
O mais recente longa da deste
herói encontra não só a melhor performance do Thor, depois dos fracos filmes
anteriores, mas também sua mais interessante comédia. Com seu estilo absurdo e
constrangedor, Waititi impõe um novo ritmo que consegue parodiar os aspectos
mais shakespereanos dos longas anteriores. Portanto, após ter seu martelo
destruído por Hela, sua irmã mais velha há tempos aprisionada, Thor é jogado
para um planeta de destroços no qual deve se tornar um gladiador para
sobreviver.
O que torna esse filme do Thor realmente interessante não
é a inserção de personagens já conhecidos como o Hulk, o Doutor Estranho ou
ainda o Loki, mas sim a presença avulsa de personagens secundários que tendem a
roubar a cena de seus protagonistas. Não é pelo fato dos principais personagens
estarem ruins, Chris Hemsworth, por exemplo, tem uma verdadeira noção de fazer
comédia, se saindo muito bem em suas piadas, além disso sem perder a postura e
pomposidade quase galhofa do seu personagem. Waititi demonstra um estilo de
comédia muito próprio, se baseando muito no deadpan, alcançando certo
constrangimento com diálogos carregados de um aspecto até mesmo bobo, o que não
quer dizer que é ruim. Eles soam apenas absurdos, mas ao mesmo tempo simples e
muito naturais. Até mesmo pela forma que captura os trejeitos de seus
personagens, seja a desenvoltura enojada do Grão-Mestre, interpretado por Jefff
Goldblum, o dono do planeta, no qual o protagonista se vê aprisionado. Ou ainda
o próprio Hulk, mais uma vez com o Mark Ruffalo na captura de movimento, que
parece mimetizar crianças enfezadas em diversos momentos.
Os personagens avulsos como Korg, interpretado pelo
próprio diretor com a captura de movimento e Miek, dois alienígenas que também
são gladiadores. O primeiro é completamente feito de pedra, porém sua voz soa
como a de uma adolescente, gerando uma gag inevitável durante seus diálogos, já
o Miek não fala, porém é uma pequena criatura, que parece vestir uma roupa
tecnológica que o permite ter lâminas no lugar de braços. Seus trejeitos são
velozes, como os de uma criança que acabou de assistir um filme de samurai. Já
a participação de Loki é a que de fato parece cansar, não é culpa de Tom
Hiddleston que sempre dá a seu personagem um ar de mistério, mas é um
personagem que já se desgastou. Além destes personagens, a vilã Hela,
interpretada com uma energia eletrizante por Cate Blanchet, consegue até impor
certo terror de início, mas suas intenções batidas acabam a tornando
conceitualmente só mais uma vilã qualquer, por mais que sua performance a
coloque em certo patamar elevado num repertório tão fraco da Marvel em produzir
vilões no cinema.
Esteticamente algumas coisas permanecem as mesmas como a
plasticidade de Asgard. O planeta lixoso em que ocorre as batalhas dos
gladiadores é bem retratado, por mais que explorado mais intensamente em locais
fechados, seu estilo lembra certos templos indígenas, porém com um futurismo
colorido. Não chegando nem perto na explosão de cores causada pela caótica e
divertida aventura de Guardiões da Galáxia, que visualmente é um filme
superior. Apesar de seu foco na comédia,
as cenas de ação são bem retratadas e com efeitos especiais ótimos, usando numa
medida suportável o slow-motion, além de trazer uma caracterização de
quadrinho, visto de maneira mais precisa no belíssimo plano no qual Thor foge
de um dragão. Mas se acerta na ação e na comédia, no drama é que se torna um
pouco fraco. Waititi, em seu longa anterior (A Aventura de Ricky Baker),
consegue criar um belo misto de um drama com comédia, entretanto aqui a
inserção do drama sempre soa falho. Assim, a morte de Odin é algo extremamente
precário no longa, a cena por completa soa artificial, até mesmo o assassinato
de milhares de sujeitos pela sua vilã carece certo impacto dramático.
Mas essa questão final do drama só existe por conta de
uma continuidade que é trabalhada no Universo Cinematográfico da Marvel. O que
me faz pensar que a negligencia proposital de alguns arcos dramáticos parece
uma escolha autoral de Waititi, que não julga a morte já cantada de Odin como
um elemento importante, pois durante o filme o Thor não perpassa por uma
mudança comum, por um arco dramático comum, ao mesmo tempo que apresenta
algumas reflexões cômicas que parecem dizer um pouco do novo peso que carrega
nas costas. Seriam os chistes uma forma de desenvolver os personagens de uma
maneira criativa? Não sei dizer, porém, o sentimento a como isso foi
posicionado no filme é ambíguo.
De certa medida, o diretor consegue resolver alguns
assuntos que pareciam prender os longas anteriores de se tornarem mais
interessantes, como a forçosa relação de Thor com Jane, que em um diálogo
pueril se encerra. Ainda é possível citar as participações de diversos
personagens que acabam produzindo narrativas interessantes, em contrapartida
aos explorados nos filmes anteriores. Heimdall, com o Idris Elba sempre
imponente, surge como o protetor das pessoas em Asgard, buscando refúgio, já
Skurge, comicamente interpretado por Karl Urban, aparece com o inverso, o
covarde que se entrega a Hela, por fim, a Valkyria, interpretada de forma
simpática por Thessa Thompson, numa jornada da retomada de si.
Devo dizer que sem atos exacerbadamente heroicos, porém
corajosos, o longa conduz sua narrativa a uma noção bela de povo – no caso
asgardiano – como uma família não sanguínea. Waititi traz novos ares à franquia
menos interessante da Marvel, por mais que não seja algo extremamente consiste
dramaticamente, consegue trazer um estilo singular de comédia, quase infantil e
uma nova forma de enxergar estes personagens.
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