segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

2016 – Pós-Imagem ( Andrzej Wajda, Polônia) ***1/2 (3.5)


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Esse é o último longa de Andrzej Wajda, importantíssimo diretor polonês que morreu no ano de 2016. Em que com certa frieza visual narra a história de Władysław Strzemiński, importante pintor polonês, que lutou pela possibilidade da expressividade na arte, da subjetividade, durante o regime soviético (comandado por Stálin, no momento), no qual só permitia a existência de uma forma de arte: o realismo social.
            
O longa retrata uma batalha na qual Wajda também fez parte. Seus longas tinham uma espécie de expressividade, algo onírico, algo abstrato que escapava pelo olhar realista do cinematógrafo. Strzemiński, interpretado com uma força no olhar por Boguslaw Linda, já é apresentado como uma figura inusitada, quase caindo no estereótipo do professor biruta de faculdade, quando rola pela grama com seus alunos. Esse ato se torna ainda mais inusitado quando ele não tem uma das pernas. Desde o início do longa ele impõe a sua visão sobre a arte, até mesmo de forma muito didática, “Quando olhamos para um objeto, capturamos seu reflexo em nosso olho, nossa retina. Quando paramos de olhar para ele e mudamos nosso olhar para outro lugar, uma pós-imagem do objeto permanece no olho, capturada na retina. Um traço do objeto com a mesma forma, mas com a cor oposta. Uma pós-imagem. Pós-imagens são as cores do interior do olho com o qual olho para um objeto. Uma pessoa só enxerga aquilo que ela tem consciência”. Esse seu conceito é que dá o título ao filme.
            
O personagem passa se sentir perseguido quando existe essa imposição do realismo social na arte, ou seja, a arte só podia narrar fatos históricos e ter um traço extremamente realista. Algo aquém da Revolução Russa que se influenciava pelo cubismo e futurismo, artes modernistas e completamente avessas ao realismo perfeito. O conceito do pintor não faz sentido no realismo, seu expressionismo abstrato, suas pinturas pareciam mapas com formas que se assemelhavam a bactérias. Uma cena em específico que demonstra como ele se sufoca com tal oposição é quando está para pintar um quadro, sentado no seu quarto e a cor vermelha invade tudo. Haviam colocado um gigantesco pano vermelho soviético por todo seu prédio, assim, a luz incidia e transformava todo o universo de cores em um tom só, matando a produção do artista. Esse momento carrega a expressividade necessária que faz a forma e conteúdo do longa se encontrarem de maneira coesa e bela.
            
Porém, ao mesmo tempo, o filme carrega certa frieza. Pois o pintor vai cada vez mais decaindo numa tristeza profunda na impossibilidade de produzir. Mesmo quando produz atos de resistência, quando fingi ser um pintor realista, quando procura enganar o governo aliando de seus alunos, mesmo aí, o filme não se faz mais com a mesma expressividade. Carrega apenas uma frieza que não condiz tão ferozmente com a carga de resistência do personagem, ele é um homem que suporta a vida com os olhos. Contudo, a forma que cuida da filha, por exemplo, é de uma frieza estranha. De qualquer forma, não se compreende bem esta escolha estética de Wajda já que a sua forma neste longa é praticamente a do social realismo, parece que não há espaço para a expressividade.
            
Pós-Imagem é um filme melancólico de um artista que se vê enclausurado mesmo dentro de seu quarto e por fim nos seus quadros. No enquadramento enxerga-se Strzemiński chegando numa espécie de decadência triste e impressionante. Este longa tem a sua importância, atual, com os ataques ao mundo da arte recentemente, principalmente no Brasil.

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