
Aparentemente ligado ao J-Horror, este filme é uma melancólica e perturbadora entrada na mente de uma pessoa que teve sua vida completamente virada do avesso. Por meio de metáforas e de certo meio plásticos expressionistas para demonstrar uma mente ruindo, uma memória confusa e um terror sem igual. Assim, avançando no tempo na vida de Mitsuko, uma criança que foi abusada pelo próprio pai.
A sequência inicial do longa
apresenta Mitsuko num circo bizarro, que faz parte de um Parque de Diversão, é como
se estivéssemos de volta à Satyricon de Fellini, num mar imagético de figuras
absurdas. A atração principal deste lugar é uma guilhotina, na qual a
protagonista do enredo se propõe a participar da brincadeira. Este uso do
parque de diversão como instância psíquica da personagem é sábio, sendo ela uma
criança é muito de se pensar como sua mente pode se esquematizar desta forma,
vejam por exemplo como Divertidamente, filme da Pixar, esquematiza
conceitualmente da mesma forma a mente de sua personagem. Assim, quando Mitsuko
sente dores ou agonias, escuta-se a roda gigante ruir, a montagem demonstra
essa correlação. Com isso, estabelece uma linguagem ao filme praticamente
mnemônica de sua protagonista, assim como simbólica e expressionista. Digo da
memória, pois voice-overs conduzem certas reflexões e analogias que se tornam
máximas de sua vida, além do horror surreal se construir como forma de símbolo.
Portanto, Sion Sono leva o incômodo
ao máximo quando o pai obriga a filha a entrar no case de um violoncelo, que
contém um buraco, para assistir ele e sua mulher fazerem sexo. A partir daí tudo
piora, com sutis indícios e por vezes demonstrando fragmentados de
acontecimentos, o diretor consegue incomodar ao máximo o espectador em sua
experiência. Os momentos que mais são incômodos e realizados de forma genial é
quando Mitsuko está na escola e diversas metáforas visuais são construídas,
como a gigantesca TV em que o seu pai, que também é diretor de sua escola é
apresentado, as paredes ensanguentadas, o comportamento tanto das professoras
quanto de seus colegas. Esse turbilhão de terror é a primeira parte do longa,
na qual observarmos Mitsuko em sua infância.
De forma poética, a todo momento a
protagonista comenta como ela e sua mãe compartilham de uma mesma história,
como se tornando ela. Como se tivesse tomado o lugar dela. Na segunda parte do
longa, – é possível dividi-lo em duas partes bem notórias, a infância e a idade
adulta de Mitsuko – a atriz que fazia sua mãe, agora, interpreta Mitsuko. Que
se tornou uma escritora poderosa de história terríveis. Genialmente, Sono apresenta
de forma expressionista diversos pontuações sobre como a personagem levou isso
para sua vida, como isso se tornou todo o centro de sua existência.
Sono consegue explorar um movimento
intenso de despersonalização de sua protagonista até se tornar sua mãe, a
partir de alguns flashbacks é possível compreender melhor a transformação dela.
O ritmo desta segunda parte é muito mais ameno, sem a todo momento ser
indulgente. Construindo um tom cada vez mais trágico com a música clássica que
persiste durante todo o filme e o acordeão macabro do Parque de Diversões. Seu
trabalho com a memória, consciência e identidade de suas personagens é
realizado de maneira muito interessante aqui, entrelaçando estes três conceitos
e demonstrando como a narrativa se guiando subjetivamente por uma personagem
pode conter diversos enganos, afinal, no fundo, nunca se deve confiar
completamente em seu narrador.
Mais uma vez Sono constrói um filme
com uma plasticidade imensa, uma forma de expressionismo que usa das cores e
dos meios do J-Horror, para apresentar símbolos mnêmicos da vivencia conturbada
de sua protagonista Mitsuko. Esse nome que se repete em seus longas, a
personagem que deve lutar para fugir de certos simulacros, uma figura de
resistência. Este é um dos seus mais consistentes trabalhos, mais fortes e
coesos, por mais que de certa forma indulgente.
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