sexta-feira, 9 de março de 2018

1956 – Estranhas Coisas de Paris (Jean Renoir, França) **** (4.0)


 photo still_1_3_790x398_zpsfi1q2zuy.jpg

Com este filme Renoir finaliza sua trilogia do espetáculo, seu penúltimo filme para o cinema. Com a presença forte de Ingrid Bergman, o longa consegue ser um dos mais engraçados dos três e o com uma energia bem poderosa em suas proposyas. Por mais que pareça se repetir um pouco. Narrando a história de Elena, viúva do príncipe polonês, que acaba se juntando com um grande homem de negócios Michaud, porém acaba por se tornar a mulher mais cobiçada pelo general francês Rollan.
            
Como é possível notar, como nas duas entradas anteriores, é estabelecido um quadrado amoroso, porém mais fortemente ligado aqui a dois personagens. Esta estrutura relacional é feita a partir do charme de Elena, com uma interpretação extremamente simpática de Ingrid Bergman, que conduz três homens a se prenderem a ela. Michaud, seu “marido”, é aquele jogado de escanteio, apenas se torna aceitável que ele tenha essa posição para que ela continue com suas regalias de princesa. O Conde Henri, interpretado com leveza por Mel Ferrer, é aquele que se apaixona por ela pela sua vivacidade, sua inteligência, muito pelo que ela de fato é. Por fim, o General Rollan, interpretado com um carisma intenso de Jean Marais, que enxerga ela como sua musa, a mulher que se destaca na multidão.
            
Mais do que nunca, o diretor utiliza das multidões, do movimento do povo para construir as relações dos personagens. Pois é assim que Elena conhece Henri, quando uma multidão imensa está nas ruas para a chegada do General. Diga-se de passagem, como a montagem e composição de cena são fantásticas, fazendo Elena ser jogada de um lado para outro no meio de tantos rostos e diversos pequenos acontecimentos em todo o enquadramento. Foi o máximo de saturação possível que Renoir já alcançou. Nesta ambientação maravilhosa, as cores do tecnicolor parecem ainda mais fortes, trazendo uma plasticidade maior (talvez pela quantidade de sequências em ambientes externos), ao mesmo tempo que alcançando ainda mais uma estética impressionista. Nas ruas de Paris, o povo dança, os encantos que Auguste-Pierre Renoir já havia enxergado em seus quadros, são homenageados por seu filho aqui, porém ainda mais, Renoir transforma de forma poderosa o plástico em cinematográfico por seus efeitos estéticos.
            
Quando digo que ele parece se repetir, não é neste aspecto que já era a própria premissa da trilogia, o plástico e o impressionismo. Porém, em dado momento a comédia do longa se faz muito próxima à As Regras do Jogo. Personagens querendo beijar outros às escondidas, confissões inesperadas, tudo isso usado com uma habilidade gigantesca do fora de campo, da profundidade de campo e da montagem. Apesar de repetitivo, é difícil de ver alguém fazer algo assim tão bem quanto Renoir, é cativante de se ver repetir. A comédia é muito mais significante em seus diálogos simples, como aquele em que Henri comenta sobre suas ambições de não fazer nada, viver da pura preguiça, no idílio eterno, algo que o afasta levemente dos olhos de Elena, uma mulher com muito mais vontade de vida que qualquer um dos outros personagens. Talvez por isso seja tão encantadora.
            
Adentrando na questão de qual seria o espetáculo presente aqui é possível pensar em dois, primeiro o povo, a forma que Renoir apresenta o movimento dessa massa é digno da sequência final de Cancan Francês. Mas também poderia ser a política, o jogo que se instala pela eleição de Rollan, para dar força à guerra francesa. Mas o povo e a política no fim das contas são um só. Quando a sequência final que culmina num beijo e o povo mimetiza o que se encontra naquelas silhuetas é possível perceber uma força que desde sempre o diretor francês tentou trabalhar nos seus longas: o amor. O que move todo e qualquer espetáculo é o amor que se tem pelo ato de fazê-lo. Não é à toa que esse grandioso cineasta acredita que a arte é simplesmente o fazer.
            
Esse filme, encerra com uma beleza essa grande trilogia, completamente diferente do que ele estava habituado a fazer. Renoir deve entrar num hall específico dos grandes diretores franceses, com um conjunto da obra tão eloquente quanto Bresson. As Estranhas Coisas de Paris carrega muito bem a força impressionista desse diretor.

Nenhum comentário:

Postar um comentário