sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

2017 – O Estranho que Nós Amamos (Sofia Coppola, EUA) **** (4.0)


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O novo filme de Sofia Coppola restringe suas personagens em planos exuberantes, muitos deles fechados e cheios de mistérios. Carregando uma ambiguidade sisuda em cada personagem e cada acontecimento, nesta releitura desta obra. Narrando a estadia de um soldado da União, durante a guerra civil americana, que é encontrado e salvo por mulheres num internato feminino.
            
Esse não é um remake da obra de Don Siegel, com a presença forte de Clint Eastwood, mas sim uma nova adaptação do livro de Thomas Cullinan. A grande tensão neste enredo simples e restringido se encontra não só no soldado McBurney ser um soldado da União no ambiente inimigo, interpretado com um olhar inebriado e receoso de Colin Farrel, mas principalmente pelo fato de ser um elemento diferente naquele internato completamente feminino. Cada personagem deste ambiente tem um cuidado em sua construção, por mais que algumas, as mais velhas, tenham uma participação mais poderosa na narrativa. Martha, interpretada por Nicole Kidman, não esconde sua rigidez de suas alunas e nem mesmo do soldado, fazendo o que pode para protegê-las de qualquer suposto mal; Edwina, interpretada por Kirsten Dunst, é uma das mais velhas e sempre aparenta está insatisfeita com a sua posição na casa; Alicia, interpretada com um mistério no olhar por Elle Fanning, tem uma curiosidade juvenil e o maior ímpeto na casa. As mais novas são Jane, interpretada por Angourie Rice, Emily, interpretada por Emma Howard, Amy, interpretada por Oona Laurence e, por fim, Marie, interpretada pela simpática Addison Riecke.
            
O que move a narrativa é irrupção no paraíso. Todo o longa se conota um espírito de suspense. Com uma fotografia belíssima e naturalista, em que as curvas das árvores e os elementos dispostos nos arredores da casa se fazem de forma significativa para os personagens, além disso, Coppola ainda utilizada da luz natural, o que consegue fazer o filme pulsar a época em que se passa a história, assim como dando um relevo visual mais forte ao longa. Aliás, o design de produção é de um afinco técnico impressionante, as vestimentas e a ambientação é tremendamente eficaz, tudo isso em conjunto ao aspecto blasé criado pelo uso do branco e as cores extremamente amenas e puras, trazendo uma suposta ingenuidade. Os cortes secos e as elipses criam um aspecto até mesmo limpo para a narrativa, criando uma suspensão quantitativa do tempo e certa fragmentação do acontecimento, se retém o mínimo que no caso da diretora era o principal. Em conjunto a isso, a forma com que a diretora filma o corpo de Colin Farrel e os olhares das suas personagens denotam o voyeurismo e o surgimento do desejo nas jovens.
            
O que sustenta toda essa suspensão são atuações ambíguas por parte de todos os personagens, pois escondem seus motivos, fazendo-os modificarem com olhares e pequenas ações. Essa ambiguidade cria uma atmosfera de incerteza sobre os acontecimentos que estão por vir, o que se torna muito potente ao se relacionar à produção do desejo nas personagens. Existe uma cena em específico, que a personagem da Nicole Kidman emula uma castração com a retirada de certo objeto fálico de McBurney, porém antes de surgir como uma ação maquiavélica ou completamente pior, realizada com fins de castração – entendendo o termo aqui num sentido de corte, ou melhor, um freio no fluxo de desejo que parecia desordenar o universo parnasiano –, o que realmente se conota é autodefesa das mulheres numa situação adversa, uma defesa de um tipo de guerra diferente que a travada pelos homens daquele momento histórico.
            
Com um afinco técnico belíssimo e uma noção estética para composição de planos, Coppola constrói um suspense, exatamente por seu minimalismo e tom, porém o que impressiona é a poesia natural acerca da ambiguidade.

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