quarta-feira, 3 de maio de 2017

2016 – O Apartamento (Asghar Farhadi, Irã) ****1/2 (4.5)

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O novo filme do grande diretor iraniano Asghar Farhadi é mais um drama sobre as intimidades das relações morais do seu país. Percebe-se novamente uma estética rigorosa, sempre muito influenciada do teatro, mas completamente cinematográfica, usando das cores e da própria organização de cenas para aumentar e potencializar as imagens. Narrando a história de um casal de atores, Emad e Rana, que se mudam para um apartamento novo, já que o deles estava desabando, porém, a antiga inquilina não pegou suas coisas de volta.
            
O enredo já se inicia de forma simbólica, utilizando do espaço para explorar seu subtexto, em que o apartamento dos protagonistas está para desabar, já prevendo as possíveis crises do casal. Enquanto o novo apartamento também não está perfeito, principalmente por conta da antiga inquilina ter deixado muita mais do que suas coisas lá. Ela deixou seu passado, o que mudou completamente a vida do casal, já que essa mulher levava diversos homens à sua casa, e um deles ataca Rana. Em meio a isso, os dois estão atuando na adaptação do livro de Arthur Miller, A Morte de um Caixeiro Viajante. Que expõe ainda mais todo o subtexto do filme, servindo como forma de ebulição e também sublimação dos sentimentos de seus personagens. Como no momento em que Emad fala palavras a mais para insultar seu amigo que o ajudou a achar o novo apartamento, mas a cena mais poderosa é a do funeral do Caixeiro Viajante. As atuações de Emad e Rana são ótimas, tanto na peça quanto no filme, Emad em especial traz uma ambiguidade de um grande suspense nos seus olhos. A peça torna-se necessária para falar o que não pode ser dito pelas regras morais tão pesadas do Irã. A arte aqui tem seu papel elevado ao dizer o que não foi dito, ao que nunca pode ser dito, por isso os personagens sublimam tanto.
            
O fato de Rana ser violentada conseguiu ferir mais o ego de Emad que a própria vida de Rana, que aos poucos se mostra muito mais forte que ele, ou talvez não seja nem força, mas um comprometimento com a obrigação moral que a moveu. Ou seja, os dois se movem pela moralidade e nunca por uma ética do relacionamento. Eles se recusam a ir na polícia, pois tinham medo de que perguntas poderiam fazer, ainda mais quando existe a sombra da dúvida de um estupro, algo suposto pelas imagens, mas nunca realmente revelado. Farhadi ainda significa mais sua história ao usar do vermelho como cor primária de seu filme, sempre compondo o ambiente com tal cor, seja no hijab de Rana, ou na indumentária do teatro, porém principalmente nas janelas da sua antiga casa e na luz de dentro da sala que manipula as luzes do teatro, onde em certos planos conseguimos ver o rosto do homem sendo projetado em vermelho em tela, criando quase como uma mancha de sangue durante a realização da peça. Dessa forma, temos uma sensação de violência iminente, que se concretiza no sangue espalhado pela casa, contudo o vermelho persiste, dando uma indicação de que Emad não iria se contentar com reprimir tudo. Assim, o diretor constrói mais um embate moral, dessa vez, explorando como foco o homem iraniano, que se recusa a comer da comida comprada com o dinheiro que o agressor havia esquecido na casa dele, que simplesmente pede para sua melhor voltar a viver normalmente, mas não consegue de fato fazer o mesmo.

            
Por tudo isso, o fim do filme consegue ser ainda mais poderoso. Não só pela organização de cena, usando da arquitetura do cenário para criar mais impacto no enredo, mas também pela intensidade dos atores, do medo de tudo que aconteceu. Não é uma obra tão sútil como seus filmes anteriores, alguns pontos ficaram escancarados demais e por vezes até maniqueísta, mas ainda é um filme primoroso, que sabe para que serve o cinema e sabe como usá-la para se tornar potente. 

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