Remake da obra-prima do
diretor Masaki Kobayashi, dos anos 60, o Hara-Kiri de Miike não tem a mesma
intensidade da sua inspiração. Mas isso não quer dizer que é um filme ruim, as
alterações tanto estéticas quanto de roteiro (apesar de serem pequenas mudanças)
são interessantes e tornam a obra significante, mas não necessária. Não havia
necessidade de um remake de um filme tão consolidado e poderoso. Sua história
consiste no desejo de Hanshiro de praticar o audacioso ritual suicida do
Harakiri no pátio de um poderoso clã, narrando seus motivos por longos
flashbacks e sendo, de fato, um filme sobre samurais que não se importa com
suas cenas de ação, focando-se no drama.
Quando Hanshiro chega ao estabelecimento do Clã é
recebido com certa cordialidade que logo se apaga quando relata o seu desejo.
Para quem não conhece, o Harakiri (ou Sepukku) é um ritual de suicídio dos
samurais em que o sujeito crava sua espada em sua barriga e a corta com o
intuito de fazerem suas tripas saírem de seu corpo. É interessante como o
diretor usa de longos planos e da repetição de alguns símbolos para construir
suas ideias. Seja com o foco no grandioso símbolo do Clã ou na Armadura
extremamente elaborada dos samurais, sendo sínteses da honra que é ser um
samurai. A grande potência do enredo é mostrar uma disparidade da honra, que é
facilmente vista como uma moral dos samurais, com a brusca e cotidiana realidade,
se heroísmos. Pois quando se conhece a história de Hanshiro percebemos que sua
pobreza e sendo um Ronin (samurais sem mestre, ou clã) tinha como única maneira
de ganhar dinheiro fazer guarda-chuvas, enquanto sua filha e seu filho adotivo,
que logo se casariam, também têm empregos pacatos. Assim, a ignorância que os
samurais empregam seus códigos morais que não conseguem enxergar as pessoas faz
com que o próprio código moral se desfaça.
É de uma poesia impressionante também o uso da neve em
efeitos 3D, em certos momentos soa artificial, mas quando ela se acumula no
topo da cabeça do homem que costumava fazer guarda-chuvas temos uma ironia
construída por meio da imagem. É digno de nota, também, a fotografia do longa
que a cor branca e opaca presente no pátio do Clã vai de encontro com sujeira
usual da pobreza, enquanto vemos muito mais presença da natureza na casa de
Hanshiro. Miike é muito conhecido por suas cenas violentas e cenas absurdas,
apesar de pouquíssimas cenas de ação, existe um momento que é crucial, em que
um dos personagens pratica um harakiri com uma espada de madeira, já que a sua
já havia sido vendida. Uma longa cena que ecoa todo o enredo, é de um terrível
desprezar assisti-la, mas necessária para a compreensão do afeto. Sua
orquestração de cenas é de se impressionar, como percebe-se seus personagens
com medo de serem humilhados para não perderem a honra imaculada irretocável do
idealizado samurai japonês, apenas com o movimento conjunto de vários
personagens de um lado para o outro, ele demonstra essa máxima. As atuações de
todos estão muito boas, principalmente a do próprio Hanshiro expressando certa
loucura e determinação, e principalmente dor, não chegando a ser o Nakadai, mas
cumprindo muito bem com seu papel.
Portanto Harakiri é um filme muito bom, realizado com
suas próprias peculiaridades. Miike soube tornar sua obra relevante, mas sem
nunca ultrapassar a potência produzida por Kobayashi e Nakadai no filme
original. Tornando-se interessante até mesmo pelas suas mudanças que se
tornaram cruciais para ser não apenas um remake, mas uma nova adaptação de um
mesmo enredo, um filme por si só, independentemente de seu original.

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