
É
difícil até comentar sobre este longa, vindo de um dos grandes diretores do
gênero Wuxia, aqui parece produzir uma narrativa visual que prioriza muito
menos seus significados e nuances, apenas quer saturar o espectador. Por mais
que exista beleza em suas cenas de ação, até mesmo intensidade, coreografias
complexas, mas a sua plasticidade e os personagens estereotipados deturpam o
poder que este longa poderia ter como obra de ação. Narrando a história de um
grupo de soldados britânicos na China, capturados por chineses na muralha.
Não há como negar que a produção
deste filme foi como capturar a audiência chinesa. Primeiro, o filme se passa
em sua mais icônica maravilha, a Grande Muralha, porém esqueçam o conteúdo
histórico, não é sobre isso o filme e sim um “filme de monstro”. A muralha
existe neste longa revisionista não para defender a nação dos Mongóis, mas sim
de monstros, como se fossem lagartos gigantescos e sanguinários. Em segundo
lugar, o ator mais querido nesse gigantesco país é o Matt Damon, algo que ao
meu ver é um pouco inusitado, assim sendo ele é um dos protagonistas
britânicos, chamado William, acompanhado de Pedro Pascal, o Tovar.
Não existe muito pano de fundo para
o enredo. O longa é guiado completamente pelas cenas de ação. Como de praxe
Yimou usa das cores para produzir uma elaboração rítmica visual às cenas,
porém, diferente de filmes seus como o Herói, em que as cores e como se
expressam ganham sentidos poderosos, além da poesia visual. Aqui soam apenas
como vestimenta, não significam nada, apenas separam cada um dos exércitos
dentro da Muralha. Entretanto, algumas das cenas de ação são realmente de alto
nível, ultrapassando os blockbusters comuns, já que são momentos bem elaborados
e muitas vezes com técnicas de filmagem com mais relevo. Os efeitos visuais no
geral são bem feitos, por mais que exista uma hiperexposição dos monstros em
tela e um estupendo exagero na complexidade de derrotá-los, eles conseguem ser
pelo menos assustadores e intensos.
Além disso, a fotografia é muito
inteligente ao preconizar o cinza e a dureza do local, além de um contraste
eficaz. Pois, o ambiente reduzido ganha uma certa aspereza que o torna realista.
A sua movimentação de câmera também é muito bem realizada, fazendo o espectador
entender o que acontece e expondo as nuances de toda a coreografia. Ainda
usando de ângulos inusitados e fortes, com propostas imersivas e de
intensidade.
O enredo tem um problema óbvio.
Pode se dizer que é o whitewashing, além de uma superioridade branca bizarra.
Este filme tem aquele velho problema, os chineses estão há anos lutando contra tais
criaturas e não descobrem como derrotá-los. Com muito pouco, William, o homem branco,
os derrotam. E assim, guiam o povo oriental para a vitória. Como se esse homem
branco pudesse trazer novos conhecimentos, não só novos, porém melhores. Chega
a ser pior ainda ao saber ter sido dirigido por um diretor com o tamanho de
qualidade e história como o Zhang Yimou. Por mais que ele tenha realizado o
filme por qualquer motivo (ouvi dizer que foi para seus filhos), esse subtexto
narrativo é danoso para a cultura de seu país. Bem que Jia Zhangke disse em
suas entrevistas que havia perdido a esperança da quinta geração chinesa de
cineastas (Zhang Yimou, Chen Kaige e outros), pois a princípio usavam da
cultura chinesa para explorar modos próprios de fazer cinema, porém, hoje em dia,
comercializam essa cultura.
Dessa forma, A Grande Muralha é um
filme estranho, por mais que divirta e impressione com sua agilidade visual,
seu fiapo de enredo é frágil, além de ser um tremendo caso de whitewashing.
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