
Em
um dos seus mais simples filmes, Hong Sang-Soo brinca com as possibilidades da
identidade de um sujeito, com uma comédia sútil, fazendo sua narrativa surgir
como o mais puro devaneio. Narrando as desventuras de Mijung, que parece estar
perdida em seus papéis cotidianos e seu namorado fica louco, perdido em sua
concepção austera da mulher.
Mijung é uma personagem complexa. É
interessante e cômico a narrativa iniciar a partir dos cochichos de seu
namorado, Kim Young-Soo, com um amigo sobre as dificuldades de namorar com ela.
De forma icônica, o diretor apresenta Mijung a partir de um engano no café. Não se sabe ao
certo se ela está em total controle do que deseja fazer, ou se está
completamente perdida, talvez se encontre exatamente nesse limiar. Toda vez que
é apresentada dialogando com outros homens, fingindo ser quem é, ou fingindo
ser quem não é, ela demonstra uma tristeza na fala, pois todos os homens se
encantam por ela facilmente, porém com muita dificuldade ela se apaixona de
volta. Em certo momento, afirma “quero experimentar todos os tipos de escrita”,
e é exatamente isso que ela faz, experimenta uma escrita de si o tempo todo,
sabendo que sua escrita é sempre singular, pois efetua-se no real, para longe
das expectativas de qualquer um. A atriz You-young Lee surpreende no papel da
personagem, conseguindo extrair essa complexidade da personagem pelos olhares,
por vezes melancólicos e por vezes controladores, quase obsessivos.
Em contrapartida, seu namorado,
enquanto é apresentado conversando com seus amigos, sempre delineia uma imagem
inocente e pueril dela, mesmo quando costumam fofocar sobre ela bastante. Ele é
facilmente taxado como um homem conservador, não suporta vê-la bebendo, sempre
desconfiado, extremamente inseguro. A atuação de Kim Ju-Hyuk é pertinente,
nunca exibindo um sorriso pleno no rosto, com uma insegurança na fala, nos
movimentos do corpo, até mesmo o pé quebrado do personagem denota certa
dependência. Seus momentos são da mais cômica decadência masculina que o
diretor já produziu, todos os homens do longa estão neste processo. Os outros
pretendentes de Mijung também vivenciam tal experiência. Talvez, o grande
discurso que atravessa o longa é a produção de uma vivência menos presa nas
imagens inadequadas dos sujeitos, provavelmente de todos eles.
Em sua estética, a repetição, que já
é uma marca registrada, aqui é muito mais cômica que o habitual, já que todos a
reconhecem como Mijung e ela sempre nega ser essa mulher que está no discurso
do outro. O movimento de câmera também usado de maneira simples e moderna, pois
a câmera se desprende de seus personagens e se propõe à devaneios do próprio
espaço. Numa sequência em que Young-Soo está esperando para sua namorada abrir
a porta de casa, a câmera se movimenta para rua, como se acompanhasse a
distração dele no tédio daquele momento. Além disso, algumas das composições
cênicas como a do quarto de Young-Soo, por conta de sua iluminação, sua
restrição de espaço e ainda o posicionamento baixo da câmera conseguem
construir um grau de intimidade forte.
A sequência final deste longa é
surpreendente e aponta para a complexidade da personagem. Quem é Mijung? É
apenas uma palavra na qual se referem para identificar um padrão de sujeito
fixo, assim, para fugir dessas amarras, a personagem vaga. Neste vaguear
errôneo possivelmente reencontrará o que precisa, ou talvez não.
Com uma beleza sem igual e uma confusão quase onírica, Hong
Sang-Soo encerra seu filme com um intimismo. Transformando a simplicidade na
maior aliada da complexidade. Sua economia narrativa é de um agridoce cômico,
que não ousa ser surrealista, mas é onírico e ousa trazer afetos dos mais
distintos, em formas narrativas distintas, mas não é com lirismo que o faz e
sim com a poesia dos bêbados, dos que vagam, dos comuns.
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