
Ao realizar essa história com
um tom extremamente cômico e com atuações exageradas Truffaut perde um pouco a
mão. Que por mais que tenha momentos realmente engraçados, se perdem em meio a
narrativa e só no seu fim consegue realmente afetar o espectador. Narrando a
história de um sociólogo que entrevista a jovem Camile, para escrever um estudo
sobre mulheres criminosas.
Pode-se dizer que esse é um tema muito querido por
Truffaut, mulheres criminosas, é como se um sociólogo investigasse com um olhar
cientifico a própria obra do diretor. Mas o que acontece é que ele não encontra
nada, chega a ser poético o cientista se apaixonar por seu objeto,
principalmente tendo posto sua relação com o próprio diretor. O grande problema
dessa história se encontra na sua execução que é sem sentido algum, se fosse
para nos apaixonarmos com a personagem de Camile pela sua loucura, ocorre
exatamente o contrário, apenas é possível odiá-la, com sua prolixidade, seus
trejeitos teatrais, seu poder com o inesperado é até grande, podendo nos
deixar surpreender, entretanto todas as suas conclusões são pouco interessantes
e óbvias. Não só a própria personagem de Camile é caricata demais, assim como
todos por quem se apaixonam por ela, seja o homem mimado que vive com a mãe, ou
o cantor do bar, todos eles são meras caricaturas usadas para criar um efeito
cômico no espectador e rara são às vezes que isso acontece. O enredo só se
torna realmente interessante, quando todos os relatos se convergem ao momento
presente. Pois o fato dessa narrativa ser completamente alucinada, acaba por
nos fazer duvidar de toda a história anteriormente contada, assim quando vemos
seus efeitos sobre o momento atual, sua veia de comédia começa a funcionar.
Dessa forma, as próprias falhas dos primeiros atos tornam
o terceiro ato agradável, ou no mínimo se tornam suportáveis. Já que o suspense
cresce e Truffaut se diverte ao mostrar como se sente quando dirige um filme,
no momento em que o sociólogo e sua assistente estão loucos atrás de Camile,
encontram-na por meio de um vídeo gravado por um cinegrafista mirim, que
provavelmente tem uns dez anos. Ele ainda brinca “o foco não estava muito bom
nesse momento”. Essa sua autoconsciência na sua narrativa sempre ajuda a
construir bons momentos, não é à toa que ao se aproximar cada vez mais do seu
fim, o filme ganha força, usando das cores e de situações interessantes para
concluir a história de seus personagens. Talvez o único erro do Truffaut tenha
sido se apaixonar demais por Camile e deixa-la tomar a rédea da narrativa,
tornando esse o filme mais caricato do diretor e o único que o inverossímil soa
pouco divertido, ou melhor o inverossímil aqui deixa de ser um fator propulsor
para a narrativa, algo que esteticamente traz poder ao suspense e que por vezes
torna eloquente o absurdo de suas histórias. O que havia de ser como Picasso,
que com sua inverossimilhança expressava certas sensações e significados
próprios, sempre beirando a caricatura, se perderam para uma paixão desenfreada.
Seria o filme mais fraco do Truffaut? Pode-se dizer que
sim, aquele no qual pouca coisa funciona de verdade, nem mesmo as atuações
conseguem dar qualquer poder aos personagens. Tendo uma boa melhora em seu fim
a narrativa ganha fôlego para tornar-se pelo menos divertida.
Nenhum comentário:
Postar um comentário