
Um Sonho de Amor é um belo
filme sobre se encontrar, intensificada por uma montagem poética e veloz. Numa
fotografia cheia de mobilidade e com um uso de iluminação natural, criando
ambiente intimistas e ao mesmo tempo realistas, por conta do design de produção
que apreende todo o estilo das épocas retratadas. Narrando a história de Emma,
que faz parte da burguesa e conservadora família Recchi, e sua jornada por uma
forma de existir para ser quem se é.
Tilda Swinton interpreta Emma com uma expressividade no
olhar, na respiração, nos movimentos do corpo. Ela é russa, porém casada com um
italiano, quando adentrou na família Recchi, dona de fábricas têxtis em todo o
país, teve que mudar de nome. Perdendo então todas as memórias significativas
da sua antiga vida, vivendo-se apenas para aquela realidade. O desenrolar de
sua solidão culmina quando o patriarca da família, pai de seu marido Tancredi,
se aposenta, já que está próximo da morte, entregando a empresa nas mãos de tanto
de seu filho, quanto de seu neto Edoardo. Assim, os dois viajam à trabalho o
tempo todo, além de que os outros filhos de Emma também se mudam, com ênfase em
Elisabetta. Dessa forma, a mansão gigantesca da família Recchi se torna um
ambiente tremendamente solitário para a protagonista, que apresenta uma figura
de uma mãe aos moldes italianos, comandando a cozinha, acostumado a alimentar
uma quantidade gigante da família, com seus pratos próprios e caseiros.
O que impõe uma irrupção nesse esquema é o amigo de
Edoardo, Antônio. Os dois planejam juntos iniciar um restaurante, num local
afastado da cidade de Milão, completamente em contato com a natureza. Ele é
cozinheiro e se apaixona pelos dotes culinários da mãe de seu amigo, além de se
encantar pelo seu toque, pela sua timidez, assim os dois se apaixonam de uma
forma tremenda. Para demonstrar essa mudança na vida de Emma, o diretor começar
a impor uma velocidade na montagem, diferente dos longos planos iniciais, porém
não é uma velocidade irritante, é extremamente poética. O momento que os dois
fazem sexo na grama da floresta perto do local do restaurante é conduzido por
uma montagem alternada que produz uma analogia entre os diversos insetos que
fecundam as flores no local com o ato deles dois. Com extremos planos-detalhes
dos corpos dos personagens, capturando o arrepio, os fragmentos de corpos que
se misturavam.
Essa estética conduz o filme com poucas falas, dando a
imagem a mobilidade e o ritmo necessários para existir por si mesmo. Por mais
que haja conotações de que essa é uma história sobre traição, na verdade é uma
história sobre descobertas. O caso dos dois é segredo, seria difícil para seu
filho, além de terrível para a conservadora família Recchi que lhe roubou até o
nome. Mas com Antonio ela se reencontra. Emma encontra uma nova paixão pela
vida e que por mais que se diga que pode ser passageira, que não vale a pena, o
longa de Guadagnino conota que é preciso viver. É preciso fugir das amarras
daquilo que te mata, e este sopro poético de amor é um movimento necessário.
Toda a composição estética do longa é primorosa nesse sentido de fugaz paixão,
não só pelo outro, mas pela vida.
O desenvolvimento de outros personagens como o da própria
Elisabetta também trazem um ar de descoberta de si, até mesmo pela poética
analogia do corte de cabelo dela e o da mãe. Edoardo se vê cada vez mais imerso
na lógica da empresa, com sua esposa complexa que parece estar interessada
muito mais no poder de ser uma matriarca de uma família como essa, do que com o
amor. Assim sendo, é necessário identificar o maior objeto da imagem desta
família conservadora, os únicos momentos que todos os personagens se encontram
juntos, essa é a mesa de jantar. Existem dois momentos cruciais à narrativa que
ocorrem nesse acontecimento ritualístico e são realizados de maneira primorosa.
Por fim, é possível dizer que Gudagnino tem uma paixão
inegável pela Tilda Swinton, sua atuação sempre se ressalta ao lado deste
diretor italiano. Além disso, seu estilo que impõe um ritmo maravilhoso à
iluminação, direção e montagem é digno de nota. Assim, Um Sonho de Amor é um
belo filme, sempre um amor pela vida.
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