sexta-feira, 26 de maio de 2017

2016 – Paterson (Jim Jarmusch, EUA) ***** (5)

 photo PATERSON01-770x494_zps5zprwozs.jpg


Quando a simplicidade e poesia são suficientes para nos fazer viver é nesse momento que encontramos com Paterson. Jarmusch com tamanha sutileza conseguiu contar uma história que nas mãos de outros poderia ser monótona ou ter recursos de roteiro demais para movimentá-la. Narrando uma semana na vida de Paterson, um motorista de ônibus na cidade de Paterson, que todos os dias transforma o cotidiano em poesia.
            
Logo de início, o diretor já trabalha com a repetição ou melhor com a duplicação. Quando Laura, a mulher de Paterson, diz que sonhou que eles tinham filhos gêmeos, e os gêmeos começam a aparecer sem parar no filme, mas não é só isso. O próprio personagem divide uma relação com a cidade, seja pelo nome ou ainda pelas suas características, certo contentamento com pouco e por mais artístico que seja, ninguém conhece suas realizações poéticas. Assim como a cidade, que parece parada no tempo, vazia, e cheio de artistas advindos dela. Trazendo ainda mais potência ao percebermos que ele escreve suas poesias nos mesmos lugares e ao escreve-las relata conexões sobre seu próprio cotidiano que se repete, se repete, porém se diferencia, pois são sempre novas conexões. Não é à toa que Jarmusch expressa isso com a imagem, usando de fusões poéticas e poderosíssimas, para evocar o surgimento e a montagem das palavras durante essa produção. Se não bastasse Paterson ser um poeta, ainda temos Laura, que é como uma luz na história, relatando ter mais de um sonho para sua vida, ou ainda com a incessante forma de pintar círculos pretos no branco, ou vice e versa. Melhor ainda é perceber que apesar de ser a mesmo estilo de pintura sempre, são completamente diferentes, alguns círculos maiores, outros menores, outros preenchidos, outros vazios. Chega a ser cômico que ao assistir um filme preto e branco ela reclame desse fato. O roteiro muito bem escrito, consegue nos colocar pela montagem no processo criativo do personagem, pelos diálogos dos passageiros dos ônibus, as peculiaridades do bar que sempre visita, trazendo planos diferentes que variam da reação de Paterson ao próprio movimento constante dos ambientes que visita.
            
As atuações estão ótimas, Adam Driver como Paterson é de uma perfeição extrema. Não só pela repetição que já ocorre com sua escolha, “Driver” que significa motorista, mas também pelo seu humor seco, com poucas expressões corporais, certa paralisia, até mesmo na maneira de falar. Algo que se reflete de forma contrária ao recitar suas poesias, parece que elas ganham até mais poder ao serem recitadas por sua voz. A iraniana Golshifeteh Farahani, com uma inocência no olhar, os olhos de uma sonhadora, sempre muito ativa e outro personagem crucial é o cachorro deles, um buldogue inglês que , apesar de fofo, é muito sabido. É interessante notar que ao citar em alguns diálogos no início do filme, como o da ocorrência de sequestros de cachorros no bairro, nos faz pensar em previsões do futuro, como uma pista para o que iria ocorrer no filme, mas Jarmusch procura trazer no filme um instante qualquer da vida de Paterson, uma semana cotidiana. Não procura trazer nenhum instante privilegiado e isso não quer dizer que não existam momentos de conflito no filme, existem, mas nenhum deles é explosivo. Dessa forma, a narrativa pretende revelar a poesia cotidiana. Propondo que tudo por mais simples que seja pode se tornar poesia, dependo do encontro que você propõe sobre aquilo, no caso de toda a arte, a montagem. Assim temos poesias sobre caixas de fósforos ou sobre a chuva, mas a mais singela é a sobre o tempo.

Portanto, Paterson é uma obra poderosa que diz muito sem precisar ser complexo, seja pela sua montagem de fusões, seja pelo cotidiano repetitivo, mas principalmente pelo amor à poesia. Poesia com palavras e com imagens. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário