
A segunda entrada na trilogia
do espetáculo tem como principal foco o Cancan, que se perdeu com o tempo, mas
contém a energia do diretor francês em sua veia. Com um tecnicolor vibrante e
certa teatralidade, a forma e o enredo se entrelaçam com todo idílio que o
Renoir sempre almejou. Narrando a história de Nini e sua entrada no grupo de
Cancan de Henri, que busca restaurar o Café Le Paravent Chinois.
Já em sua primeira sequência, esboça toda a trama do
longa com uma eloquência de movimento de câmera e montagem que dão vida ao aspecto
de estúdio que essa trilogia contém. Uma plasticidade que é até bem recebida,
com suas cores aprazíveis. O ambiente carrega o resíduo de palco para que o
espetáculo se faça presente. Evocando, como ressalta Bazin, o impressionismo,
até mais de Degas que de Pierre Renoir. Toda a composição realizada em diversas
sequências é como um quadro impressionista em movimento, uma pintura que se
abre ao espectador. Todo o recurso cinematográfico é bem utilizado, seja a
profundidade de campo ou os personagens que entram e saem persistentemente dos
enquadramentos. Em todo esse agenciamento de expressões artísticas ainda há
espaço para uma pequena mais sempre poderosa participação de Piaf, em um dos
números musicais do estabelecimento de Henri.
No que concerne ao seu enredo, o que se vê é mais um
quadrado amoroso, em que Nini, uma jovem camponesa, por conta de suas
habilidades impressionantes entra num jogo amoroso com Henri, interpretado de
forma magistral por Jean Gabin (este sendo seu último trabalho com o diretor),
que é o homem que a contrata e, a primeiro momento, espanta qualquer
possibilidade de fazer surgir um relacionamento deles. O Príncipe Alexandre,
que se encanta pela ferocidade serena dela, ele aparece sempre com corpo e
olhar frágil, um homem romântico e por fim, Paolo, o único que já conhecia a
Nini desde antes, um camponês qualquer que é completamente apaixonado por ela. Diferente
de a Carruagem de Ouro, na qual com divina expressividade Camila, protagonista
do longa, deslizava sobre os seus pretendentes, sem nunca se deixa cair, Nini,
por outro lado, deixa-se levar, talvez por ser muito jovem, esnobando quase sem
querer alguns de seus pretendentes por um que tem mais poder, ou melhor
potência de ação.
Todo esse entrelaçamento de personagens se faz de uma
forma cômica e bem dramatizada. Os anseios e vislumbres da jovem camponesa são
realizados de maneira contundente por sua intérprete Françoise Arnoul. Tomando
uma postura mais severa quando contracenando com Lola, interpretada por Maria
Feliz, a mulher de Henri. Em conjunção a isto, o burlesco das movimentações de
seus personagens, com seus olhares e expressões corporais é feito de maneira
precisa. Renoir, neste longa específico, tem um apreço ao poder da saturação do
plano, pois com certa frequência explode os limites do quadro com a quantidade
de personagens em cena. E não só com a os limites do quadro que consegue
realizar tal feito, mas também com a montagem da última sequência, a da
realização da dança.
Esse último momento é o verdadeiro ato artístico do
espetáculo, com sua montagem ágil, a vivacidade com que captura as dançarinas,
como alterna de forma ritmada entre close-ups, planos médios, planos gerais,
até mostrando a reação do público, criado assim um esquema visual do próprio
fenômeno espetáculo. O Cancan está vivo eternamente dentro do longa de Renoir
que transborda um teor artístico impressionante, passeando pelo teatro e pela
pintura, mesclando suas formas, seus limites com o cinema, extraindo assim um
poder cinematográfico impressionante. Não há ninguém como Renoir no cinema,
indo do mais cotidiano dos realismos ao próprio cinema-espetáculo, sempre
mudando e ao mesmo tempo demonstrando em suas escolhas estéticas seu gesto.
Por fim, devo dizer que este longa é tão bom quanto o seu
antecessor, talvez até melhor, por mais que não tenha o peso do poder de Anna
Magnnani, ou as críticas belíssimas à aristocracia. Mas as paixões singelas de
sua protagonista, em conjunto ao esforço de dar vida a esquecido movimento que
explodia na França são com certeza algo notável. Aqui o espetáculo transborda,
a vida transborda, o cinema transborda.
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