
O mais recente filme de Alex
de Iglesia parece querer provocar certa espécie de misantropia, ao colocar um
número restrito de personagens cotidianos num ambiente enclausurado, os
forçando a se comunicar. Porém, pouco a pouco o que se vê é um desespero absurdo
e até mesmo preconceito. Apesar de sua habilidade em produzir comédias com os
trejeitos e detalhes de seus personagens, o desenrolar de sua narrativa acaba
por revelar pouca força em seu comentário.
Seus personagens são quase estereótipos ambulantes, uma
senhora da classe média, severa com as palavras, mas amedrontada na ação, ou
ainda o mendigo inebriado que brada citações proféticas da bíblia. Quanto mais
se comunicam, mais estes personagens deixam revelar preconceitos terríveis.
Veja bem, a situação que eles se encontram é de uma premissa interessante.
Durante a manhã num bar, misteriosamente as pessoas do lado de fora desaparecem
e aparentemente os arredores do local são fechados, como se aquele bar estivesse
sendo restringido. Quando um homem tenta
deixar o bar, ele é baleado por um sniper, dessa forma, as pessoas restantes se
veem encurraladas dentro deste pequeno local, sem saber o que está acontecendo.
Esse início é interessante, pois os personagens são
obrigados a se revelarem um atrás do outro, o diretor até consegue criar certo
suspense seguido de um alivio cômico para alguns deles. Porém, quanto mais
esses personagens se revelam mais preconceitos e absurdos eles vão se tornando,
usando de valores morais duvidosos para selecionar quais membros do grupo irão
testar os limites de sua locação e até mesmo os motivos de como foram parar
ali. Pouco a pouco, a misantropia total toma conta de todos os sujeitos daquele
lugar, os personagens só conseguem agir com seu próprio ego, destituindo qualquer
possiblidade de comunhão humana. Ainda mais quando se descobre o motivo de toda
situação.
É possível dizer que esta é uma comédia sem escrúpulos,
sendo guiada completamente pelo escárnio, porém como o desenvolvimento e os
diálogos de seus personagens soam sempre exagerados a sua eficácia de produzir
o riso começa a ser frágil. O filme acerta de fato quando deve ser nojento,
repugnante, seus momentos que carregam essa intenção são certeiros e
agoniantes. Iglesia parece ter como base os filmes B de outrora para a produção
estética desse seu filme, carregando diversos conceitos dos mesmos, porém esses
conceitos antigos acabam por ser tão conservadores quanto seus personagens, até
mesmo sua direção sofre de um movimento antiquado, o male-gaze, algo machista e
ridículo. Guiando o suspense final em close-ups e movimentos para o corpo de
uma de suas personagens, tal personagem que vai ficando praticamente nua
durante o longa, devido ao desenrolar das situações.
Assim sendo, parece que Iglesia gostaria de fazer uma
auto-paródia, demonstrar o terrível ódio do ser humano que já existe neste
subgênero. Sua vontade de brincar os filmes B não consegue ser revisionista,
não consegue nem mesmo ser o que pretende ser de fato, pois soa forçado,
antiquado e em alguns poucos momentos divertido. Uma pena que tenha produzido
uma premissa tão interessante para perder-se aos poucos no fraco
desenvolvimento e nesse preconceito barato do male-gaze.
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