quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

2016 – A Grande Muralha (Zhang Yimou, China e EUA) ** (2.0)


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É difícil até comentar sobre este longa, vindo de um dos grandes diretores do gênero Wuxia, aqui parece produzir uma narrativa visual que prioriza muito menos seus significados e nuances, apenas quer saturar o espectador. Por mais que exista beleza em suas cenas de ação, até mesmo intensidade, coreografias complexas, mas a sua plasticidade e os personagens estereotipados deturpam o poder que este longa poderia ter como obra de ação. Narrando a história de um grupo de soldados britânicos na China, capturados por chineses na muralha.
            
Não há como negar que a produção deste filme foi como capturar a audiência chinesa. Primeiro, o filme se passa em sua mais icônica maravilha, a Grande Muralha, porém esqueçam o conteúdo histórico, não é sobre isso o filme e sim um “filme de monstro”. A muralha existe neste longa revisionista não para defender a nação dos Mongóis, mas sim de monstros, como se fossem lagartos gigantescos e sanguinários. Em segundo lugar, o ator mais querido nesse gigantesco país é o Matt Damon, algo que ao meu ver é um pouco inusitado, assim sendo ele é um dos protagonistas britânicos, chamado William, acompanhado de Pedro Pascal, o Tovar.  
            
Não existe muito pano de fundo para o enredo. O longa é guiado completamente pelas cenas de ação. Como de praxe Yimou usa das cores para produzir uma elaboração rítmica visual às cenas, porém, diferente de filmes seus como o Herói, em que as cores e como se expressam ganham sentidos poderosos, além da poesia visual. Aqui soam apenas como vestimenta, não significam nada, apenas separam cada um dos exércitos dentro da Muralha. Entretanto, algumas das cenas de ação são realmente de alto nível, ultrapassando os blockbusters comuns, já que são momentos bem elaborados e muitas vezes com técnicas de filmagem com mais relevo. Os efeitos visuais no geral são bem feitos, por mais que exista uma hiperexposição dos monstros em tela e um estupendo exagero na complexidade de derrotá-los, eles conseguem ser pelo menos assustadores e intensos.
            
Além disso, a fotografia é muito inteligente ao preconizar o cinza e a dureza do local, além de um contraste eficaz. Pois, o ambiente reduzido ganha uma certa aspereza que o torna realista. A sua movimentação de câmera também é muito bem realizada, fazendo o espectador entender o que acontece e expondo as nuances de toda a coreografia. Ainda usando de ângulos inusitados e fortes, com propostas imersivas e de intensidade.
            
O enredo tem um problema óbvio. Pode se dizer que é o whitewashing, além de uma superioridade branca bizarra. Este filme tem aquele velho problema, os chineses estão há anos lutando contra tais criaturas e não descobrem como derrotá-los. Com muito pouco, William, o homem branco, os derrotam. E assim, guiam o povo oriental para a vitória. Como se esse homem branco pudesse trazer novos conhecimentos, não só novos, porém melhores. Chega a ser pior ainda ao saber ter sido dirigido por um diretor com o tamanho de qualidade e história como o Zhang Yimou. Por mais que ele tenha realizado o filme por qualquer motivo (ouvi dizer que foi para seus filhos), esse subtexto narrativo é danoso para a cultura de seu país. Bem que Jia Zhangke disse em suas entrevistas que havia perdido a esperança da quinta geração chinesa de cineastas (Zhang Yimou, Chen Kaige e outros), pois a princípio usavam da cultura chinesa para explorar modos próprios de fazer cinema, porém, hoje em dia, comercializam essa cultura.
            
Dessa forma, A Grande Muralha é um filme estranho, por mais que divirta e impressione com sua agilidade visual, seu fiapo de enredo é frágil, além de ser um tremendo caso de whitewashing.

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