
Esse filme contém uma premissa
próxima à de Para o Outro Lado, do diretor Kyioshi Kurosawa, na qual o
espectador presencia o luto do que morreu, do morto, porém levado aos extremos
da potência do tema. Fazendo surgir o tempo como forma máxima de expressão. Com
longos planos, minimalistas e silenciosos, C se torna o espirito em sua própria
casa.
Logo de início, C e M, interpretados respectivamente por
Casey Affleck e Rooney Mara, são acordados no meio da noite por um barulho
estranho vindo da sala. Então, quando olham o que foi que aconteceu, um objeto
foi estranhamente derrubado. Durante toda a parte inicial presencia-se uma
sensação de que há algo espiritual acontecendo na casa, enquanto o casal
discute sobre o que devem fazer de suas próprias vidas, já que os dois tem
objetivos diferentes. Lowery, diretor do longa, opta por uma razão de aspecto
reduzida, quadrada e ainda com bordas redondas, trazendo até mesmo um tom
íntimo aos enquadramentos do filme. Mas a narrativa se inicia de fato com o
acidente de carro de C, quando finalmente retorna para casa em forma de
fantasma.
Chega a ser difícil falar sobre a atuação de Casey
Affleck, já que passa o longa inteiro usando uma manta branca com dois pequenos
círculos no lugar dos olhos, criando assim a figura do fantasma de brincadeira,
ao mesmo tempo que surge como um aspecto cômico, parece trazer uma sensação de
comum e decadência. Sua postura, ao menos, é meio encurvada, anda lentamente
pelos ambientes, quase destituído de sua aparência humana e lembrando-se apenas
do corpo fantasmagórico, talvez essa impossibilidade perceber suas emoções o
tornem um verdadeiro propulsor identificatório. Rooney Mara, que interpreta M,
está muito bem, sempre conseguindo fazer emergir sentimentos muito reais. Existe
um plano em especifico que é composto com muita maestria por Lowery, quando ela
chega em casa e uma torta se encontra lá, deixada como uma espécie de consolação,
assim, ela senta no chão da cozinha e come a torta inteira, enquanto C assiste
sem expressar nada, na sua prisão branca fantasmagórica. Num plano sequência
gigantesco, estático, na qual a personagem apenas come com tamanha tristeza
aquele alimento, existe uma noção da força do tempo para causar algumas
emoções, para ocasionar mudanças.
Então, é impressionante a forma que expressa a passagem
de tempo, a própria lógica do tempo do fantasma difere daquela vida. Veja bem,
com cada passo que C dá, o seu ambiente começa a se modificar. Essa sensação de
passagem e densidade do tempo cresce por conta de uma montagem extremamente bem
realizada, com cortes leves e que ajudam na condução dos longos planos, além
das próprias mudanças fotografias e de efeitos visuais realizadas dentro do
plano sequência, é um trabalho de composição de sequência muito bem realizado.
A trilha sonora que acompanha o personagem lentamente também tem seus aspectos
para ajudar a produzir a sensação do tempo, não só em tom melancólico, mas
também cria um certo suspense, que se alia a figura fantasmagórica. Aliás,
existe uma música original que, no enredo, é composta por seu protagonista, ela
aparece de maneira incisiva, evocando um sentimento de proximidade com o que se
está na tela.
É difícil de dizer em certo momento do filme sobre o que
quer passar, é a história de C e seu luto da vida, enquanto observa tudo mudar,
cada mínimo detalhe de sua casa mudar, de seu bairro, do próprio mundo, ou
ainda sobre a passagem do tempo e de sua própria confusão. Num dos momentos
mais belos do longa, um dos poucos que contém diálogos, um homem discorre um
monólogo sobre a efemeridade da produção humana, sobre o nosso desejo de ser
eterno, nosso desejo de memória, mas que vai chegar um dia que tudo vai se
acabar para começar novamente. Esse princípio cíclico e efêmero é exposto como
uma bela poesia nessa fala (é de forma expositiva que se tem a tese do filme,
parece até certo contrassenso, pois esforça-se ao máximo para expressar tal
força de maneira completamente cinematográfica), porém se torna ainda mais
poderosa com o decorrer do longa.
É de certo que este longa é sobre um fantasma, ou melhor
sobre o movimento humano no mundo, que não quer se esquecido, mas se depara com
o infalível tempo, é a perfeita agonia da díade efêmero e eterno. Com o ritmo
lento e meditativo, Lowery conduz com uma delicadeza a conjunção desses dois
opostos. Sua simplicidade é eficaz para construir esse emaranhado de solidão,
de tempo e de impossibilidade de ação.
Portanto, A Ghost Story é uma das melhores surpresas do
ano de 2017, não só dentro do âmbito do cinema independente americano, mas no
âmbito geral. Com todo o silêncio do mundo evocar tamanho poder é de uma
sensibilidade visual e narrativa impressionante.
Esse filme, ao mesmo tempo que me deixa melancólica, faz com que eu sinta um quentinho dentro de mim. Mostra duas perspectivas de uma mesma história, mostrando q as coisas nem sempre são apenas boas ou ruins, elas apenas sao.
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