
Esse
é o último longa de Andrzej Wajda, importantíssimo diretor polonês que morreu
no ano de 2016. Em que com certa frieza visual narra a história de Władysław Strzemiński, importante pintor polonês, que lutou
pela possibilidade da expressividade na arte, da subjetividade, durante o
regime soviético (comandado por Stálin, no momento), no qual só permitia a
existência de uma forma de arte: o realismo social.
O longa retrata uma batalha na qual
Wajda também fez parte. Seus longas tinham uma espécie de expressividade, algo
onírico, algo abstrato que escapava pelo olhar realista do cinematógrafo.
Strzemiński, interpretado com uma força no olhar por Boguslaw Linda, já é apresentado
como uma figura inusitada, quase caindo no estereótipo do professor biruta de
faculdade, quando rola pela grama com seus alunos. Esse ato se torna ainda mais
inusitado quando ele não tem uma das pernas. Desde o início do longa ele impõe
a sua visão sobre a arte, até mesmo de forma muito didática, “Quando olhamos
para um objeto, capturamos seu reflexo em nosso olho, nossa retina. Quando
paramos de olhar para ele e mudamos nosso olhar para outro lugar, uma
pós-imagem do objeto permanece no olho, capturada na retina. Um traço do
objeto com a mesma forma, mas com a cor oposta. Uma pós-imagem. Pós-imagens são
as cores do interior do olho com o qual olho para um objeto. Uma pessoa só
enxerga aquilo que ela tem consciência”. Esse seu conceito é que dá o título ao
filme.
O personagem passa se sentir
perseguido quando existe essa imposição do realismo social na arte, ou seja, a
arte só podia narrar fatos históricos e ter um traço extremamente realista.
Algo aquém da Revolução Russa que se influenciava pelo cubismo e futurismo,
artes modernistas e completamente avessas ao realismo perfeito. O conceito do
pintor não faz sentido no realismo, seu expressionismo abstrato, suas pinturas
pareciam mapas com formas que se assemelhavam a bactérias. Uma cena em
específico que demonstra como ele se sufoca com tal oposição é quando está para
pintar um quadro, sentado no seu quarto e a cor vermelha invade tudo. Haviam
colocado um gigantesco pano vermelho soviético por todo seu prédio, assim, a
luz incidia e transformava todo o universo de cores em um tom só, matando a
produção do artista. Esse momento carrega a expressividade necessária que faz a
forma e conteúdo do longa se encontrarem de maneira coesa e bela.
Porém, ao mesmo tempo, o filme
carrega certa frieza. Pois o pintor vai cada vez mais decaindo numa tristeza
profunda na impossibilidade de produzir. Mesmo quando produz atos de
resistência, quando fingi ser um pintor realista, quando procura enganar o
governo aliando de seus alunos, mesmo aí, o filme não se faz mais com a mesma
expressividade. Carrega apenas uma frieza que não condiz tão ferozmente com a
carga de resistência do personagem, ele é um homem que suporta a vida com os
olhos. Contudo, a forma que cuida da filha, por exemplo, é de uma frieza
estranha. De qualquer forma, não se compreende bem esta escolha estética de
Wajda já que a sua forma neste longa é praticamente a do social realismo,
parece que não há espaço para a expressividade.
Pós-Imagem é um filme melancólico de
um artista que se vê enclausurado mesmo dentro de seu quarto e por fim nos seus
quadros. No enquadramento enxerga-se Strzemiński chegando numa espécie de
decadência triste e impressionante. Este longa tem a sua importância, atual,
com os ataques ao mundo da arte recentemente, principalmente no Brasil.
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