domingo, 25 de fevereiro de 2018

2017 – Rastros (Agnieszka Holland, Polônia) ***1/2 (3.5)


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Com uma bela construção de personagem, o novo filme de Holland tentar mesclar uma divertida comédia cotidiana com um misterioso assassinato, porém a conjunção temática não se efetua de uma maneira precisa. Narrando a vida da aposentada Janina Duszejko, que é uma ativista dos animais e viciada em astrologia, começa a se envolver aos poucos no caso de um caçador morto nas florestas.
            
Duszejko, interpretada por Agnieszka Mandat-Grabka, é uma mulher cheia de vida. Seu ativismo a tornam vibrante, ele age com extremo carinho para com os animais. A sua crença radical na astrologia parece criar uma certa perspectiva quase intuitiva da personagem, que renega fortemente a religião e ainda a ciência. Sua vivacidade por vezes encanta, mas em determinados momentos parece avulsa aos acontecimentos, suas falas, seus diálogos irritam por certa raiva passional que quase a tornam uma caricatura de uma ativista. Ela se envolve na terrível morte do caçador, não só por que o principal suspeito do caso seja um animal, mas pelo desaparecimento de seu cachorro. Assim sua reunião com diversos personagens avulsos é de certo uma conjunção também um pouco estranha e caricata.
            
A premissa de seu mistério é interessante, estariam os animais mesmo matando aqueles caçadores, quase como uma revolução dos bichos ou é apenas uma farsa maquiavélica de um serial killer. Quando mais se descobre sobre o caso, mas estranho ele se torna. Para criar uma densidade dramática ou ainda força para seu longa, alguns flashbacks são inseridos de forma pouco úteis para narrativa e de maneira que direcionam as expectativas emocionais ao óbvio. O tom do longa por mais dramático que pareça nunca consegue se elevar, acertando mais em suas caricaturas, por mais que pareçam pueris. Como, por exemplo, como todos os personagens ao redor da protagonista soam simplesmente como peças jogadas no enredo para que resolvam as situações. Existe uma cena em especifico que carrega talvez a veia do tom do filme de maneira mais precisa, o sexo na floresta realizado por sua protagonista e um grande amigo. Os dois já idosos, carregado de certo sabor doce e que demonstra com muita precisão a conexão do homem que também é um animal.
            
Nos seus aspectos técnicos, a fotografia quase onírica em demonstrar a relação do homem e a natureza é um deleite, durante quase todos os momentos no quais existe animais em cena existe certa exuberância. Além do ponto de vista ser do animal, pois ao invés de acompanharmos os caçadores, a perspectiva é a do terror do animal. Mas quando procura produzir tensão, com zooms absortos ou uma montagem veloz, parece querer buscar o mais comum recurso de todos, chegando a tornar as cenas tão genéricas que se tornam desinteressantes.
             
Por mais que existe uma suposta luta ativista no decorrer do longa, quase como um pano de fundo de crítica social, pouco realmente é explorado nesse sentido pelo filme. Além disso, pela forma irônica e estranha que seus personagens agem chega próximo ao tom de Fargo, dos irmãos Coen, porém sem nunca conseguir o mesmo aspecto cômico, ou mais genialidade em produzir desespero pela sucessão de acontecimentos absurdos.
            
Assim, a mescla do mistério com o cotidiano desta personagem não se efetua de maneira que sustente o longa, por mais que no fim do longa façam um sentido forte. O aspecto técnico do suspense é frágil, em contrapartida as possíveis metáforas realizadas pela semelhança do homem e do animal são cheias de força, para além do ativismo de sua personagem, que carrega a dor da morte dos animais assassinatos com o mesmo peso do Holocausto.        

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