sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

2017 – mãe! (Darren Aronofsky, EUA) ***** (5.0)


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Darren Aronofsky sempre foi um diretor obcecado. Desde seu primeiro longa, no qual explorava um personagem imerso na criação de uma fórmula para o mundo, em seu mais recente filme traz a loucura da criação. Talvez seja possível enxergar um amor pelo perfeccionismo de um criador, ao mesmo tempo que uma frustração pavorosa, essas são marcas de seu conteúdo estético. “mãe!” é como um sonho terrível, uma intensa incursão sobre o eterno ciclo de produção criativa.
            
A experiência que se tem assistindo ao longa é atroz, o espectador irá desejar virar o rosto em diversos momentos, não só pelo choque que realmente pode espantar em seus momentos finais – a exclamação no fim do título talvez tenha esta conotação –, mas também pelo afinco técnico, que conduz o longa como um sinuoso caminho pelas sensações de sua protagonista. Personagem sem nome, mas intitulada por um arquétipo mãe, interpretada por Jennifer Lawrence, com um encanto realmente singelo. Essa personagem é casada com um homem sem nome, o arquétipo do criador, interpretada por um encanto e fúria nos olhos por Javier Barden. Ele é um autor de livros que no momento vive uma crise criativa. Chamo esses personagens de arquétipos muito pelo fato de suas ações e sensações servirem de alegorias, assim como, simplesmente, pela ausência de nomes identificadores surge uma necessidade do espectador de os colocar não como personagens específicos, mas como entidades conceituais.  
            
Visualmente o longa apresenta uma paleta de cores que é repetitiva. Um tom de branco/bege um pouco mais escurecido pinta as paredes da casa, afastada de tudo, essa mesma cor habita as roupas blasé da Mãe. Outra cor surge de forma a produzir vida ao ambiente, esta cor é a amarela, sendo a nova tinta na qual a personagem deseja decorar sua casa, além de ser da cor do remédio que toma quando se sente mal. A todo momento constrói-se essa relação íntima entre a casa e sua personagem, como se fossem uma só. Dividem as cores e o brilho, cada movimento e alteração na casa é sentida pela personagem, que recosta a cabeça na parede para então aprofundar-se nos próprios órgãos do ambiente, de forma literal. Além disso, o design do som fez um trabalho fantástico, pois faz o espectador imergir completamente na sensorialidade da personagem. Quando as xícaras se tocam o som reverbera e se torna mais agudo, ou quando a personagem sente dores, parece que os objetos da casa rangem em conjunto, tudo isso sem o uso da trilha sonora. Dessa forma, os mínimos sons se tornam gritos no silêncio, os gritos então são verdadeiras catástrofes ambientais.
            
Aronofsky, para isso, posiciona sua câmera o tempo todo atrás de sua personagem, a seguindo pelo ambiente. Algo muito próximo do que fez com O Lutador. A câmera de mão, que se movimenta rápido pelo ambiente, preparada para qualquer mínimo movimento. Com o passar da narrativa ela se torna veloz, já que o ambiente se torna saturado de movimento. Além disso, as reações de Lawrence, para qualquer acontecimento, são capturadas de maneira que o espectador se comunique muito em conjunto à reação dela.
            
O fluxo da narrativa se faz quando um homem, interpretado por Ed Harris, adentra na casa e se torna hóspede. Sua curiosidade, suas mentiras, seu jeito desleixado o tornam uma figura ímpar na austeridade do casal, o que rouba a atenção do criador e faz a mãe perder a paciência vagarosamente. Neste momento, são inseridos símbolos bíblicos sobre este personagem, pois uma ferida em sua costela e a chegada de sua misteriosa esposa no outro dia, o tornam “Adão”, consequentemente sua mulher “Eva”, interpretada por Michelle Pfeiffer. A postura dos dois sujeitos é desafiadora para a protagonista do enredo, como se os dois incorporassem um certo tipo de invasor interior que os faz sempre adentrar nas pequenas privacidades dessa personagem.
            
