
Em seu segundo filme, Farhadi
faz mais um comentário direto às formas culturais de seu país. Neste longa,
diversas questões são abertas sobre o funcionamento das leis e sua burocracia
transcendental. Narrando a história de A’la que, ao sair de prisão, tenta
ajudar seu amigo Ahkbar condenado à morte.
Deixando de forma mais simples, Ahkbar foi acusado de
matar sua namorada aos dezesseis anos, assim, ficou preso até completar a idade
suficiente para ser enforcado. Porém, existe uma cláusula na Lei dizendo que se
o assassino conseguir o perdão da família, da pessoa que matou, ele não seria
morto. Dessa forma, o A’la fez amizade com Ahkbar durante seu curto período
neste reformatório infantil, que funciona praticamente aos mesmos preceitos de
um sistema carcerário. Quando sai se encontra com Firoozeh, irmã do condenado,
para então conseguir se encontrar com o pai daquela que foi assassinada.
Existe uma simplicidade visual muito bela neste vaguear
de seus personagens à procura de soluções, de perdões. Contendo nos seus protagonistas
jovens uma força que produz certa leveza nos principais gestos do filme, em
contraponto à dureza e rigidez dos adultos. Existe algo inspirado na dupla
Kiarostami e Panahi, em que as portas e janelas azuis parecem introduzir a
ambientação rural da região iraniana. Uma poética referência ou simplesmente
algum comum culturalmente. Em meio a dor e sofrimento dos dois, a dificuldade
de se imporem aos mais velhos, os dois acabam por se aproximar em conversas
próximos dos trens e lanchonetes sujas.
Existem diversas discussões interessantes do
funcionamento da religião e das leis no país islâmico, como as duas estão
entrelaçadas de forma que no fundo apenas a moral parece prevalecer. Quando
A’la discute com um Imame que frequenta a mesma mesquita que Abolqasem, o pai
rígido, sobre convencê-lo de dar o seu perdão, o resultado que se chega é
triste. Pois a visão moral da história é sempre a mesma, a vingativa.
Percebe-se logo de cara que Abolqasem não faz a situação perdurar unicamente
por ter o direito divino para negar o pedido, mas sim por um ato vingativo.
Mesmo quando A’la questiona o perdão divino tão explicitado nas passagens
religiosas ele é rebatido, o homem de luto preferiria rescindir com o próprio
Deus para perseverar na sua busca vingativa. Neste momento, o próprio protagonista
braveja que até uma criança entenderia, buscando talvez uma ética que só é
possível entrando em devir, ou seja, movimentando-se subjetivamente.
Farhadi, ainda, faz sua questão irradiar, pois uma das
soluções que a mulher (que não é mão da garota que foi assassinada) de
Abolqasem propõe é que A’la compre o dote deu sua filha, uma pessoa com
deficiência. Explorando mais uma característica arcaica da sociedade, os
casamentos comprados, aqui então, orientados por uma causa certamente complexa.
Com isso, o protagonista encontra uma solução que parece mais fácil e viável
que convencer o velho homem rígido de desistir de sua vingança. Mas este ato
iria colocar tanto o personagem principal quanto Firoozeh num impasse. Todos os
personagens se encontram neste impasse terrível, pois esses dois jovens estão
apaixonados, teria ele capacidade de desistir de tudo para ajudar seu amigo?
Parece no fundo que é tudo é culpa do amor. Ahkbar estava
completamente apaixonado pela sua namorada quando a matou, assim como Abolqasem
afirma que é por amor que se vinga de sua filha, além disso, é por amor, ou
compaixão que A’la entra nesta busca interminável, assim como Firoozeh. Até
mesmo a mãe que empurra sua filha como objeto de troca no impasse acredita o
fazer o por amor a ela e compaixão pelos jovens que importunam seu marido.
Portanto, Farhadi constrói um longa mais complexo que o
de sua estreia, assim como explora ainda mais camadas de sua sociedade, cada
vez melhor decupando suas cenas. Conseguindo trazer com uma leveza e força sua
ambientação fragmentada e com seus close-ups que dão mais potência a
interpretação de seus atores. Bela Cidade – nome da cidade que o reformatório
se encontra – é carregado de um afeto principal, o amor, que movimenta seus
personagens em direções diferentes.
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