segunda-feira, 12 de março de 2018

1959 – Almoço Sobre a Relva (Jean Renoir, França) ****1/2 (4.5)


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Esse filme é como um grande remake de Uma Dia No Campo, mas dizer isso talvez seja diminui-lo, podemos chamá-lo com mais consistência de uma sequência espiritual daquele grandioso filme de Renoir. Não diferente, este aqui é um poderosíssimo filme sobre o homem e a natureza. Mas talvez adentrando ainda mais em outras conexões como a ciência, a religião, o misticismo. Narrando a história de Etienne Alexis, um grande cientista que está almejando a inseminação artificial como o futuro do mundo, e sobre Nenette, uma jovem do campo que deseja engravidar, mas nenhum homem a apetece.
            
O título da obra chama atenção já que é uma referência direta a um quadro de Manet. Impressionista ao extremo, Renoir com as cores conseguiu atingir o máximo possível desse estilo no cinema, é de um tom aprazível que todo o ambiente e personagens se compõem num movimento puro e natural.  Portanto, apesar de não ser plástico como sua “Trilogia do Espetáculo”, contém a mesma sabedora em se fazer na vivacidade das cores da floresta, além de usar muito bem de toda essa áurea idílica do ambiente. Alexis vai à floresta comemorar o seu casamento com uma prima alemã, todos os seus acompanhantes são homens caricatos, muitos que se vem perdidos neste ambiente. Enquanto isso, Nenette tenta se tornar uma de suas empregadas para que ele faça a inseminação com ela. Para criar um paralelo divertido, Renoir, mostra alguns trabalhadores das fábricas se divertindo em outro canto da floresta, no pouco momento que podem descansar. Enquanto uns tem medo da natureza e tentam domá-la, os outros apenas se divertem.
            
Mas o filme ganha seu poder com um fato místico. Existia uma lenda sobre um templo próximo da floresta que fazia os homens se apaixonarem loucamente pelas mulheres. Eis que surge um andarilho, que já havia aparecido próximo à casa de Nenette, acompanhado de sua cabra e impõe de forma mágica um vendaval gigantesco. De forma encantadora toda as cadeiras, pratos e panos dos aristocratas e intelectuais científicos voam, eles se seguram em seus carros, uns nos outros, em suas roupas, alguns se perdem no gramado. Esse movimento forte e brutal da Natureza em Renoir lembra a força com que os rios passeiam sempre como um afeto movente da vida. A própria relva em movimento carrega esse aspecto cinético do elã. Assim, essa peripécia natural afasta Alexis de sua esposa e o joga para o outro canto da floresta com Nenette. Os dois passeiam e se conhecem, além de se encontrarem com os operários.
            
Aí sim, o filme ganha seu idílio maior, pois Alexis conhece um relaxar que não conhecia, um deixar-se levar que não havia feito. O momento que Nenette se banha no lago é um outro toque especial, na qual o home ascético presenciar um corpo vivo, é como se estivesse observando a vida e não mais as estáticas de seus métodos científicos. Além, da sequência belíssima na qual dirige uma moto é espetacular, carrega uma força de vida, de história, de caminhar de um personagem. Existe algo de apaixonante de um personagem para o outro, enquanto Alexis mostra a força da eloquência de sua fala, da poesia da linguagem, Nenette expressa a beleza natural daquilo que não se significa facilmente com palavras.
            
A conjunção dos elementos de Renoir foi poderosa neste filme. Veja que em seu subtexto constrói um embate ao cientificismo da vida. Para aqueles que desejam uma vida idealizada do não contato físico, ele faz os corpos se baterem com o vendaval, para que o toque, os gestos descontrolados façam eles lembrarem do que é estar vivo. Existe um possível protótipo das discussões intelectuais da época na França, a busca ética por conhecimento contra a dominação da natureza por destino manifesto do ser humano. O posicionamento de Alexis não só o coloca nessa posição de homem da ciência, mas também na de certo elitismo, na qual, o diretor francês enfrenta em toda a sua filmografia.
            
Talvez seja exagero dizer que existe um germe de Maio de 68 aqui, pois os operários estão interessados no futuro da população, além de discordarem do que desejam para a sociedade. Dessa discordância, nasce um incômodo comum, que movimenta todos a uma mudança. O caos da natureza e a ordem obsessiva da ciência.
            
Assim sendo, este um dos últimos trabalhos do diretor para o cinema antes de sua morte em 1979. Ele foi um dos grandes diretores que passou por diversas eras do cinema, seja o cinema mudo, o impressionismo francês, o realismo poético, influenciou diretamente o Neorrealismo italiano, o cinema paralelo na Índia e até mesmo a Nouvelle Vague. Almoço Sobre a Relva é um filme espetacular do diretor, por mais que até certo ponto muito próximo de temáticas que já trabalhou.

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