
O início do longa é narrado por uma
série de elipses e fades, praticamente sem diálogos, na qual a personagem vaga
pelo deserto, é capturada e tem sua perna e braço arrancado para tornarem-se
alimento. Esse grupo canibal surge como um estereótipo de sujeitos viciados em
seus próprios corpos, completamente musculosos, em que a carne se definia e
tornava-se a maior representação do desejo deles, não só vaidoso, mas como uma
forma de suculência. Quando ela foge e chega numa cidade bizarra é que sua
história passa a se desenvolver, procurando entender o que há com aquele lugar.
É inegável algumas semelhanças com o recente Mad Max, além da personagem Furiosa,
forte protagonista feminina com alguns membros faltando e o ambiente desértico
remetem ao máximo ao filme de George Miller.
Nessa cidade bizarra existem algumas
questões contemporâneas bem interessantes. O personagem do Keanu Reeves é uma
espécie de líder do local, na qual, todos vivem apenas pelas festas e drogas
que usam, buscando uma sensação de transcendência que os fazem escapar de suas
duras realidades. Incidindo, assim, na geração das Raves que é a contemporânea,
na qual, as pessoas precisam vivenciar essa experiência sob o uso de
substância. Até mesmo o ambiente desértico e recluso remetem ao ambiente de
Raves. Talvez essa visão seja estereotipada sobre esses tipos de festivais,
porém criam uma interessante estética e atravessamento do que se vive hoje. Além
disso, a todo momento, nas poucas paredes do local, há algumas inscrições
importantes como “Encontre o Sonho”. No longa, o sonho é o nome do personagem
de Keanu Reeves, demonstrando um certo vazio dessa frase que reveste os tempos
de hoje, como se, no fundo, este sonho que a sociedade engendra nos sujeitos é
apenas para fazê-los permanecer dormindo, imersos na sensorialidade hedonista.
Este comentário é atual, assim como
a do culto ao corpo perfeito cada vez mais forte na contemporaneidade. Jason
Mamoa faz o líder deste grupo de canibais, que numa atuação com pouquíssimos
diálogos, faz um líder ambíguo e principalmente misterioso. Durante a narrativa
da personagem, que por assim dizer é uma narrativa de uma perdida num mundo
bizarro, ela se apaixona por esse homem. Neste ponto narrativo é que a história
começa a se tornar frágil, já que a protagonista passa a realizar ações pouco
críveis pelas bases expostas no enredo. Além de que essa relação acrescenta
praticamente nada ao filme, talvez sendo uma incursão juvenil aos romances
inusitados num local como esse, mas ainda assim faz pouco à lógica da
narrativa.
Por fim, vale salientar a presença
do personagem do Jim Carrey, como um aleatório mendigo que vaga como um nômade
pelo ambiente quente. Sua atuação está impressionante, carregando de uma
tristeza e insanidade grande, sua presença corporal também é completamente
inusitada e forte. Esse emaranhado de conteúdo contemporâneo, parece ser certa espécie de discurso realizado a partir de signos atuais, assim como seu longa de estreia que utilizada do empoderamento feminino e dos longas de vampiro de forma criativa para subverter essa lógica. A grande questão aqui é que esse discurso acerca da juventude do século XXI não foi elaborado com força tão contundente, nem mesmo esteticamente foi tão forte. Bem, sua inteligência em capturar signos tão impregnados destes tempos talvez o faça se tornar um filme cult, além de sua própria estranheza.
Dessa forma, Amores Canibais é um
longa que busca a esperança num inusitado romance de uma menina perdida e um
homem viciado no culto ao corpo. Que precisava de um desenvolvimento mais bem
trabalhado para que sua história ficasse mais poderosa. O seu nome original é
The Bad Batch, que significa tanto lote ruim, de forma, literal, ou ainda em
seu significado coloquial que é o de uma droga mal preparada, consequentemente
que causa overdose. Talvez algo que faça mais sentido até.
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