quarta-feira, 28 de março de 2018

2017 – Bom Comportamento (Benny and Joshua Safdie, EUA) **** (4.0)


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O mais recente filme dos jovens diretores independentes Benny e Joshua Safdie é uma alucinante e frenética jornada pela noite de Nova York. Carregando na veia um germe de Nova Hollywood, um grande feito do cinema independente americano, ressuscitar essa energia estrondosa das ruas e dos excluídos sociais nos Estados Unidos. Constantine planeja um roubo com seu irmão, Nick, que tem uma deficiência cognitiva. A ideia é usar o dinheiro para poder viver bem contra as adversidades, porém, tudo acaba dando errado.
            
Estes dois personagens tem uma presença impressionante. Constatine é interpretado por Robert Pattison, em sua melhor atuação da carreira, um olhar sempre alucinado, imerso no fluxo da correria de sua vida e com uma intensidade tão vívida em seu rosto que impressiona. Ele tem um sentimento muito forte por seu irmão, assumindo a figura paterna dele e lutando contra qualquer mecanismo de controle, porém, por vezes, ele parece perdido na sua própria teia de funções na vida. Se Pattison praticamente desaparece no personagem, Benny Safde está irreconhecível, tornando-se por completo esse personagem com uma deficiência cognitiva, até a sua pronuncia é modificada para produzir um quase balbucio na fala. Além é claro das próprias expressões corporais, inesperadas e espontâneas, assim como as micro expressões faciais, na qual, seu olhar fixo e por vezes vago conseguem produzir um sentimento de tristeza muito grande. A dupla enlaça o espectador com facilidade por conta dessa intensidade natural que traz um realismo absurdo aos personagens.
            
A montagem do longa é extremamente veloz, utilizando dos cortes até em quantidade de vezes grande, dando uma certa energia eletrizante à narrativa, na qual o espectador aos poucos perde o fôlego. Assim como usa o zoom de maneira inusitada, produzindo um incômodo close-up de Constatine, em seu rosto que parece pulsar algo o tempo todo. É como se focassem em algo sempre em erupção. Aliás, a mobilidade da câmera é um dos grandes recursos usados, produzindo um certo realismo que beira o documentário, até mesmo o movimento de câmera conota isso. O ritmo do filme é todo baseado na junção desses elementos, como eles se agenciam e se conectam é que se produz o acontecimento do frenesi. Para ajudar a construir essa agonia do vertiginoso, os diretores ainda optaram por uma escolha de certas cores que destoam do cinza ubrano, além do neon lisérgico da noite nova-iorquina.
            
É nesse momento noturno que o filma parece se conectar com uma herança extremamente forte de Depois de Horas, de Scorsese. A solidão das noites nas grandes cidades, os personagens alienados e que sofrem muito, pois nada dá certo para eles (por sinal, até a capa do filme parece fazer certa referência ao filme). É exatamente isso que acontece com os dois personagens, chega a ser criativo a forma com que eles continuam a se dar mal durante o filme. A partir das voltas que eles são obrigados a fazer em seus objetivos, os personagens acabam passando por encontros interessantíssimos e absurdos, que só poderiam se conjecturar em mais descompassos.
            
Seja a garota entediada em casa, o porteiro do Parque de Diversos ou o drogado, todos eles são rastros de certa exclusão social, na qual esses personagens parecem deslizar. Constantine está sempre deslizando como um sabonete ensopado, escorra para lá e para cá, corre aqui e corre ali. Se ele é um herói por fazer de tudo por seu irmão, de ter entrado no mundo do crime para dispensar as instituições que o infantilizam, ou para que ninguém ficasse o julgando, mas, com certeza não é um herói qualquer. Sua figura é a de um personagem que quanto mais tenta se achar, mais se perde, entrando numa espiral interminável. Não existe momento de redenção, não existe momento de auto-descoberta, de realização ou ainda intervenção divina. Ele não pode assumir esse papel, pois até aí ele irá deslizar.
            
Cabe ressaltar como o uso da câmera de mão é importante, não só pela mobilidade que é exigida pela sensorialidade do filme, mas, principalmente pelo aspecto noturno e urbano que se propõe. As únicas sequências que parecem não ter sido gravadas assim foram algumas que notoriamente foram rodadas com drones. Mais precisamente a sequência final, que acaba perdendo seu impacto pelo distanciamento que os diretores impõem, causando uma sensação de impossibilidade de ação maior ainda para o espectador. Mas esta é uma sensação que já é sugerida pela velocidade interna de todo o filme e do próprio confinamento do olhar no rosto de Constantine. Mas nem de longe, isso tira a força da experiência. Recheando toda a ação desenrolada, em seu aspecto mais psicodélico se encontra a trilha sonora deslumbrante de Oneohtrix Point Never. Com seu aspecto sintético, por vezes incomodo e insistente, acrescentavam à especificidade da ambientação e atmosfera.
            
Portanto, Bom Comportamento é um filme que parece fazer parte de uma boa tradição do cinema americano. O que atesta certa continuação de algumas temáticas e suas atualizações num novo contexto sociocultural, além de utilizar das novas tecnologias como mecanismos de produção dos efeitos de suspensão de possibilidade de agir e da avalanche de desencontros. Além, é claro, de duas atuações estrondosas de Robert Pattinson e Benny Sadfe.

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