domingo, 18 de fevereiro de 2018

2017 – Blade Runner 2049 (Denis Villenueve, EUA) ****1/2 (4.5)


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Trinta e cinco anos após o lançamento de Blade Runner, Denis Villenueve dirige a sequência. Ampliando as consequências de um universo deprimido e melancólico como o da obra original, além de trazer consigo um visual tão espetacular e icônico quanto. Narra a história de K. um replicante que caça outros replicantes fugitivos.
            
Por um simples letreiro inicial, o universo que insere esse novo replicante apresenta mudanças efetivas. Os novos replicantes não têm data de expiração, assim como são mais obedientes, por isso, servem para caçar os replicantes de versões anteriores.  Pelo que foi dito também, o mundo parece mais ainda desolado, todas as mudanças realizadas são como atualizações de instâncias que já estavam embrionárias na obra original.

Dessa forma, com a ajuda de Roger Deakins que não tenta emular precisamente a fotografia de Cronenweth, fotógrafo da obra original, porém utiliza de signos parecidos como os ambientes fechados e escuros, iluminados por luzes neon que irrompem um lilás absurdo, além das grandes propagandas japonesas que se espalham pelo ambiente. Ou ainda, a sala de reunião dos Tyrell, na obra anterior, que tem uma semelhança com a de Wallace na obra de Villenueve. Deakins, até certo ponto, também faz isso, até pelo fato de que sendo uma sequência necessita ter uma continuidade lógica visual, mas tem um espaço muito maior para explorar outros ambientes, além de explorar as cores, as suas unidades de maneira exemplar. 
            
A trilha sonora de Hans Zimmer, em seu reverberar eletrônico faz jus ao atmosférico universo sonoro criado por Vangelis. Ajudando a criar no longa não só um aspecto futurista e robótico, mas também de mistério, afinal existe um toque noir que percorre todas as investigações. A intensidade da trilha se faz, pois, em alguns momentos ela se eleva de forma tão grandiosa que parece estourar. São em momentos crucias que ela explode e se torna impactante, ou ainda agoniantes.
            
Villenueve consegue fazer o que os diretores de hoje, num emaranhado de reboots e remakes, não conseguem realizar. Ele homenageia a obra da qual está se utilizando, além de produzir uma obra própria e concisa. Impressionantemente, uma obra que se sustenta sozinha, talvez ganhe mais apelo emocional conhecendo a obra original, porém sua precisão e densidade técnica faz o filme valer por si só. A sequência inicial do longa, por exemplo, expondo um olho e com um corte, expõe usinas acizentadas em formatos circulares. Assim, como o longa original, no qual os olhos são importantes na identificação de quem é ou não o humano. Aliás, até mesmo alguns objetos têm potencias significativos próximos a outros do passado.
            
Atendo-se ao enredo, K é um personagem muito bem elaborado e interpretado por Ryan Gosling, o compondo com um rosto inexpressivo e por vezes irrompendo no olhar, nos gritos, algo a mais. Sua relação, a princípio, é de plena obrigação com sua chefe, interpretada por Robin Wright, apresentando-se como um perfeito funcionário. Em sua primeira cena, que é carregada por um visual noir, em que a escuridão, a luz e a fumaça de um fogão constroem uma atmosfera tensa e decadente, ele caça as versões anteriores dos Replicantes, porém não sente piedade de nenhuma deles, mesmo sabendo que são o mesmo que ele. Tudo é apenas trabalho para ser realizado.  Talvez seu nome tenha sido escolhido em especial para homenagear o autor que inspirou o filme, Phillip K. Dick. Porém, é possível enxergar uma referência em K de O Processo de Kafka, que explora um personagem que se vê em uma jornada imensa sem explicação alguma, sofrendo pela imensidão ininteligível que o rodeia. É quase nessa posição que este personagem se encontra e talvez sofra tanto quanto o personagem do livro do autor tcheco.
            
