
Seu sétimo filme é um dos que
mais tem a sensação de continuidade até agora, por mais que seja uma história
divida em duas partes claras. Um filme com uma estética melancólica pelas frias
praias coreanas e personagens machucados que com a impulsividade usual acabam
por se apaixonarem de forma intensa, mas de maneira efêmera. Sem mistérios ou
irrupções de conhecimento, pois até mesmo as cenas noturnas são muito bem
iluminadas, e como Veermer que pintava quadros com cenários iguais e ações
diferentes, Hong Sang-Soo muda sempre seu lugar, mas suas ações são as mesmas,
ações iluminadas por diferentes ambientes, luzes imanentes, sem mistérios,
apenas encontros.
Narrando a história de um diretor de cinema, Kim
Jung-Rae, que pede a companhia de um amigo para uma viagem, o designer Won
Chang-Wook. Tendo como o intuito se inspirar para o seu próximo filme. Porém
esse amigo já tinha um encontro marcado com uma mulher chamada Sun-hee. Assim,
os três viajam juntos para uma cidade no litoral coreano. Como de usual,
percebemos uma competição masculina, o diretor é muito egocêntrico e acaba por
realmente destruir a persona de seu amigo, um homem mais puritano, por assim
dizer. Sun-hee parece não muito satisfeita com o seu relacionamento e pela
maneira que agia entre os dois, mostrava-se livre para fazer o que quisesse.
Caminhando descalça, enquanto eles ainda presos em seus sapatos só a escutavam,
e novamente temos aqui uma expressão de mulher moderna, que diga-se de passagem,
ainda é incomum no lado mais oriental. Ela transa com quem ela quer, e relata
as experiências que os deixam constrangidos e especificamente o diretor com uma
raiva insana de estrangeiros, mostrando uma reação xenofóbica e até certo ponto
misógina.
Sempre construindo esses personagens odiáveis, que são
apaixonados, permeados de razões inadequadas e de uma intensidade nos corpos,
que parecem os mover, os fazem perambular sem parar. Quando se chega em sua
segunda parte, existe uma construção muito interessante sobre o simbolismo da
praia e suas árvores mortas em relação aos seus personagens, que se movimentam
sempre em três. Em seu roteiro ainda existem comentários sensacionais sobre o
que se vê e os fantasmas que distorcem a realidade, fantasmas construídos de
forma esquemática e visual pelo protagonista, que desenha um triangulo
conectando três pontos do imaginário, justificando aqui sua relação com seu
modo de existir triangular. Ele ainda vai além, relatando que a realidade
constrói uma forma geométrica que é complexa demais e o fantasma faz parte
dela, se organiza a partir dela. Porém quanto mais Jung-Rae fala, mais
percebemos que ele é um triangulo, mas queria ser essa forma geométrica
inenarrável, ele vive em seus fantasmas de forma intensa, se encanta e às vezes
se deforma, mas continua voltando para sua zona triangular. Enquanto Jung-Rae e
Sun-hee são muito bem explorados pelo o roteiro, os outros bons personagens
acabam servindo para muito pouco, sendo certas faíscas que se apagam rápido
demais.
Ainda existe
cenas que se espelham nas duas partes, como a do abandono do cachorro Dori, em
que seus donos partem no horizonte com o carro e ele os persegue. Se espelhando
no momento em que Sun-hee resolve deixar a cidade praiana com o carro e ele
atola, a areia a impede de sair dali. Com ajuda ela dirige para o horizonte,
deixando para trás a areia que por um momento tocou seus pés. E as cenas
noturnas, que usualmente apresentam certa sensação de segredo e mistério, aqui
tornam-se os momentos das revelações e do livramento, não é à toa que até à
noite percebe-se os personagens e o ambiente com uma grande clareza e apenas
seus contornos contém sombras.
Portanto, Mulher na
Praia tem um dos personagens mais odiosos da filmografia de Hong Sang-Soo e por
vezes sente-se que alguns personagens são pouco aproveitados. Mas sua narrativa
poderosa e explorações tanto visuais quanto do roteiro são muito interessantes
e só ratificam o entendimento que o diretor tem sobre seu próprio estilo,
repetição e iluminação.
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