quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

1954 – Cancã Francês (Jean Renoir, França) ****1/2 (4.5)


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A segunda entrada na trilogia do espetáculo tem como principal foco o Cancan, que se perdeu com o tempo, mas contém a energia do diretor francês em sua veia. Com um tecnicolor vibrante e certa teatralidade, a forma e o enredo se entrelaçam com todo idílio que o Renoir sempre almejou. Narrando a história de Nini e sua entrada no grupo de Cancan de Henri, que busca restaurar o Café Le Paravent Chinois.
            
Já em sua primeira sequência, esboça toda a trama do longa com uma eloquência de movimento de câmera e montagem que dão vida ao aspecto de estúdio que essa trilogia contém. Uma plasticidade que é até bem recebida, com suas cores aprazíveis. O ambiente carrega o resíduo de palco para que o espetáculo se faça presente. Evocando, como ressalta Bazin, o impressionismo, até mais de Degas que de Pierre Renoir. Toda a composição realizada em diversas sequências é como um quadro impressionista em movimento, uma pintura que se abre ao espectador. Todo o recurso cinematográfico é bem utilizado, seja a profundidade de campo ou os personagens que entram e saem persistentemente dos enquadramentos. Em todo esse agenciamento de expressões artísticas ainda há espaço para uma pequena mais sempre poderosa participação de Piaf, em um dos números musicais do estabelecimento de Henri.
            
No que concerne ao seu enredo, o que se vê é mais um quadrado amoroso, em que Nini, uma jovem camponesa, por conta de suas habilidades impressionantes entra num jogo amoroso com Henri, interpretado de forma magistral por Jean Gabin (este sendo seu último trabalho com o diretor), que é o homem que a contrata e, a primeiro momento, espanta qualquer possibilidade de fazer surgir um relacionamento deles. O Príncipe Alexandre, que se encanta pela ferocidade serena dela, ele aparece sempre com corpo e olhar frágil, um homem romântico e por fim, Paolo, o único que já conhecia a Nini desde antes, um camponês qualquer que é completamente apaixonado por ela. Diferente de a Carruagem de Ouro, na qual com divina expressividade Camila, protagonista do longa, deslizava sobre os seus pretendentes, sem nunca se deixa cair, Nini, por outro lado, deixa-se levar, talvez por ser muito jovem, esnobando quase sem querer alguns de seus pretendentes por um que tem mais poder, ou melhor potência de ação.  
            
Todo esse entrelaçamento de personagens se faz de uma forma cômica e bem dramatizada. Os anseios e vislumbres da jovem camponesa são realizados de maneira contundente por sua intérprete Françoise Arnoul. Tomando uma postura mais severa quando contracenando com Lola, interpretada por Maria Feliz, a mulher de Henri. Em conjunção a isto, o burlesco das movimentações de seus personagens, com seus olhares e expressões corporais é feito de maneira precisa. Renoir, neste longa específico, tem um apreço ao poder da saturação do plano, pois com certa frequência explode os limites do quadro com a quantidade de personagens em cena. E não só com a os limites do quadro que consegue realizar tal feito, mas também com a montagem da última sequência, a da realização da dança.
            
Esse último momento é o verdadeiro ato artístico do espetáculo, com sua montagem ágil, a vivacidade com que captura as dançarinas, como alterna de forma ritmada entre close-ups, planos médios, planos gerais, até mostrando a reação do público, criado assim um esquema visual do próprio fenômeno espetáculo. O Cancan está vivo eternamente dentro do longa de Renoir que transborda um teor artístico impressionante, passeando pelo teatro e pela pintura, mesclando suas formas, seus limites com o cinema, extraindo assim um poder cinematográfico impressionante. Não há ninguém como Renoir no cinema, indo do mais cotidiano dos realismos ao próprio cinema-espetáculo, sempre mudando e ao mesmo tempo demonstrando em suas escolhas estéticas seu gesto.
            
Por fim, devo dizer que este longa é tão bom quanto o seu antecessor, talvez até melhor, por mais que não tenha o peso do poder de Anna Magnnani, ou as críticas belíssimas à aristocracia. Mas as paixões singelas de sua protagonista, em conjunto ao esforço de dar vida a esquecido movimento que explodia na França são com certeza algo notável. Aqui o espetáculo transborda, a vida transborda, o cinema transborda.

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