Mas o pequeno enredo que se desenvolve sobre solidão deste personagem é com certeza o mais interessante. K compra um holograma chamado Joi (que remete à Joy, que significa alegria), personagem interpretada com um gigantesco carisma por Ana de Armas. Ele aparentemente se apaixona por ela e faz de tudo para que se desafie o que é este holograma e o que é a realidade. Joi, em retorno, tenta o fazer se sentir especial, até mesmo dando um nome para ele, Joe. Os momentos que os dois ficam mais tempos juntos é quando o protagonista se encontra na sua claustrofóbica casa, completamente sozinha e coloca um Jazz antigo para tocar. Essa narrativa engendra um questionamento pesado sobre o amor e sobre a jornada de K, em especial, no momento que se encontra com a propaganda do produto do qual comprou.
           
Sua missão se torna verdadeiramente perigosa quando descobre que possivelmente uma replicante de uma versão anterior conseguiu ter um bebê, algo que seria inconcebível. Nesse momento é que Wallace, o atual criador dos novos replicantes aparece, interpretado com uma figura imponente e intransponível por Jared Leto. Ele ocupa a mesma posição do Tyrell no longa anterior, um homem com uma megalomania intensa, talvez aqui até mais assustadora. Suas elucubrações bíblicas soam menos como loucura e mais como uma afirmação de um ego fortificado, de uma certeza tão absoluta que cada palavra que solta é como um profético escrito do destino. Ao seu lado, uma fiel companheira, Luv (algo como Love, que significa amor), interpretada por Sylvia Hoeks com um rosto endurecido, uma replicante extremamente obediente, que faz de tudo para apetecer seu mestre.
            
Existe uma contraposição entre Joi e Luv. Se Joi remete a certa paixão que faz de tudo para que o outro seja elevado, Luv remete a um amor obsedante, em que existe uma frieza tão grande. Sendo possível afirmar que são duas faces de uma mesma coisa, na qual K, no fundo está à procura. Ser reconhecido, se tornar humano, sujeito possível de amor. Além desse núcleo de personagens, alguns personagens do filme anterior aparecem novamente. O próprio Deckard, interpretado com um cansaço real por Harrison Ford, e até mesmo o Gaff. A participação deles não é puro apelo aos fãs da obra original, elas têm um importância necessária e lógica ao filme. Aliás, a participação dos mesmos consegue ainda fazer acréscimos à obra original, dando algumas respostas e criando algumas dúvidas a mais. 
            
Mas se o longa faz o mesmo questionamento da obra anterior como se torna necessária ou ainda reverbera inquietações? Villenueve impõe uma forte demonstração de como tudo pode ser fabricado de maneira simples e todos somos enganados de forma pueril. O amor pode ser fabricado por um holograma como Joi, ou ainda as memórias falsas que são produzidas por Ana Stellina, interpretada com sensibilidade por Carla Juri. Assim, o que faz um ser humano parece ser muito mais um conceito que um fator orgânico ou psicológico. Se os humanos têm medo de perderem seu lugar, pois os replicantes talvez possam procriar é porque se esqueceram de que o ser humano é um ser de muito mais camadas subjetivas (penso aqui não é subjetividade puramente psicológica, mas ética). Dessa forma, a jornada de K é uma jornada muito maior que a de apenas descobrir o que está acontecendo, mas sim um vaguear pela solidão de um I.A que não sabe mais o que ele é, não sabe mais como funciona o mundo.
            
Devo salientar, por fim, a montagem do filme que é primorosa, criando transições poéticas em relações às luzes da cidade e a chuva melancólica, investindo com toda força num ritmo vagaroso e meditativo. Blade Runner 2049 é uma sequência que amplia os temas abordados no longa anterior e ecoa as suas implicações estéticas. Assim sendo, Villenueve conseguiu criar uma obra que se insere em sua filmografia, ou seja, não perde o seu estilo narrativo, ao passo que compreende e se alinha ao universo criado por Ridley Scott. 

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