sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

2017 – Jogo Perigoso (Mike Flanagan, EUA) **** (4.0)

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Este vem sendo um ano cinematográfico para Stephen King bem cheio, apesar do fracasso de A Torre Negra, o saldo vem sendo bem positivo. O Jogo Perigoso foi considerado um livro inadaptável, já que grande parte de seu enredo se passa na mente da protagonista e que permanece literalmente o enredo todo na mesma posição. Mike Flanagan superou as expectativas ao dar vida a essa história com agonia e um afinco cinematográfico grande. Narrando a história de Jessie e Gerald, que vão para uma casa de campo apimentar o relacionamento que parece morto, num suposto jogo de sedução ela é algemada e seu marido tem uma parada cardíaca, dessa forma, ela se vê nessa condição de prisioneira.
            
Narrativamente, para construir um dinâmica no sofrimento da personagem, os seus pensamentos e principalmente a vozes que percorrem a sua cabeça se materializam, ou melhor, se encarnam. Em um movimento de desistência e pessimismo surge a figura de seu marido, no movimento inverso uma outra figura dela surge com sugestões e ideias novas. Seu sofrimento é completamente pertinente, a atuação de Carla Gugino é exemplar, desde seu primeiro momento em cena até o seu último, carregando no olhar o peso de um casamento em fragmentos e uma vida sofrida. Já Bruce Greenwood, apesar de caricato, surge como uma representação odiosa de como a personagem enxerga seu marido.
            
Até certo ponto essa proposta acaba por tornar algo que poderia ser intenso, cru e solitário, em algo dinâmico. Que não se confunde com uma exposição exagerada e nem mesmo acaba por tornar a narrativa mais suportável. A claustrofobia da personagem é completamente sensorial. Flangan parece ter desenvolvido uma habilidade com a produção da tensão sensorial, filmando em ambientes restritos. Seus filmes anteriores como Hush e O Espelho, tem a mesma estrutura formal, dessa forma, o sofrimento da personagem cresce com o passar do tempo não só pelas vozes que discutem em sua cabeça, a sua indecisão em diálogo, mas também, por conta da forma que dirige com os mínimos cuidados os poucos movimentos de sua personagem.
            
O motivo pelo qual Gerald teve um ataque cardíaco foi uma reação intensa de Jessie em relação ao ato sexual, como de forma instintiva sua memória a fizesse a agir daquela forma. Não é à toa, o longa explora a memória da personagem enquanto ela fica desacordada por conta da fome e do cansaço. Estas sequências são carregadas de uma fotografia mais vívida, porém por conta de seu conteúdo sexual e perturbador, se torna completamente vermelha, numa imagem surrealista e intensa. Com essas sequências sobre o passado da personagem, sua situação atual de claustrofobia acaba servindo para expressar como estivera se sentindo sua vida toda. É interessante perceber como situações da vida nos recolam mnemonicamente e nos fazem significar nossa história de maneira diferente.
            
Além disso, quando anoitece, existe um personagem deveras estranho, que transita o tempo todo entre a ilusão e o realismo visceral do longa. Suas aparições são assustadoras, carregando olhos vermelhos como o passado da personagem. Este é ladrão de túmulos, sua figura aparentemente mística produz um símbolo narrativo para a personagem, algo que é atestado e fortificado no fim longa. Seu fim é em parte extremamente grotesco, com um uso de maquiagem e efeitos práticos sensacional, assim em outra parte parece didático bastante inverossímil. Porém, é um fechamento impressionante ao arco de Jessie.
            
Com boas atuações, uma condução bem elaborada e até mesmo de difícil produção de Mike Flanagan, Jogo Perigoso é um dos melhores longas baseado em histórias de Stephen King. Fazendo o espectador adentrar nas entranhas da mente de sua personagem.

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