
Este
é o terceiro longa de Farhadi e aquele que provavelmente sua estética mais se
cristalizou, ou seja, se apresentou de forma contundente e ele se desenvolveu
melhor a partir dela. Narrando a história de uma jovem empregada de um casal
que está à beira de um colapso.
Bem, Rouhi é noiva e foi trabalhar
para limpar a casa deste casal a partir de um contrato com uma empresa. Existe
uma forte incongruência entre a protagonista e Samiei, esposa de seu chefe. A
primeiro plano do longa mostra como a jovem se encontra apaixonada por seu
noivo e praticamente demonstra o momento idílico que os dois vivem, sem saber
das diversas questões políticas e emocionais que acontecem neste tipo de
convenção social. As tensões se estabelecem por conta de uma viagem que o casal
almeja fazer para Dubai, porém a casa sempre parece estar um caos, além da
própria desconfiança da esposa em relação a seu marido. Portanto, assumindo
como o ponto de visão principal o da ingenuidade da jovem, que acaba por ter
que fazer diversas peripécias para descobrir se existe algo acontecendo de
verdade com o casal.
A forma que Farhadi enquadra seus
personagens em planos fechados que parecem os aprisionar é bem doloroso. A cor
azul surge no filme como motivo da melancolia que se mistura com a impossível
comunicação dos personagens. Por vezes, para nos privar de algum conteúdo, ou
para tornar uma sequência mais misteriosa e tensa, ele distancia a visão ou a
corta de seu enquadramento. Por exemplo, a poderosa sequência na qual Morteza,
o marido, desce o elevador do seu trabalho e quando sai às ruas, vê sua mulher
descendo de um carro, o plano permanece no elevador, completamente
transparente, enquanto a intensa e forte sequência se desenrola. Nem é possível
escutar os sons dos acontecimentos.
O chador, fato cultural, aqui assume
uma simbologia ainda mais interessante à narrativa, para além da normalmente
expressa submissão feminina (como em Sob à Sombra), mas como um fator que
atrapalha a situações, ele é a incongruência do conservadorismo. A forma que
ele se apossa da personagem de Samiei, é um manto preto que se segura no corpo
dela, no corpo por completo. Assim como os móveis da casa deles se encontra
envoltos num plástico, como se estivessem impossibilitados de ser novos, de
tornassem móveis novos. Assim, por meio de seu ambiente, quase restrito de casa
dos dois, o diretor constrói diversos índices da dificuldade dessa relação
continuar, não só por motivos emocionais, mas pela própria forma política de se
pensar um casamento.
Com a montagem existe uma sensação
de urgência. Bem, todo o filme se passa na Quarta, durante o ano novo persa. Assim,
a cidade se encontra em certo caos, tudo parece se encontrar enervado. Farhadi
usa muito bem deste motivo para compor de forma bela os fogos artifícios, como
som fora de quadro e que se transforma, depois de um tempo, todo o seu ambiente
num cenário de pós-guerra simbolizado por índices da fumaça e do barulho de
explosões. Assim, é como se os personagens no fim caminhassem por este ambiente
destruído, depois de tão elucubrado.
Portanto, Farhadi consegue contar
uma bela história, trazendo a perspectiva de uma jovem acerca do casamento no
seu país. Algo que iria evoluir tremendamente em A Separação e O Apartamento.
Seu aprofundamento sobre os conflitos e impasses éticos das convenções sociais
e da cultura são importantes ato políticos, além de serem magistralmente
narrados como um poder cênico importantíssimo para o cinema.
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