terça-feira, 23 de maio de 2017

1972 – Uma Jovem Tão Bela Quanto Eu (François Truffaut, França) *** (3)

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Ao realizar essa história com um tom extremamente cômico e com atuações exageradas Truffaut perde um pouco a mão. Que por mais que tenha momentos realmente engraçados, se perdem em meio a narrativa e só no seu fim consegue realmente afetar o espectador. Narrando a história de um sociólogo que entrevista a jovem Camile, para escrever um estudo sobre mulheres criminosas.
            
Pode-se dizer que esse é um tema muito querido por Truffaut, mulheres criminosas, é como se um sociólogo investigasse com um olhar cientifico a própria obra do diretor. Mas o que acontece é que ele não encontra nada, chega a ser poético o cientista se apaixonar por seu objeto, principalmente tendo posto sua relação com o próprio diretor. O grande problema dessa história se encontra na sua execução que é sem sentido algum, se fosse para nos apaixonarmos com a personagem de Camile pela sua loucura, ocorre exatamente o contrário, apenas é possível odiá-la, com sua prolixidade, seus trejeitos teatrais, seu poder com o inesperado é até grande, podendo nos deixar surpreender, entretanto todas as suas conclusões são pouco interessantes e óbvias. Não só a própria personagem de Camile é caricata demais, assim como todos por quem se apaixonam por ela, seja o homem mimado que vive com a mãe, ou o cantor do bar, todos eles são meras caricaturas usadas para criar um efeito cômico no espectador e rara são às vezes que isso acontece. O enredo só se torna realmente interessante, quando todos os relatos se convergem ao momento presente. Pois o fato dessa narrativa ser completamente alucinada, acaba por nos fazer duvidar de toda a história anteriormente contada, assim quando vemos seus efeitos sobre o momento atual, sua veia de comédia começa a funcionar.
            
Dessa forma, as próprias falhas dos primeiros atos tornam o terceiro ato agradável, ou no mínimo se tornam suportáveis. Já que o suspense cresce e Truffaut se diverte ao mostrar como se sente quando dirige um filme, no momento em que o sociólogo e sua assistente estão loucos atrás de Camile, encontram-na por meio de um vídeo gravado por um cinegrafista mirim, que provavelmente tem uns dez anos. Ele ainda brinca “o foco não estava muito bom nesse momento”. Essa sua autoconsciência na sua narrativa sempre ajuda a construir bons momentos, não é à toa que ao se aproximar cada vez mais do seu fim, o filme ganha força, usando das cores e de situações interessantes para concluir a história de seus personagens. Talvez o único erro do Truffaut tenha sido se apaixonar demais por Camile e deixa-la tomar a rédea da narrativa, tornando esse o filme mais caricato do diretor e o único que o inverossímil soa pouco divertido, ou melhor o inverossímil aqui deixa de ser um fator propulsor para a narrativa, algo que esteticamente traz poder ao suspense e que por vezes torna eloquente o absurdo de suas histórias. O que havia de ser como Picasso, que com sua inverossimilhança expressava certas sensações e significados próprios, sempre beirando a caricatura, se perderam para uma paixão desenfreada.

            
Seria o filme mais fraco do Truffaut? Pode-se dizer que sim, aquele no qual pouca coisa funciona de verdade, nem mesmo as atuações conseguem dar qualquer poder aos personagens. Tendo uma boa melhora em seu fim a narrativa ganha fôlego para tornar-se pelo menos divertida. 

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