domingo, 4 de fevereiro de 2018

2016 – Amores Canibais (Anna Lily Amirpour, Irã e EUA) *** (3.0)


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O segundo filme da promissora Anna Lily Amirpour é uma silenciosa imersão num mundo pós-apocalíptico, com personagens esquisitos e pouco desenvolvimento de sua narrativa. Sem muita explicação a jovem protagonista vai presa e então é largada num deserto, algo como a fronteira americana e mexicana. O limbo contemporâneo.
            
O início do longa é narrado por uma série de elipses e fades, praticamente sem diálogos, na qual a personagem vaga pelo deserto, é capturada e tem sua perna e braço arrancado para tornarem-se alimento. Esse grupo canibal surge como um estereótipo de sujeitos viciados em seus próprios corpos, completamente musculosos, em que a carne se definia e tornava-se a maior representação do desejo deles, não só vaidoso, mas como uma forma de suculência. Quando ela foge e chega numa cidade bizarra é que sua história passa a se desenvolver, procurando entender o que há com aquele lugar. É inegável algumas semelhanças com o recente Mad Max, além da personagem Furiosa, forte protagonista feminina com alguns membros faltando e o ambiente desértico remetem ao máximo ao filme de George Miller.
            
Nessa cidade bizarra existem algumas questões contemporâneas bem interessantes. O personagem do Keanu Reeves é uma espécie de líder do local, na qual, todos vivem apenas pelas festas e drogas que usam, buscando uma sensação de transcendência que os fazem escapar de suas duras realidades. Incidindo, assim, na geração das Raves que é a contemporânea, na qual, as pessoas precisam vivenciar essa experiência sob o uso de substância. Até mesmo o ambiente desértico e recluso remetem ao ambiente de Raves. Talvez essa visão seja estereotipada sobre esses tipos de festivais, porém criam uma interessante estética e atravessamento do que se vive hoje. Além disso, a todo momento, nas poucas paredes do local, há algumas inscrições importantes como “Encontre o Sonho”. No longa, o sonho é o nome do personagem de Keanu Reeves, demonstrando um certo vazio dessa frase que reveste os tempos de hoje, como se, no fundo, este sonho que a sociedade engendra nos sujeitos é apenas para fazê-los permanecer dormindo, imersos na sensorialidade hedonista.
            
Este comentário é atual, assim como a do culto ao corpo perfeito cada vez mais forte na contemporaneidade. Jason Mamoa faz o líder deste grupo de canibais, que numa atuação com pouquíssimos diálogos, faz um líder ambíguo e principalmente misterioso. Durante a narrativa da personagem, que por assim dizer é uma narrativa de uma perdida num mundo bizarro, ela se apaixona por esse homem. Neste ponto narrativo é que a história começa a se tornar frágil, já que a protagonista passa a realizar ações pouco críveis pelas bases expostas no enredo. Além de que essa relação acrescenta praticamente nada ao filme, talvez sendo uma incursão juvenil aos romances inusitados num local como esse, mas ainda assim faz pouco à lógica da narrativa.
            
Por fim, vale salientar a presença do personagem do Jim Carrey, como um aleatório mendigo que vaga como um nômade pelo ambiente quente. Sua atuação está impressionante, carregando de uma tristeza e insanidade grande, sua presença corporal também é completamente inusitada e forte. Esse emaranhado de conteúdo contemporâneo, parece ser certa espécie de discurso realizado a partir de signos atuais, assim como seu longa de estreia que utilizada do empoderamento feminino e dos longas de vampiro de forma criativa para subverter essa lógica. A grande questão aqui é que esse discurso acerca da juventude do século XXI não foi elaborado com força tão contundente, nem mesmo esteticamente foi tão forte. Bem, sua inteligência em capturar signos tão impregnados destes tempos talvez o faça se tornar um filme cult, além de sua própria estranheza.
            
Dessa forma, Amores Canibais é um longa que busca a esperança num inusitado romance de uma menina perdida e um homem viciado no culto ao corpo. Que precisava de um desenvolvimento mais bem trabalhado para que sua história ficasse mais poderosa. O seu nome original é The Bad Batch, que significa tanto lote ruim, de forma, literal, ou ainda em seu significado coloquial que é o de uma droga mal preparada, consequentemente que causa overdose. Talvez algo que faça mais sentido até.

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