quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

1955 – A Trapaça (Federico Fellini, Itália) **** (4.0)


 photo Il20Bidone_MOC-thumb-860xauto-45116_zps7qaifdpd.jpg

Neste filme que certamente carrega um teor muito melancólico em contrapartida do cômico, existe uma substância de diálogo entre a solidão dos personagens do diretor. É como se só conhecessem uma forma de vida e assim se isolam nela. Augusto, acompanhado apenas no trabalho por Roberto e Picasso, é um vigarista que engana a população mais pobre dos arreadores de Roma em busca de dinheiro.
            
A primeira coisa que deve se dizer sobre essa obra é que ela foi picotada por seu estúdio. Porém, não ao ponto de prejudicá-la de forma estridente como é possível ver na versão original de Blade Runner, ou ainda em Soberba de Orson Welles (porém, aqui é possível perceber a genialidade por entre o picote). O que lhe resta ainda é felliniano, ainda é forte. A sequência inicial demonstra um pouco de como são os atos deste trio. Eles se disfarçam de homens da religião, Augusto como um bispo, Picasso um padre e Roberto, algo próximo a isso. Criando uma narrativa de que um homem enterrou um tesouro na casa dos sujeitos e eles deverão pagar para rezar no vaticano, só assim, para sobreviver à maldição daquele que morreu ali. A situação apesar de mover-se por uma intenção irônica soa triste, pois os enganados são pessoas muito pobres e se deixam levar pelas vestimentas religiosas que designam autoridades.

Esses três personagens são os que movimentam os aspectos conotativos do longa, ou seja, se desenvolvem para produzir sentidos. Augusto tem uma longa carreira como vigarista, viveu toda a sua vida assim. Sendo o mais velho do grupo, é aquele que sempre está sob controle, além de que sente um verdadeiro prazer egoísta por tais atos. Tem uma filha, na qual, pouco tem contato, mas é como uma esperança de bondade de si. Picasso faz tais atos para ter uma vida melhor, mas pouco a pouco decepciona sua esposa, interpretada Giuletta Masina (personagem que teve mais cortes no longa), seu aspecto sonhador o transforam num jovem felliniano. Por fim, Roberto sempre está à procura de mulheres mais velhas dispostas a bancarem por sua vida, pretende seguir os passos de Augusto, além de não ter sequer outra perspectiva de vida. 

Um dos grandes momentos do longa, Augusto e Picasso se encontram numa festa de um amigo antigo do líder do grupo. Este homem é bem-sucedido, sua casa é uma verdadeira mansão em que a câmera passeia, em que surgem pequenas narrativas de uma ponta do enquadramento ao outro, onde tudo acontece ao mesmo tempo. Este momento não é só cheio de nuances cinematográficas, como também são irruptivas aos personagens. Augusto sente inveja, se sente incapaz e Picasso nãos sabe mais como se esconder da própria esposa, que já cansou de expressar ingenuidade. Existe outra característica estética de Fellini, além da sequência da festa, os diálogos noturno e solitários, em ambientes úmidos e com ventanias oníricas criam mais uma vez uma ambientação para que os personagens possam refletir.

A grandiosidade deste longa reside em conter uma sensibilidade desenvolvida pelo neorrealismo italiano, porém com um estilo vivaz de Fellini, combinando a magia dos sonhos, com o horror da realidade (ou talvez a beleza da vida, com o terror dos pesadelos). Os últimos momentos desta história contêm um ritmo vagaroso, no qual, mais uma vez Augusto está para realizar sua enganação como bispo e a culpa, não católica, uma culpa de existência, recaí sobre o personagem. Usando da luz de forma límpida que criam uma significância ao momento, criando até mesmo conotações santas, seria este homem um pecador e um santo ao mesmo tempo? Tudo é feito com uma preciosidade cinematográfica precisa. O movimento da câmera, o ambiente árido, a árvores mortas em correlação poética com a árvore viva do início do longa e, por fim, a mistura do corpo de um homem com a terra.

A Trapaça pode parecer um filme esquecido do diretor, no meio de tantas grandes obras o seu trabalho aqui parece não só menos potente, como também menos grandioso. Mas diferente do que alguns afirmam é uma obra esteticamente felliniana, com personagens difíceis de identificar, porém que, como já dito, com a sensibilidade neorrealista deixam de ser entidades conceituais, estereótipos, sendo, então, apenas humanos. Algumas narrativas ao fim do longa soam abertas e sem conclusão, algo que é possível se explicar pelo corte do estúdio feito no longa, de qualquer forma, o que é apresentado é muito potente.

Nenhum comentário:

Postar um comentário