quinta-feira, 4 de maio de 2017

2006 – Mulher na Praia (Hong Sang-Soo, Coreia do Sul) **** (4)

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Seu sétimo filme é um dos que mais tem a sensação de continuidade até agora, por mais que seja uma história divida em duas partes claras. Um filme com uma estética melancólica pelas frias praias coreanas e personagens machucados que com a impulsividade usual acabam por se apaixonarem de forma intensa, mas de maneira efêmera. Sem mistérios ou irrupções de conhecimento, pois até mesmo as cenas noturnas são muito bem iluminadas, e como Veermer que pintava quadros com cenários iguais e ações diferentes, Hong Sang-Soo muda sempre seu lugar, mas suas ações são as mesmas, ações iluminadas por diferentes ambientes, luzes imanentes, sem mistérios, apenas encontros.
            
Narrando a história de um diretor de cinema, Kim Jung-Rae, que pede a companhia de um amigo para uma viagem, o designer Won Chang-Wook. Tendo como o intuito se inspirar para o seu próximo filme. Porém esse amigo já tinha um encontro marcado com uma mulher chamada Sun-hee. Assim, os três viajam juntos para uma cidade no litoral coreano. Como de usual, percebemos uma competição masculina, o diretor é muito egocêntrico e acaba por realmente destruir a persona de seu amigo, um homem mais puritano, por assim dizer. Sun-hee parece não muito satisfeita com o seu relacionamento e pela maneira que agia entre os dois, mostrava-se livre para fazer o que quisesse. Caminhando descalça, enquanto eles ainda presos em seus sapatos só a escutavam, e novamente temos aqui uma expressão de mulher moderna, que diga-se de passagem, ainda é incomum no lado mais oriental. Ela transa com quem ela quer, e relata as experiências que os deixam constrangidos e especificamente o diretor com uma raiva insana de estrangeiros, mostrando uma reação xenofóbica e até certo ponto misógina.
            
Sempre construindo esses personagens odiáveis, que são apaixonados, permeados de razões inadequadas e de uma intensidade nos corpos, que parecem os mover, os fazem perambular sem parar. Quando se chega em sua segunda parte, existe uma construção muito interessante sobre o simbolismo da praia e suas árvores mortas em relação aos seus personagens, que se movimentam sempre em três. Em seu roteiro ainda existem comentários sensacionais sobre o que se vê e os fantasmas que distorcem a realidade, fantasmas construídos de forma esquemática e visual pelo protagonista, que desenha um triangulo conectando três pontos do imaginário, justificando aqui sua relação com seu modo de existir triangular. Ele ainda vai além, relatando que a realidade constrói uma forma geométrica que é complexa demais e o fantasma faz parte dela, se organiza a partir dela. Porém quanto mais Jung-Rae fala, mais percebemos que ele é um triangulo, mas queria ser essa forma geométrica inenarrável, ele vive em seus fantasmas de forma intensa, se encanta e às vezes se deforma, mas continua voltando para sua zona triangular. Enquanto Jung-Rae e Sun-hee são muito bem explorados pelo o roteiro, os outros bons personagens acabam servindo para muito pouco, sendo certas faíscas que se apagam rápido demais.

Ainda existe cenas que se espelham nas duas partes, como a do abandono do cachorro Dori, em que seus donos partem no horizonte com o carro e ele os persegue. Se espelhando no momento em que Sun-hee resolve deixar a cidade praiana com o carro e ele atola, a areia a impede de sair dali. Com ajuda ela dirige para o horizonte, deixando para trás a areia que por um momento tocou seus pés. E as cenas noturnas, que usualmente apresentam certa sensação de segredo e mistério, aqui tornam-se os momentos das revelações e do livramento, não é à toa que até à noite percebe-se os personagens e o ambiente com uma grande clareza e apenas seus contornos contém sombras.

Portanto, Mulher na Praia tem um dos personagens mais odiosos da filmografia de Hong Sang-Soo e por vezes sente-se que alguns personagens são pouco aproveitados. Mas sua narrativa poderosa e explorações tanto visuais quanto do roteiro são muito interessantes e só ratificam o entendimento que o diretor tem sobre seu próprio estilo, repetição e iluminação.

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