terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

1957 – Noites de Cabíria (Federico Fellini, Itália) ***** (5.0)


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No papel que mais lhe marcou, Giuletta Masina expõe a genuína paixão de um sujeito pela vida. Ela é a já conhecida Cabíria, prostitua que trabalha nas ruas de Roma, com um senso de humor grande. Mas o que Fellini expõe aqui é uma lógica do palhaço que emerge em todos os seus filmes, o riso sempre é acompanhado de uma tristeza, no caso desses longas inicias, a tristeza solitária.
            
Com isso, o filme abre com Cabíria discutindo com um possível namorado que rouba sua bolsa e a derruba num rio. Ato que quase a mata e a torna completamente desacredita na vida. Aos poucos, é percebido como ela é uma pessoa querida por todos ao seu redor, pois, no fundo, está sempre buscando o amor genuíno, aquele que conheceu quando era criança. Entretanto, como pode nas ruas vazias da madruga de Roma buscar o amor? Sem contar que seu trabalho não ajuda, vendendo o sexo e a fabricação de um amor extremamente passageiro. Ela só poderia ser uma sonhadora, só assim para continuar buscando, nos entraves, nas curvas, nas fontes, nas esquinas em que os carros estacionam e apenas observam. Sua postura não é doce, Masina faz questão de se impor com o corpo para trazer a figura forte e determinada que é Cabíria. Falando pelos cotovelos, sempre tentando ocupar o silêncio.
            
Mas não é que ela não é doce, pois no seu mais profundo desejo ela é completamente doce. Por vezes, no seu olhar e principalmente no seu silêncio se percebe que a armadura de sua postura é mais uma defesa. Assim sendo, acompanha-se a personagem em seu vaguear torto por Roma, ás vezes encontrando espaço no carro de desconhecidos, que se interessam muito mais pela sua presença qualquer que por sua especificidade amorosa. Assim, Cabíria conhece todos os cantos da cidade, seja os mais ricos em suas casas extravagantes, até os mais pobres, que por vezes moram em cavernas para se esconder da chuva. Uma das cenas mais poderosas e críticas é quando as prostitutas vão à Igreja, em que todos ao redor delas fazem seus pedidos milagrosos, criando uma sensação de vazio poderoso pela súplica ininterrupta deles. De todos os seus encontros o mais impressionante é com o mágico.
            
Neste simples momento, Cabíria é chamada ao palco para ser hipnotizada, assim, ocorre uma das sequências mais simples e atmosféricas do diretor, que com a iluminação produz certo onirismo ao espetáculo. Ela fica revoltada em certo momento por deixar-se revelar ao público. Porém, quando o efeito hipnótico começa a fazer um efeito mais potente, ela deixa-se levar e demonstra sua face. Poeticamente o mágico coloca uma coroa de flores em sua cabeça, criando um falso ar idílico ao acontecimento que existe em sua ilusão. O que ela demonstra ao público, que certamente não está acostumado, é uma expressão de amor. Não devo entrar aqui em definições mais especificas do que seria esse amor, mas percebe-se que é um afeto para com o outro, caríssimo, raro e que envolve certo tipo de devir. Até o mágico se assusta com o resultado, ela foi não só facilmente suscetível à sua hipnose, como também foi carregada para a ilusão provocada pela fala de forma muito pungente.
            
Para concluir o arco narrativo de um personagem tão amável como essa, Fellini constrói uma de suas cenas mais poderosas e que carrega uma conotação delirante fantástica. Um agenciamento perfeito de elementos se faz nessa última sequência, na qual a personagem se encontra na frente de um grandioso lago, que reflete a luz do Sol e toma conta de toda a profundidade de campo. Com o vento, os pequenos movimentos da câmera, a montagem que aos poucos enquadra seus personagens com planos mais próximos, podendo se enxergar o suor, os olhos trêmulos. Mas o que se sobressai, além do próprio acontecimento, é a repetição de um sintoma terrível, é aquela luz forte do Sol que toma conta de toda a melancolia da personagem, sustenta suas lágrimas, sustenta seu fiapo de vida que lhe resta.
            
Em contraponto a este momento, à noite, quando escuridão toma conta de estrada vazia, Cabíria se encontra com um grupo nômade, quase como uma passeata circense. Uma canção alegra, na qual diversas vozes cantam, contagia o próprio movimento da câmera, que acompanha lentamente os passos de sua protagonista. Um sorriso, uma lágrima, o indiscernível do riso e do melancólico. Uma das mais belas incursões do diretor sobre um protagonista, tão severo quanto qualquer outro, Cabíria é uma personagem viva, com tantas nuances e imperfeições, com tanto amor e com tanta tristeza. Só Giulietta Masina para conseguir criar, com seu rosto inquieto, porém preciso e sua postura que alcança a mais alta ingenuidade, assim como a mais baixa aspereza, essa singularidade humana.
            
Noites de Cabíria é um filme poderoso do diretor italiano, narrando a vida de uma prostituta sonhadora. Encontrando nos confins de seu inconsciente uma força vívida para perseverar diante das adversidades. Resiliência, os contemporâneos poderiam dizer, mas ainda prefiro o conceito de Spinoza, “Conatus”, a potência que um sujeito tem de perseverar. Diante das lágrimas, sorrir é esta potência.

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