
Esse
filme é como um grande remake de Uma Dia No Campo, mas dizer isso talvez seja
diminui-lo, podemos chamá-lo com mais consistência de uma sequência espiritual
daquele grandioso filme de Renoir. Não diferente, este aqui é um poderosíssimo
filme sobre o homem e a natureza. Mas talvez adentrando ainda mais em outras
conexões como a ciência, a religião, o misticismo. Narrando a história de
Etienne Alexis, um grande cientista que está almejando a inseminação artificial
como o futuro do mundo, e sobre Nenette, uma jovem do campo que deseja
engravidar, mas nenhum homem a apetece.
O título da obra chama atenção já
que é uma referência direta a um quadro de Manet. Impressionista ao extremo,
Renoir com as cores conseguiu atingir o máximo possível desse estilo no cinema,
é de um tom aprazível que todo o ambiente e personagens se compõem num
movimento puro e natural. Portanto,
apesar de não ser plástico como sua “Trilogia do Espetáculo”, contém a mesma
sabedora em se fazer na vivacidade das cores da floresta, além de usar muito
bem de toda essa áurea idílica do ambiente. Alexis vai à floresta comemorar o
seu casamento com uma prima alemã, todos os seus acompanhantes são homens
caricatos, muitos que se vem perdidos neste ambiente. Enquanto isso, Nenette
tenta se tornar uma de suas empregadas para que ele faça a inseminação com ela.
Para criar um paralelo divertido, Renoir, mostra alguns trabalhadores das
fábricas se divertindo em outro canto da floresta, no pouco momento que podem
descansar. Enquanto uns tem medo da natureza e tentam domá-la, os outros apenas
se divertem.
Mas o filme ganha seu poder com um
fato místico. Existia uma lenda sobre um templo próximo da floresta que fazia
os homens se apaixonarem loucamente pelas mulheres. Eis que surge um andarilho,
que já havia aparecido próximo à casa de Nenette, acompanhado de sua cabra e
impõe de forma mágica um vendaval gigantesco. De forma encantadora toda as
cadeiras, pratos e panos dos aristocratas e intelectuais científicos voam, eles
se seguram em seus carros, uns nos outros, em suas roupas, alguns se perdem no
gramado. Esse movimento forte e brutal da Natureza em Renoir lembra a força com
que os rios passeiam sempre como um afeto movente da vida. A própria relva em
movimento carrega esse aspecto cinético do elã. Assim, essa peripécia natural
afasta Alexis de sua esposa e o joga para o outro canto da floresta com
Nenette. Os dois passeiam e se conhecem, além de se encontrarem com os
operários.
Aí sim, o filme ganha seu idílio
maior, pois Alexis conhece um relaxar que não conhecia, um deixar-se levar que
não havia feito. O momento que Nenette se banha no lago é um outro toque
especial, na qual o home ascético presenciar um corpo vivo, é como se estivesse
observando a vida e não mais as estáticas de seus métodos científicos. Além, da
sequência belíssima na qual dirige uma moto é espetacular, carrega uma força de
vida, de história, de caminhar de um personagem. Existe algo de apaixonante de
um personagem para o outro, enquanto Alexis mostra a força da eloquência de sua
fala, da poesia da linguagem, Nenette expressa a beleza natural daquilo que não
se significa facilmente com palavras.
A conjunção dos elementos de Renoir
foi poderosa neste filme. Veja que em seu subtexto constrói um embate ao
cientificismo da vida. Para aqueles que desejam uma vida idealizada do não
contato físico, ele faz os corpos se baterem com o vendaval, para que o toque,
os gestos descontrolados façam eles lembrarem do que é estar vivo. Existe um
possível protótipo das discussões intelectuais da época na França, a busca
ética por conhecimento contra a dominação da natureza por destino manifesto do
ser humano. O posicionamento de Alexis não só o coloca nessa posição de homem
da ciência, mas também na de certo elitismo, na qual, o diretor francês
enfrenta em toda a sua filmografia.
Talvez seja exagero dizer que existe
um germe de Maio de 68 aqui, pois os operários estão interessados no futuro da
população, além de discordarem do que desejam para a sociedade. Dessa
discordância, nasce um incômodo comum, que movimenta todos a uma mudança. O
caos da natureza e a ordem obsessiva da ciência.
Assim sendo, este um dos últimos
trabalhos do diretor para o cinema antes de sua morte em 1979. Ele foi um dos
grandes diretores que passou por diversas eras do cinema, seja o cinema mudo, o
impressionismo francês, o realismo poético, influenciou diretamente o
Neorrealismo italiano, o cinema paralelo na Índia e até mesmo a Nouvelle Vague.
Almoço Sobre a Relva é um filme espetacular do diretor, por mais que até certo
ponto muito próximo de temáticas que já trabalhou.
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