terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

2017 – Thor: Ragnarok (Taika Waititi, Nova Zelândia & EUA) ***1/2 (3.5)


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O mais recente longa da deste herói encontra não só a melhor performance do Thor, depois dos fracos filmes anteriores, mas também sua mais interessante comédia. Com seu estilo absurdo e constrangedor, Waititi impõe um novo ritmo que consegue parodiar os aspectos mais shakespereanos dos longas anteriores. Portanto, após ter seu martelo destruído por Hela, sua irmã mais velha há tempos aprisionada, Thor é jogado para um planeta de destroços no qual deve se tornar um gladiador para sobreviver.
            
O que torna esse filme do Thor realmente interessante não é a inserção de personagens já conhecidos como o Hulk, o Doutor Estranho ou ainda o Loki, mas sim a presença avulsa de personagens secundários que tendem a roubar a cena de seus protagonistas. Não é pelo fato dos principais personagens estarem ruins, Chris Hemsworth, por exemplo, tem uma verdadeira noção de fazer comédia, se saindo muito bem em suas piadas, além disso sem perder a postura e pomposidade quase galhofa do seu personagem. Waititi demonstra um estilo de comédia muito próprio, se baseando muito no deadpan, alcançando certo constrangimento com diálogos carregados de um aspecto até mesmo bobo, o que não quer dizer que é ruim. Eles soam apenas absurdos, mas ao mesmo tempo simples e muito naturais. Até mesmo pela forma que captura os trejeitos de seus personagens, seja a desenvoltura enojada do Grão-Mestre, interpretado por Jefff Goldblum, o dono do planeta, no qual o protagonista se vê aprisionado. Ou ainda o próprio Hulk, mais uma vez com o Mark Ruffalo na captura de movimento, que parece mimetizar crianças enfezadas em diversos momentos.
            
Os personagens avulsos como Korg, interpretado pelo próprio diretor com a captura de movimento e Miek, dois alienígenas que também são gladiadores. O primeiro é completamente feito de pedra, porém sua voz soa como a de uma adolescente, gerando uma gag inevitável durante seus diálogos, já o Miek não fala, porém é uma pequena criatura, que parece vestir uma roupa tecnológica que o permite ter lâminas no lugar de braços. Seus trejeitos são velozes, como os de uma criança que acabou de assistir um filme de samurai. Já a participação de Loki é a que de fato parece cansar, não é culpa de Tom Hiddleston que sempre dá a seu personagem um ar de mistério, mas é um personagem que já se desgastou. Além destes personagens, a vilã Hela, interpretada com uma energia eletrizante por Cate Blanchet, consegue até impor certo terror de início, mas suas intenções batidas acabam a tornando conceitualmente só mais uma vilã qualquer, por mais que sua performance a coloque em certo patamar elevado num repertório tão fraco da Marvel em produzir vilões no cinema.
            
Esteticamente algumas coisas permanecem as mesmas como a plasticidade de Asgard. O planeta lixoso em que ocorre as batalhas dos gladiadores é bem retratado, por mais que explorado mais intensamente em locais fechados, seu estilo lembra certos templos indígenas, porém com um futurismo colorido. Não chegando nem perto na explosão de cores causada pela caótica e divertida aventura de Guardiões da Galáxia, que visualmente é um filme superior.  Apesar de seu foco na comédia, as cenas de ação são bem retratadas e com efeitos especiais ótimos, usando numa medida suportável o slow-motion, além de trazer uma caracterização de quadrinho, visto de maneira mais precisa no belíssimo plano no qual Thor foge de um dragão. Mas se acerta na ação e na comédia, no drama é que se torna um pouco fraco. Waititi, em seu longa anterior (A Aventura de Ricky Baker), consegue criar um belo misto de um drama com comédia, entretanto aqui a inserção do drama sempre soa falho. Assim, a morte de Odin é algo extremamente precário no longa, a cena por completa soa artificial, até mesmo o assassinato de milhares de sujeitos pela sua vilã carece certo impacto dramático.
            
Mas essa questão final do drama só existe por conta de uma continuidade que é trabalhada no Universo Cinematográfico da Marvel. O que me faz pensar que a negligencia proposital de alguns arcos dramáticos parece uma escolha autoral de Waititi, que não julga a morte já cantada de Odin como um elemento importante, pois durante o filme o Thor não perpassa por uma mudança comum, por um arco dramático comum, ao mesmo tempo que apresenta algumas reflexões cômicas que parecem dizer um pouco do novo peso que carrega nas costas. Seriam os chistes uma forma de desenvolver os personagens de uma maneira criativa? Não sei dizer, porém, o sentimento a como isso foi posicionado no filme é ambíguo.  
            
De certa medida, o diretor consegue resolver alguns assuntos que pareciam prender os longas anteriores de se tornarem mais interessantes, como a forçosa relação de Thor com Jane, que em um diálogo pueril se encerra. Ainda é possível citar as participações de diversos personagens que acabam produzindo narrativas interessantes, em contrapartida aos explorados nos filmes anteriores. Heimdall, com o Idris Elba sempre imponente, surge como o protetor das pessoas em Asgard, buscando refúgio, já Skurge, comicamente interpretado por Karl Urban, aparece com o inverso, o covarde que se entrega a Hela, por fim, a Valkyria, interpretada de forma simpática por Thessa Thompson, numa jornada da retomada de si.
            
Devo dizer que sem atos exacerbadamente heroicos, porém corajosos, o longa conduz sua narrativa a uma noção bela de povo – no caso asgardiano – como uma família não sanguínea. Waititi traz novos ares à franquia menos interessante da Marvel, por mais que não seja algo extremamente consiste dramaticamente, consegue trazer um estilo singular de comédia, quase infantil e uma nova forma de enxergar estes personagens. 

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