quinta-feira, 8 de março de 2018

2006 – Fogos de Artifício, Quarta (Asghar Farhadi, Irã) **** (4.0)


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Este é o terceiro longa de Farhadi e aquele que provavelmente sua estética mais se cristalizou, ou seja, se apresentou de forma contundente e ele se desenvolveu melhor a partir dela. Narrando a história de uma jovem empregada de um casal que está à beira de um colapso.
            
Bem, Rouhi é noiva e foi trabalhar para limpar a casa deste casal a partir de um contrato com uma empresa. Existe uma forte incongruência entre a protagonista e Samiei, esposa de seu chefe. A primeiro plano do longa mostra como a jovem se encontra apaixonada por seu noivo e praticamente demonstra o momento idílico que os dois vivem, sem saber das diversas questões políticas e emocionais que acontecem neste tipo de convenção social. As tensões se estabelecem por conta de uma viagem que o casal almeja fazer para Dubai, porém a casa sempre parece estar um caos, além da própria desconfiança da esposa em relação a seu marido. Portanto, assumindo como o ponto de visão principal o da ingenuidade da jovem, que acaba por ter que fazer diversas peripécias para descobrir se existe algo acontecendo de verdade com o casal.
            
A forma que Farhadi enquadra seus personagens em planos fechados que parecem os aprisionar é bem doloroso. A cor azul surge no filme como motivo da melancolia que se mistura com a impossível comunicação dos personagens. Por vezes, para nos privar de algum conteúdo, ou para tornar uma sequência mais misteriosa e tensa, ele distancia a visão ou a corta de seu enquadramento. Por exemplo, a poderosa sequência na qual Morteza, o marido, desce o elevador do seu trabalho e quando sai às ruas, vê sua mulher descendo de um carro, o plano permanece no elevador, completamente transparente, enquanto a intensa e forte sequência se desenrola. Nem é possível escutar os sons dos acontecimentos.
            
O chador, fato cultural, aqui assume uma simbologia ainda mais interessante à narrativa, para além da normalmente expressa submissão feminina (como em Sob à Sombra), mas como um fator que atrapalha a situações, ele é a incongruência do conservadorismo. A forma que ele se apossa da personagem de Samiei, é um manto preto que se segura no corpo dela, no corpo por completo. Assim como os móveis da casa deles se encontra envoltos num plástico, como se estivessem impossibilitados de ser novos, de tornassem móveis novos. Assim, por meio de seu ambiente, quase restrito de casa dos dois, o diretor constrói diversos índices da dificuldade dessa relação continuar, não só por motivos emocionais, mas pela própria forma política de se pensar um casamento.
            
Com a montagem existe uma sensação de urgência. Bem, todo o filme se passa na Quarta, durante o ano novo persa. Assim, a cidade se encontra em certo caos, tudo parece se encontrar enervado. Farhadi usa muito bem deste motivo para compor de forma bela os fogos artifícios, como som fora de quadro e que se transforma, depois de um tempo, todo o seu ambiente num cenário de pós-guerra simbolizado por índices da fumaça e do barulho de explosões. Assim, é como se os personagens no fim caminhassem por este ambiente destruído, depois de tão elucubrado.
            
Portanto, Farhadi consegue contar uma bela história, trazendo a perspectiva de uma jovem acerca do casamento no seu país. Algo que iria evoluir tremendamente em A Separação e O Apartamento. Seu aprofundamento sobre os conflitos e impasses éticos das convenções sociais e da cultura são importantes ato políticos, além de serem magistralmente narrados como um poder cênico importantíssimo para o cinema.

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