco a pouco com a própria existência cotidiana, principalmente pela repetição. Uma delas é a advogada Laura, que tenta ajudar seu cliente, porém esse não a escuta. Gina que juntamente com seu marido tentam construir a própria casa, porém parece que ninguém realmente está interessada na sua busca. E por fim, a fazendeira que começa a tomar aulas com a professora Beth. Todas singulares e solitárias, mas conectadas.
            
Se existe uma potência no minimalismo da diretora é na produção de uma repetição angustiante para suas personagens, por vezes até bucólica, mas em sua maioria das vezes é melancólica. O silêncio que envolve as personagens é grandioso, principalmente quanto a situação que se repete é a de mulheres que falam, mas a resposta não se faz de uma conjunção ou de uma negação, simplesmente a resposta é outra, por vezes é silencio, já que elas costumam ser ignoradas. A terceira narrativa, a que a fazendeira que se interessa por Beth contém mais elementos interessantes, pois a personagem da fazendeira foge aos padrões de gênero, ela trabalha com os animais, sempre com trabalhos manuais, considerados pesados. Ela pouco fala, prefere observar e sorrir, até mesmo pela sua própria convivência com animais muito mais profunda do que com os humanos. Tem uma relação extremamente contemplativa com o que ama, talvez por isso busque a professora Beth a cavalo, como nos contos de fadas que o príncipe salva a princesa da solidão. Em uma atuação magistral de Lily Gladstone que compõe uma personagem que atravessa todas as três narrativas, uma mulher que vive ao redor de animais em silêncio, só observa, por mais que tente comunicação não sabe quando será escutada, mas ainda assim continua, por pura insistência, como uma luta eterna.
            
Todas as histórias têm suas peculiaridades, no enredo de Gina, ela tem o desejo de construir uma casa com material autêntico, é como se houvesse uma necessidade de construção de si. A personagem que não sabe bem o que fazer da vida, apenas, que deve construir essa casa. Ela precisa de um lugar que possa ficar bem. Dessa forma, todas as histórias relatam histórias sobre mulheres solitárias e não há como negar que o machismo ajuda no ostracismo delas, mas simplesmente não é o foco do filme explorar ou fazer uma análise desse machismo. E sim, nos fazer observar de forma silenciosa e sem grandes reviravoltas a vida de certas mulheres, vidas que se conectam ao mesmo tempo que se desprendem. Reichardt conseguiu em conjunto com as atrizes, Luara Dern, Kristern Stewart, Michelle Williams e Lily Gladstone construir personagens muito simbólicos e simples, os trejeitos, as expressões, principalmente pelo fato de ser exibido pedaços da vida delas. Não temos uma resolução das histórias, muito menos um começo delas, elas se entrelaçam apenas.

            
Portanto, é possível encontrar certa frieza, muito própria dos longos silêncios e das personagens sozinhas no ambiente de campo, quase sempre nublado. Mas também, é possível encontrar a felicidade bucólica, o afeto, no desejo de se entender, de insistir na vida. São pequenas belas histórias com boas atuações e um roteiro singelo. 

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