
Pulse é considerado por muitos
um dos melhores filmes de terror do século XXI, outros o consideram apenas um
filme lento demais. A verdade é que o estilo de Kurosawa nesse longa é como uma
mistura de Antonioni e de O Chamado, pense em algo assim. Narrando a história
de dois grupos de jovens que começam a perceber os efeitos solitários da
internet, em consequência disso, suicídios começam a acontecer, trazendo horror
e tristeza a todos.
Nenhum de seus personagens realmente parece ter uma
identidade, todos parecem peças organizadas num cenário que absorve o vazio e faz
um belo uso da iluminação que constrói tensão e horror. A grande façanha desse
filme é ser extremamente crítico ao uso da internet no ano de 2001, quando nem
se esperava o fascínio e absurdo que se é hoje. No caso do longa, pessoas
solitárias acabavam adquirindo um vírus nos seus computadores, ao qual se
intitulava O Quarto Proibido, onde assistiam à outras pessoas enquanto estavam
sozinhas, as câmeras não existiam, mas de forma fantasmagórica algo gravava os
quartos. Era possível ver um número gigantesco de quartos de pessoas
diferentes, pessoas comuns, mas que na verdade estavam vivendo num mundo
alienado e até mesmo metafísico. Em uma cena, o amigo de um dos homens que se
suicidou entra num quarto que estava lacrado por fita adesiva vermelha, onde se
encontra com um dos possíveis espíritos. Uma cena tão poderosa, usando da
câmera lenta e de movimentos corporais que tropeçam a expressão de vida, ao
mesmo tempo que ele utiliza de efeito especiais para misturar a sombra na
parede com um corpo embaçado. Diga-se de passagem, o vermelho está muito
presente no filme, em pequenos detalhes, seja numa blusa, num carro, nas fitas
adesivas e no próprio sangue, quando mais tempo passa parece ser a cor essencial
do cinema, pois é uma cor com afeto muito poderoso.
No desenvolvimento da história, percebe-se também um
cuidado para com o significado dessa metáfora sobre a solidão humana. É dito
que os espíritos não matam as pessoas e sim as obrigam a vagar eternamente pela
terra, num estado que parece ser entre o vivo e morto. Pois em certos momentos,
as pessoas que se mataram por conta da internet se tornam manchas no chão ou na
parede, mas às vezes se materializam. Mais assustador ainda é quando estão em forma
de mancha e pedem socorro, usando de algum efeito sonoro que a fala deles
parece pipocar, como se o som de suas bocas fossem o mesmo de bolhas
explodindo. Quanto mais pessoas somem, mas vai se percebendo a solidão, os
cenários ficam vazios, os personagens vagam, mas, o que mais cria agonia nesse
fato é que de início vemos quase todos os personagens já sozinhos, andando em
ônibus vazios, conversando apenas com os colegas de trabalho. Aqueles que não
deixaram se levar por um contato não material que está para o além, em algum
momento dizem “essas pessoas são fantasmas” quando assistem aos vídeos das
diversas pessoas presas em sua solidão, é como se já estivessem nesse estado
entre o vivo e o morto, e precisam que sua imagem virtual se projetasse na tela
de todos pare se sentir melhor. Nada diferente de hoje. O filme não se propõe a
trazer a origem de nada disso, apenas explorar de maneira lenta e tensa o
horror da solidão produzida pela alienação em massa da internet.
Pulse pode não agradar alguns fãs de filme de terror que
procuram sustos, mas pode agradar aqueles que se assustam não só com o conceito produzido, mas com suas explorações
minuciosas, efeitos de luz e tensão. Kurosawa sendo extremamente crítico e
poético, e ainda assim, assustador, pensando o horror como uma forma poderosa de catarse para a expressão do real.
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