sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

2017 – Os Meyerowitz (Noah Baumbach, EUA) **** (4.0)


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Baumbach, assim como Wes Anderson, tem uma fixação temática por famílias excêntricas, disfuncionais e cheias de criatividade. Neste longa, não é diferente, um drama cômico sobre os três filhos de Harold Meyerowitz, um pai amargo, distanciado de seus íntimos pelo próprio egocentrismo que está passando por certas dificuldades por conta da velhice. Assim, Matthew, Danny e Jean se reúnem à contragosto para ajudá-lo.
            
Estruturado em três capítulos e mais um epílogo, o longa ressalta a relação dos personagens com seu pai de forma sistematizada. Primeiro, Danny, interpretado com aquele ar de cansaço de Adam Sandler, que um dia fora professor de piano, porém hoje desempregado e divorciado, tornou-se apenas um pai extremamente afável para sua filha. Seu capítulo demonstra a dificuldade de se aproximar de seu pai, pois sente-se desde sempre como o filho excluído, taxado como aquele de pouco talento, porém o que sempre almejou o pseudo-sucesso de seu pai (enquanto Danny era pela música, seu pai é um escultor). Já Matthew, interpretado com velocidade por Ben Stiller, era o filho favorito, porém nunca quis esse posto, sentia-se sufocado pelos desejos do próprio pai, tanto que caminhou para a linha dos negócios, algo como uma afronta à arte de seu pai. Já Jean, interpretada por Elizabeth Marvel com aparente timidez, foi a filha mais reprimida e indesejada, pois observava seus irmãos brigando por atenção, ou fugindo dela, enquanto ela, estava de fora desse circuito.
            
Dustin Hoffman representa com um ar arrogante, ao mesmo tempo que senil, o seu personagem. Harold é um homem difícil de aturar, não escuta ninguém, simplesmente faz o que quer. Sua figura paterna era tamanha que suprimia o desenvolvimento de seus filhos. No decorrer do longa, é possível perceber certas semelhanças entre ele e seus filhos, como por exemplo, a dificuldade da escuta que existe em Matthew, ou ainda a negação da condição médica que existe em Danny, quanto mais eles tentam fugir de suas semelhanças com o pai, existe aqui ou ali, algo corriqueiro que os une. E com certa maestria, os diálogos de Baumbach parecem se atropelar, como se cada um precisasse falar por cima do outro para ser escutado. Demonstrando com isso a própria incomunicabilidade desta família, eles se esforçam ao máximo para se entenderem, para manterem contato, mas quanto mais ficam juntos mais se machucam. Dentro desses diálogos e diversas situações problemáticas, o diretor constrói certas movimentações humorísticas.
            
A sequência na qual Harold acredita que um homem acabou trocando de casaco com ele, fazendo seu filho, Matthew ir buscá-lo, tem uma magia do cinema burlesco, em que o travelling acompanha todos os personagens na corrida, indo e voltando. Esteticamente, o longa também apresenta uma montagem diferente, que corta a narrativa em momentos de ódio dos personagens, nos gritos, nos descontroles, como se procurasse suprimir a produção emotiva destes personagens. Porém, no fim do longa quando a culpa e a dor dos personagens se esvai de fato, ou seja, a raiva não é mais o sentimento deles, existe uma liberação emocional necessária para a superação desse afeto ruim. O diretor opta por deixar fluir a sequência, numa emocionante interpretação de Ben Stiller e Adam Sandler.
            
Existem alguns pontos avulsos no longa, como a paródia ao filme artístico universitário que é feita pela personagem da filha de Danny e a situação cômica que é originada do relato de Jean sobre sua adolescência, uma história pesada, mas que tem um efeito até mesmo estranho para com o longa. São pontas que não se encaixam também no desenvolver dos personagens, entretanto, não prejudicam o belíssimo arco narrativo de todos, aliás, é possível dizer a partir dessas situações em conjunção do longa como um todo, que a narrativa se encontra em dizer adeus a tudo aquilo que faz mal, pensar numa vida digna.
            
Portanto, pode não ser o longa mais surpreendente, ou ainda diferente do diretor, afinal, parece ainda mais afundado no que já fez, porém, sua força dramática e sua comédia corriqueira, expresso na própria difícil comunicação dos personagens, por atuações e diálogos incompletos, interrompidos, assim como sua montagem que interrompe e suas histórias que são fragmentos. Fragmentos de afetos e movimentos.

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