segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

2009 – Um Sonho de Amor (Luca Guadagnino, Itália) **** (4.0)


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Um Sonho de Amor é um belo filme sobre se encontrar, intensificada por uma montagem poética e veloz. Numa fotografia cheia de mobilidade e com um uso de iluminação natural, criando ambiente intimistas e ao mesmo tempo realistas, por conta do design de produção que apreende todo o estilo das épocas retratadas. Narrando a história de Emma, que faz parte da burguesa e conservadora família Recchi, e sua jornada por uma forma de existir para ser quem se é.
            
Tilda Swinton interpreta Emma com uma expressividade no olhar, na respiração, nos movimentos do corpo. Ela é russa, porém casada com um italiano, quando adentrou na família Recchi, dona de fábricas têxtis em todo o país, teve que mudar de nome. Perdendo então todas as memórias significativas da sua antiga vida, vivendo-se apenas para aquela realidade. O desenrolar de sua solidão culmina quando o patriarca da família, pai de seu marido Tancredi, se aposenta, já que está próximo da morte, entregando a empresa nas mãos de tanto de seu filho, quanto de seu neto Edoardo. Assim, os dois viajam à trabalho o tempo todo, além de que os outros filhos de Emma também se mudam, com ênfase em Elisabetta. Dessa forma, a mansão gigantesca da família Recchi se torna um ambiente tremendamente solitário para a protagonista, que apresenta uma figura de uma mãe aos moldes italianos, comandando a cozinha, acostumado a alimentar uma quantidade gigante da família, com seus pratos próprios e caseiros.
            
O que impõe uma irrupção nesse esquema é o amigo de Edoardo, Antônio. Os dois planejam juntos iniciar um restaurante, num local afastado da cidade de Milão, completamente em contato com a natureza. Ele é cozinheiro e se apaixona pelos dotes culinários da mãe de seu amigo, além de se encantar pelo seu toque, pela sua timidez, assim os dois se apaixonam de uma forma tremenda. Para demonstrar essa mudança na vida de Emma, o diretor começar a impor uma velocidade na montagem, diferente dos longos planos iniciais, porém não é uma velocidade irritante, é extremamente poética. O momento que os dois fazem sexo na grama da floresta perto do local do restaurante é conduzido por uma montagem alternada que produz uma analogia entre os diversos insetos que fecundam as flores no local com o ato deles dois. Com extremos planos-detalhes dos corpos dos personagens, capturando o arrepio, os fragmentos de corpos que se misturavam.
            
Essa estética conduz o filme com poucas falas, dando a imagem a mobilidade e o ritmo necessários para existir por si mesmo. Por mais que haja conotações de que essa é uma história sobre traição, na verdade é uma história sobre descobertas. O caso dos dois é segredo, seria difícil para seu filho, além de terrível para a conservadora família Recchi que lhe roubou até o nome. Mas com Antonio ela se reencontra. Emma encontra uma nova paixão pela vida e que por mais que se diga que pode ser passageira, que não vale a pena, o longa de Guadagnino conota que é preciso viver. É preciso fugir das amarras daquilo que te mata, e este sopro poético de amor é um movimento necessário. Toda a composição estética do longa é primorosa nesse sentido de fugaz paixão, não só pelo outro, mas pela vida. 
            
O desenvolvimento de outros personagens como o da própria Elisabetta também trazem um ar de descoberta de si, até mesmo pela poética analogia do corte de cabelo dela e o da mãe. Edoardo se vê cada vez mais imerso na lógica da empresa, com sua esposa complexa que parece estar interessada muito mais no poder de ser uma matriarca de uma família como essa, do que com o amor. Assim sendo, é necessário identificar o maior objeto da imagem desta família conservadora, os únicos momentos que todos os personagens se encontram juntos, essa é a mesa de jantar. Existem dois momentos cruciais à narrativa que ocorrem nesse acontecimento ritualístico e são realizados de maneira primorosa.
            
Por fim, é possível dizer que Gudagnino tem uma paixão inegável pela Tilda Swinton, sua atuação sempre se ressalta ao lado deste diretor italiano. Além disso, seu estilo que impõe um ritmo maravilhoso à iluminação, direção e montagem é digno de nota. Assim, Um Sonho de Amor é um belo filme, sempre um amor pela vida.

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