sábado, 24 de fevereiro de 2018

2004 – Bela Cidade (Asghar Farhadi, Irã) **** (4.0)


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Em seu segundo filme, Farhadi faz mais um comentário direto às formas culturais de seu país. Neste longa, diversas questões são abertas sobre o funcionamento das leis e sua burocracia transcendental. Narrando a história de A’la que, ao sair de prisão, tenta ajudar seu amigo Ahkbar condenado à morte.
            
Deixando de forma mais simples, Ahkbar foi acusado de matar sua namorada aos dezesseis anos, assim, ficou preso até completar a idade suficiente para ser enforcado. Porém, existe uma cláusula na Lei dizendo que se o assassino conseguir o perdão da família, da pessoa que matou, ele não seria morto. Dessa forma, o A’la fez amizade com Ahkbar durante seu curto período neste reformatório infantil, que funciona praticamente aos mesmos preceitos de um sistema carcerário. Quando sai se encontra com Firoozeh, irmã do condenado, para então conseguir se encontrar com o pai daquela que foi assassinada.
            
Existe uma simplicidade visual muito bela neste vaguear de seus personagens à procura de soluções, de perdões. Contendo nos seus protagonistas jovens uma força que produz certa leveza nos principais gestos do filme, em contraponto à dureza e rigidez dos adultos. Existe algo inspirado na dupla Kiarostami e Panahi, em que as portas e janelas azuis parecem introduzir a ambientação rural da região iraniana. Uma poética referência ou simplesmente algum comum culturalmente. Em meio a dor e sofrimento dos dois, a dificuldade de se imporem aos mais velhos, os dois acabam por se aproximar em conversas próximos dos trens e lanchonetes sujas.
            
Existem diversas discussões interessantes do funcionamento da religião e das leis no país islâmico, como as duas estão entrelaçadas de forma que no fundo apenas a moral parece prevalecer. Quando A’la discute com um Imame que frequenta a mesma mesquita que Abolqasem, o pai rígido, sobre convencê-lo de dar o seu perdão, o resultado que se chega é triste. Pois a visão moral da história é sempre a mesma, a vingativa. Percebe-se logo de cara que Abolqasem não faz a situação perdurar unicamente por ter o direito divino para negar o pedido, mas sim por um ato vingativo. Mesmo quando A’la questiona o perdão divino tão explicitado nas passagens religiosas ele é rebatido, o homem de luto preferiria rescindir com o próprio Deus para perseverar na sua busca vingativa. Neste momento, o próprio protagonista braveja que até uma criança entenderia, buscando talvez uma ética que só é possível entrando em devir, ou seja, movimentando-se subjetivamente.
            
Farhadi, ainda, faz sua questão irradiar, pois uma das soluções que a mulher (que não é mão da garota que foi assassinada) de Abolqasem propõe é que A’la compre o dote deu sua filha, uma pessoa com deficiência. Explorando mais uma característica arcaica da sociedade, os casamentos comprados, aqui então, orientados por uma causa certamente complexa. Com isso, o protagonista encontra uma solução que parece mais fácil e viável que convencer o velho homem rígido de desistir de sua vingança. Mas este ato iria colocar tanto o personagem principal quanto Firoozeh num impasse. Todos os personagens se encontram neste impasse terrível, pois esses dois jovens estão apaixonados, teria ele capacidade de desistir de tudo para ajudar seu amigo?
            
Parece no fundo que é tudo é culpa do amor. Ahkbar estava completamente apaixonado pela sua namorada quando a matou, assim como Abolqasem afirma que é por amor que se vinga de sua filha, além disso, é por amor, ou compaixão que A’la entra nesta busca interminável, assim como Firoozeh. Até mesmo a mãe que empurra sua filha como objeto de troca no impasse acredita o fazer o por amor a ela e compaixão pelos jovens que importunam seu marido.
            
Portanto, Farhadi constrói um longa mais complexo que o de sua estreia, assim como explora ainda mais camadas de sua sociedade, cada vez melhor decupando suas cenas. Conseguindo trazer com uma leveza e força sua ambientação fragmentada e com seus close-ups que dão mais potência a interpretação de seus atores. Bela Cidade – nome da cidade que o reformatório se encontra – é carregado de um afeto principal, o amor, que movimenta seus personagens em direções diferentes.

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