A alegoria de seu conteúdo é bíblica, porém também é sobre o ato da criação artística. Talvez o que direi aqui irá revelar demais o enredo do longa, mas na verdade é apenas uma preparação para o pesadelo que iria se tornar. Após a chegada de “Eva”, eis que surgem seus filhos “Caim” e “Abel”, interpretado pelos irmãos Gleeson. Os ocorridos vocês já conhecem, a forte presença de mais e mais sujeitos na casa da protagonista do enredo começam a enlouquecê-la e a finalmente se colocar para cima do marido, a se impor, impor seus próprios desejos. Neste momento glorioso, os dois transam e finalmente ela fica grávida. Com isto, a criatividade do criador retorna e a casa se enche de vida, para o bem ou para mal.
            
Mas se o criador é possivelmente Deus, quem seria então ela, a mãe? Quando “Adão” chega na casa e descobre que ela é a mulher do escritor, ele fica abismado, “ela é sua mulher? Pensei que fosse sua filha! ”. Ela é a mãe de todas as coisas, a mãe natureza, diferentemente da bíblia como se conhece, não existe uma submissão completa da natureza por Deus aqui, esse toque de alteração em conteúdo ditos como sagrados já foi realizada no seu longa grandiloquente Noé. Não é à toa que a personagem entra em conjunção com a casa, pois são as mesmas, cada objeto que é quebrado, modificado, destruído, humilhado, é como se ela estivesse sentindo. De forma simples e bonita, o diretor transforma sua personagem e sua casa em toda a natureza, o arquétipo da grande mãe completamente. Ver o ser humano destruir a natureza e o desleixo de Deus, a partir do olhar da natureza é algo de uma intensidade interessantíssima.
            
Os signos bíblicos estão em todo o seu enredo, do começo ao fim. Mas o artista criador acaba se sentindo um pouco como o suposto Deus deste longa. Veja bem, a mãe aqui ganha uma conotação de inspiração-musa, na qual, ele produz uma obra, que é consumida pelo público de forma tão incessante que suas palavras são deturpadas pela lógica própria da linguagem. A interpretação do espectador nunca está presa à intenção do autor, por isso, os seus adoradores engolem suas palavras como se fossem próprias e fazem o que bem entendem com ela. O artista criador sofre com essas mesmas questões, e veja só, a própria obra do Aronofsky pode ser usada diversas maneiras, seja uma alegoria bíblica ou do processo criativo de um artista, sob os olhos de sua inspiração.
            
Os últimos momentos do filme passam como uma avalanche, ao mesmo tempo que se tornam imensos como a neve após o desastre. Com a saturação do movimento e do número de personagens em cena, estes últimos momentos destroem completamente a noção de tempo de espectador, o fazendo se perder e até mesmo temer pelo que está para acontecer. Talvez muitos o julguem pela sua hiper-exposição de violência em determinados momentos, mas ela serve como parte das curvas das afecções da personagem, na qual, o espectador faz parte. É um acontecimento que reverbera em suas ondas de sofrimento, deixando o espectador sem fôlego.
            
“mãe!” é um filme intenso, um filme que divide opiniões. Alguns o odiaram por ser óbvio demais, ou por ser complexo demais, outros irão falar que é megalomania de Aronofsky (sempre foi, desde PI seu primeiro filme), mas não há como negar o afinco técnico que conduz a narrativa. Não há como negar a agonia frenética do longa que para alguns deve enjoar e para outros é um sopro violento de despertar. Este filme pede que se desloque o olhar, que o espectador se implique, que lute, pela natureza? Pela inspiração? Pelo amor? Seja lá o que for cada espectador será capaz de elaborar.

# só um pequeno comentário, acho algo de pouca qualidade ética tentar delinear, ou mapear a lógica psicológica de um artista por sua obra. Seja lá quais forem as semelhanças dele com ela, apenas não vale a pena como papel da crítica.

# E mais uma coisa, isso surgiu neste longa, mas em outros também. Talvez sirva de complemento para a anterior. Se uma personagem age de certa forma em um filme, não necessariamente seu diretor o é também. Se o mundo que habita os personagens é desta forma, não é porque seu diretor necessariamente o é também. Cada acontecimento, personagem, mecanismo dentro do enredo não existe num vácuo, está num agenciamento enorme que deve ser analisado em conjunto. Neste filme, por exemplo, Lawrence é uma personagem claramente submissa, mas que desde o começo do longa se percebe uma alegoria nela e em todos os outros personagens, uma alegoria à arquétipos e não a uma determinada pessoa, muito menos uma representação social da mãe, ou ainda sua realidade. Aliás, apresenta algo não é necessariamente concordar com ele.

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